A alimentar esta escalada rumo à fasquia da centena de dólares por barril de Brent, a referência principal para as ramas exportadas por Angola, está a recente declaração de Donald Trump onde este afasta, para já, a retoma das negociações de paz com o Irão.
E se afasta o regresso à mesa das negociações, mostra que a sua aposta é numa derrota militar do Irão ou, pelo menos, a sua subjugação pelo poder de fogo claramente superior, em teoria, dos norte-americanos.
Mais. O Presidente dos EUA, além de afastar um regresso no imediato às negociações, aponta na direcção da escalada da intensidade dos ataques, colocando no mapa das explosões as instalações nucleares iranianas e a sua infra-estrutura civil, incluindo pontes e centrais de dessalinização de água do mar.
Isso levou o lado iraniano a vir garantir, através do porta-voz da Guarda Revolucionária (IRGC), que Teerão responderá na mesma medida atingindo todos os interesses dos EUA na região, sugerindo que além das bases norte-americanas nos países do Golfo Pérsico, também a infra-estrutura energética dos aliados de Washington será alvejada.
Esta nova fase da guerra, que levou o barril de Brent, em Londres, a uma escalada de mais de 4% nesta quarta-feira, 22, atingindo, perto das 11:00, hora de Luanda, os 95 USD, sendo que também o WTI em Nova Iorque estava a ganhar valor na mesma proporção, para os 87,9 USD.
Em pano de fundo para esta aparente escalada sem limite, o que leva alguns analistas a admitir que o barril de Brent poderá galgar mesmo a fasquia dos 100 USD nas próximas horas, está a convicção que tanto os iranianos como os norte-americanos já sabem que militarmente só com algo de extraordinário a acontecer em breve é que poderão levar o adversário ao tapete, o que deixa como única solução alternativa conseguirem-no pela via dos apertos económicos.
Os mercados energéticos não sofreram um rombo no casco que pusesse em causa a sua capacidade de "velejar" quando os Houthis do Iémen anunciaram, há três dias, o fecho do Estreito de Bab al-Mandab, a ligação marítima entre o Mar Vermelho/Canal do Suez e o Oceano Índico.
Mas o que os analistas esperavam era que o efeito fosse dramático porque o Estreito de Bab al-Mandab tem tanta ou mais relevância para a economia planetária como o Estreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, e ambos pelas mesmas razões.
Se pelo Estreito de Ormuz, fechado, de novo, há semana e meia, pelo Irão, depois de os EUA terem retomado os ataques sobre o seu território, passam cerca de 20% do crude e do gás global, por Bab al-Mandab passa cerca de 12% do comércio geral mundial.
E, ainda sobre a importância estratégica de Bab al-Mandab, com o seu fecho pela Ansar Allah (Houthis), que dominam o oeste do Iémen, além de 12% do comércio global, por este estreito seguiam cerca de 7 milhões de barris de crude diariamente para a Ásia.
É que a Arábia Saudita, com o início da guerra lançada pela coligação israelo-americana, a 28 de Fevereiro contra o Irão, que levou ao fecho de Ormuz pelos iranianos, passou a exportar parte da sua produção de petróleo pelo oleoduto com mais de 1.200 kms que liga o Golfo Pérsico ao Porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
Esta solução, que permitiu aliviar e muito a pressão do conflito entre americanos e iranianos no Golfo Pérsico sobre os mercados petrolíferos, fica agora igualmente "entalada" no estreito de Bab al-Mandab com a decisão do Iémen em seguir o exemplo dos aliados iranianos em Ormuz.
Esta decisão é uma retaliação contra a Arábia Saudita, um dos países cujos navios deixam de poder transitar por Bab al-Mandab, que bombardeou recentemente o aeroporto de Sanaa, a capital do país, na tentativa de impedir o pouso de um avião iraniano que levada de regresso a casa dirigentes da Ansar Allah que tinham estado nas cerimónias fúnebres do aiatola Ali Khamenei, o ex-Líder Supremo do Irão, morto a 28 de Fevereiro no ataque que deu início a esta guerra.
Apesar desta nova limitação às exportações de crude do Golfo Pérsico, que potencialmente retira quase a totalidade dos 20 milhões de barris produzidos ali diariamente, do mercado, os preços da matéria-prima estão, estranhamente, a aguentar a pressão, embora com tendência de subida, aproximando-se rapidamente dos 100 USD nesta manhã de quarta-feira, 22, e o 11º dia consecutivo de bombardeamentos dos EUA sobre o Irão.
Isso deve-se, segundo vários analistas, à continuada libertação de reservas estratégicas dos EUA, que em pouco mais de ano e meio passou de mais de 500 milhões de barris para os actuais escassos 316 milhões, o nível mais baixo deste 1983, segundo dados oficiais.
Além disso, numa estratégia concertada através de mecanismos da Agência Internacional de Energia (AIE), também as grandes economias e consumidores de energia, como a China, estão há largos meses a recorrer ás suas reservas para manter os preços sob controlo.
Mas este cenário está prestes a mudar com a decisão de Pequim, igualmente sob stresse com a descida substantiva do nível das suas reservas, estimadas em mais de mil milhões de barris antes desta guerra, de retomar as aquisições de crude nos mercados internacionais, o que deverá, dentro do que é visto como normal, levar a novas subidas abruptas dos preços do barril.
Até porque o efeito desta dupla interrupção em Ormuz e Bab al-Mandab, mesmo sob pressão dos EUA para evitar esse cenário, deverá chegar aos mercados rapidamente, porque será impossível ignorar a perda de 7 milhões de barris/dia no lado da oferta.
Ainda para mais quando se sabe hoje que a decisão da Ansar Allah de fechar o canal que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico, retirando lastro ao estratégico Canal do Suez, não pode ser revertida militarmente pelos EUA, apesar do poderia da sua Marinha de Guerra, porque isso foi tentado sem sucesso, apesar das gigantescas e prolongadas campanhas de bombardeamentos.
Este momento é de tal modo impactante na economia norte-americana que Marco Rubio, o secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Donald Trump, veio nas últimas horas afirmar que os EUA não vão poder continuar eternamente a garantir a segurança da navegabilidade global.
O chefe da diplomacia norte-americana deixou assim sob a mesa a possibilidade de os EUA saírem de cena neste conflito que o próprio Donald Trump já disse ter como objectivo a reabertura de Ormuz, um canal que estava aberto e livre antes de Washington ter começado esta guerra.
Rubio disse ainda, em tom de ameaça, que os seus aliados ocidentais, nomeadamente europeus, mas também asiáticos, como Japão e Coreia do Sul, devem enviar meios para ajudar os EUA nesta missão, que alguns analistas consideram ridícula visto servir, segundo a própria Casa Branca, para abrir uma passagem marítima que esteve sempre aberta ao longo de décadas antes deste conflito.
Angola soma ganhos, mas..
O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 94, 5 USD, no caso do Brent, perto de 34 USD acima desse valor.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
