Durante as horas que antecederam o discurso do Presidente norte-americano, este foi lançando a ideia, seja em declarações aos jornalistas, fosse na sua rede social Truth Social, de que estaria a preparar a saída de cena dos EUA no conflito com o Irão, que já vai na sua 5ª semana, quatro semanas para lá da ideia inicial de sete dias de guerra, que seriam suficientes para vergar o regime de Teerão.

Conhecido o discurso, onde rigorosamente nada de novo foi dito, apenas reafirmada a ideia de que os EUA vão "manter os bombardeamentos por duas a três semanas", para depois sair de cena, "com ou sem acordo", embora Trump tenha avançado que se não houver um entendimento, "para trás ficará um país devastado" sem água, energia eléctrica e infra-estruturas civis, embora tenha salvaguardado que não tocará na indústria petrolífera "para o país se poder reconstruir depois".

Depois de quê? Foi a pergunta imediata de vários analistas, e a resposta mais consolidada nas horas seguintes ao discurso vazio de novidade de Donald Trump, é que Donald Trump e os seus estrategas militares estão, efectivamente, a ganhar tempo, embora seja menos claro com que fim esse tempo está a ser conquistado com este tipo de avanços e recuos difíceis de enquadrar naquilo que é o histórico das relações internacionais.

Uma das possibilidades é, claramente, que os EUA precisam desse tempo para concluir a deslocação de forças em número suficiente que permitam uma invasão terrestre com sucesso, não integral, mas parcial, nomeadamente alguns locais estratégicos, como o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do crude e gás mundiais, e a Ilha de Kharg, por onde o Irão exporta 80% do seu crude que, recorde-se, Trump disse que iria deixar intacto e intocado pelo seu tapete de bombas que planeia estender sobre o país nas próximas semanas.

Força invasora em construção?

Para já (ver links em baixo), os EUA fizeram chegar entre, depende das fontes, 10 a 20 mil soldados, a maior parte de forças especiais, incluindo o Corpo Expedicionário dos Marines (Fuzileiros), do Índo-Pacífico, e da 82º Brigada Aerotransportada (Paraquedistas), com um histórico que remonta à I Guerra Mundial, ao Vietname, Iraque, sem esquecer o seu papel no Dia D, quando os aliados iniciaram a invasão da França ocupada na II Guerra Mundial.

Além destas forças, outras unidades de elite, como os Rangers e a Delta, também estão no terreno, mas sem anúncio público, e batalhões de infantaria já começaram a chegar às bases que os EUA ainda mantém, após os ataques do Irão, operacionais na região, nomeadamente na Jordânia e na Turquia, Israel ou Grécia... tudo apontando para que os actuais bombardeamentos sobre o Irão sejam, afinal, a primeira etapa de um plano que envolve uma invasão terrestre, de forma a controlar o país, assumir o controlo do seu crude e gás, tomar conta do seu programa nuclear e deixar um efectivamente novo regime em Teerão.

Como destaca o jornal britânico The Guardian, Donald Trump usou este discurso à Nação para defender que este longo mês de guerra foi um "tremendo sucesso" e que "está prestes a ser concluído", embora os seus efeitos na economia global se vão prolongar muito para além dessa data, ainda por perceber, em que os EUA se vão retirar, pela disrupção gigantesca provocada no abastecimento de crude e gás nos quatro cantos do mundo.

O Guardian sugere ainda que entre os efeitos mais devastadores deste conflito está a ser sentido pelo próprio Presidente dos EUA e pelo seu Partido Republicano, cuja aceitação popular está em níveis historicamente baixos, um mau presságio para as eleições intercalares de Novembro, onde existe a forte possibilidade de perder as maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes do Congresso.

A pequena viagem

Ainda assim, Trump chamou, como se pode ler em quase todos os relatos sobre o seu discurso nas agências de notícias, como a Reuters, "pequena viagem" ao Irão na qual "foram cumpridos todos os objectivos militares", embora com pouca ou nenhuma, repete a Associated Press, indicação de como pensa sair de cena deste "teatro" de guerra no Médio Oriente nas próximas duas a três semanas.

Num discurso de apenas 20 minutos, mas longas prévias horas de investimento na criação de suspense e expectativas, para garantir que os olhos do mundo estariam na Casa Branca, Trump voltou a ser Trump, usando as suas fórmulas hiperbólicas para projectar a ideia de sucesso, como quando disse que iria, sem qualquer fundamento ou justificação, "fazer o Irão regressar à idade da pedra".

"Nós temos as cartas todas, eles não têm nenhumas", disse, acrescentando que com essas cartas arrasou "a ameaça sinistra que o Irão representava para os EUA e para o mundo", defendendo a ideia, sem qualquer ligação à realidade conhecida, de que estes 33 dias de guerra levaram, efectivamente, a uma mudança de regime em Teerão, onde hoje governam pessoas "mais razoáveis e inteligentes" que andes de 28 de Fevereiro.

Nenhuma novidade saiu deste discurso, percebendo-se depois que também não era essa a intenção de Donald Trump, o objectivo seria, consolidar a narrativa da ambiguidade que tanto sucesso teve noutras alturas, seja em Junho de 2025, quando os EUA lançaram um ataque-supresa enquanto negociavam condições de paz com o Irão, ou já nas vésperas desde "novo" conflito, onde o ataque inicial aconteceu durante renovadas negociações sobre as quais os mediadores de Omã diziam estar a ser "muito promissoras".

