Logo depois, o Laureano comentou que aquele espaço "era uma espécie de Formiguinhas do Cazenga".
Confesso que a frase me deixou profundamente envaidecido.
Mas, mais do que o orgulho, aquele momento levou-me novamente a reflectir sobre o poder silencioso da diplomacia desportiva e cultural; sobre a força do soft power numa época em que o mundo atravessa tempos particularmente conturbados, marcados por guerras, polarizações e desconfianças crescentes entre povos e Estados.
Há gestos aparentemente simples que carregam uma dimensão política e humana extraordinária. Um toque na bola, um jogo improvisado, uma visita a uma academia comunitária ou um abraço entre jovens de diferentes nacionalidades podem parecer banais, mas constituem uma poderosa linguagem universal.
O desporto tem essa capacidade rara de derrubar muros invisíveis.
Quando vemos chefes de Estado, diplomatas, treinadores e jovens partilharem o mesmo espaço desportivo, estamos diante de algo muito maior do que um simples acto recreativo. Estamos perante uma manifestação concreta de aproximação entre povos, culturas e visões do mundo.
E é precisamente aí que reside a essência da diplomacia moderna.
Durante muito tempo, imaginou-se a diplomacia apenas nos grandes salões, entre protocolos rígidos e discursos formais. Hoje, percebemos que ela também se constrói nos bairros, nos campos comunitários, nas bibliotecas, nas escolas e nos centros juvenis.
A caminhada que temos vindo a trilhar aqui no Cazenga com instituições públicas e privadas francesas desde 2021 é, para mim, um exemplo perfeitamente acabado de uma acção diplomática positiva e transformadora.
Neste ano em que Angola e a França celebram 50 anos de relações diplomáticas, podemos dizer, sem exagero, que as Formiguinhas do Cazenga se tornaram um dos pontos de referência dessas relações entre os dois Estados.
Através da implementação de um memorando de entendimento celebrado entre a Embaixada da França, a Agência Francesa de Desenvolvimento e o nosso clube, foi possível concretizar uma série de iniciativas de impacto social relevante.
Falamos aqui de projectos ligados à educação, à inclusão social, à saúde preventiva e, naturalmente, ao desporto.
A concepção de bolsas de estudo, os programas de reforço escolar, as actividades de promoção da leitura e o acompanhamento juvenil são alguns exemplos concretos dessa cooperação.
Os efeitos positivos estenderam-se directamente à comunidade. A instalação de uma biblioteca comunitária com mais de dois mil livros é, talvez, um dos símbolos mais fortes desta parceria. Porque uma biblioteca num bairro popular representa muito mais do que livros: representa acesso ao conhecimento, esperança e possibilidade de futuro.
Quando Estados e instituições internacionais conseguem estabelecer relações directas e funcionais com organizações da sociedade civil, os resultados tornam-se mais próximos das populações e das suas necessidades reais.
Essa experiência tem sido extremamente positiva porque impulsiona a autonomia, a organização comunitária e o fortalecimento das próprias associações locais.
O desporto surge então como uma extraordinária ferramenta de agregação. Num campo, todos falam a mesma linguagem. Não importa a origem social, a religião, a cor da pele ou a nacionalidade. Há algo profundamente democrático numa bola a rolar.
Talvez por isso os grandes países tenham percebido, há muito tempo, o alcance estratégico do desporto enquanto instrumento diplomático.
O soft power não se faz apenas através da economia e acordos políticos. Faz-se também através da cultura, da educação, do desporto e da capacidade de inspirar.
No fundo, aqueles simples toques na bola entre Presidentes e jovens africanos representam muito mais do que um momento protocolar.
Representam uma ideia de mundo. Um mundo onde o diálogo ainda é possível, onde as pontes podem ser construídas e onde o desporto continua a ser uma das formas mais genuínas de aproximação entre os povos.
Uma abordagem verdadeiramente win-win.
*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga
Lei em campo: A diplomacia dos toques na bola
Nesta semana, o meu amigo Armindo Laureano, Director do Novo Jornal, publicou um vídeo particularmente simbólico. Nele, os Presidentes William Ruto, Bassirou Diomaye Faye, Emmanuel Macron e o veterano treinador francês Claude Le Roy apareciam a trocar alguns toques na bola durante uma visita ao centro polivalente de desporto em Nairobi, no Quénia.