O que o Presidente norte-americano voltou a insistir, como de resto faz há semanas, insistindo que estão em curso negociações entre Washington e Teerão e que, agora com maior ênfase, "os novos líderes iranianos estão a clamar por um cessar-fogo" por perceberem que "os EUA já os derrotaram em absoluto".

Desconfiança, desconfiança, desconfiança

"Não temos nenhuma razão para confiar de novo na palavra dos Estados Unidos", respondeu a este discurso de Trump o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, insistindo que não existem "quaisquer conversações directas com Washington", embora já tivesse antes admitido trocas de mensagens, colocando como única forma de travar esta guerra "um acordo de fim total das hostilidades e garantias de que não haverá novos ataques".

Abbas Araghchi frisou ainda que as condições impostas pelos americanos sobre a diluição da capacidade dos seus sistemas de misseis hipersónicos, desistir do controlo de Ormuz, ou das relações com os aliados regionais, desde o Hezbollah, no Líbano, os Houthis, no Iémen, ou as dezenas de milícias xiitas do Iraque, estão fora de quaisquer conversas.

"O Irão não vai tolerar que os EUA imponham um ciclo vicioso de negociações em intervalos de guerra, cessar-fogo, negociações, guerra, cessar-fogo, guerra...", apontou ainda o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, através do seu porta-voz, Esmail Baghaei, citado pela Al Jazeera.

E, como que para sublinhar essa postura de insistência em negociar de igual para igual sem condições alicerçadas na força dos ataques da coligação israelo-americana, a Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) disparou nas horas a seguir ao discurso de Donald Trump a maior salva de misseis e drones sobre Israel.

A desescalada de Pezeshkian

Em tom menos rugoso, o Presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, também fez declações públicas onde fez sobressair que o Irão "não tem qualquer animosidade" com o povo dos Estados Unidos da América, ou com os países vizinhos do Golfo Pérsico, o que é normalmente acompanhado da ideia de que o problema é o uso dos seus territórios pelos EUA para lançarem ataques contra o Irão.

Numa carta dirigida ao povo americano, Pezeshkian, pouco antes da aparição de Trump no púlpito da Casa Branca, sublinhando que o Irão "não representa uma ameaça" porque "pelo menos desde que os EUA existem (250 anos) não há registo de um ataque a qualquer país".

Na missiva, longa e repleta de momentos de desescalada, o Presidente do Irão, um moderado, eleito há cerca de ano e meio, garante que "o povo iraniano não abriga nenhuma inimizade para com outras nações, incluindo o povo da América, Europa ou países vizinhos".

"Mesmo diante de repetidas intervenções e pressões estrangeiras ao longo da sua orgulhosa história, os iranianos têm consistentemente traçado uma clara distinção entre governos e povos que governam", escreve, e avisa: "Por esta razão, retratar o Irão como uma ameaça não é consistente com a realidade histórica nem com fatos observáveis atuais".

Masoud Pezeshkian mostra ainda a incredulidade do seu país por os Estados Unidos terem "concentrado o maior número das suas forças, bases e capacidades militares em torno do Irão - um país que, pelo menos desde a fundação dos Estados Unidos, nunca iniciou uma guerra".

"Agressões americanas recentes lançadas a partir destas bases demonstraram quão ameaçadora é uma presença militar. Naturalmente, nenhum país confrontado com tais condições renunciaria ao reforço das suas capacidades defensivas. O que o Irão fez - e continua a fazer - é uma resposta medida fundamentada em legítima autodefesa, e de forma alguma uma iniciação de guerra ou agressão", sublinha.

E lança um desafio a todos os norte-americanos, no sentido de procurarem "conhecer o Irão", a sua "cultura de paz", o seu esforço na educação e na saúde, como o demonstra a qualidade dos seus imigrantes em todo o mundo e formados no seu país, alertado +para os "perigos da desinformação" que visam criar uma imagem do Irão "completamente distorcida".

"Hoje, o mundo está numa encruzilhada. Continuar no caminho do confronto é mais caro e fútil do que nunca. A escolha entre confronto e compromisso é real e consequente; o seu resultado moldará o futuro das gerações futuras", lementa Pezeshkin nesta carta ao povo americano.

E conclui com uma advertência: "Ao longo dos seus milênios de história orgulhosa, o Irão durou mais que muitos agressores. Tudo o que resta deles são nomes manchados na história, enquanto o Irão perdura - resiliente, digno e orgulhoso".

O oráculo dos mercados

Como sempre, os mercados petrolíferos são um dos principais, senão mesmo o principal, medidores da relevância das declarações do Presidente dos EIA no contexto deste conflito que tem como epicentro uma das regiões estratégicas no fornecimento de energia ao resto do mundo.

E, neste caso, a reacção foi de clara desconfiança, porque, depois de uma descida abrupta nas últimas horas antes de Trump falar, o barril de petróleo voltou a disparar para valores muito acima dos 100 USD, no caso do Brent.

O mesmo sucede nos mercados bolsistas, mas em sentido inverso, com quedas substantivas alimentadas por este discurso do Presidente dos Estados Unidos.