Se o objectivo do Presidente dos EUA era fazer baixar drasticamente o preço da energia, quando, na segunda-feira, 23, disse que Washington e Teerão estavam a meio de "conversas muito produtivas" para "acabar com as hostilidades" entre os dois países, isso aconteceu de facto, e com estrondo nos mercados... mas por pouco tempo.
Com efeito, na segunda-feira, até ao final do dia, quando Donald Trump suspendeu o ultimato de 48 horas sobre o Irão ameaçando com a destruição de toda a sua indústria energética se não abrisse o Estreito de Ormuz, o crude e o gás (LNG) caíram a pique de 114 USD, no caso do Brent, para 89 USD.
Só que o efeito Trump durou escassas horas, porque mesmo antes dos mercados fecharem, de Teerão chegou a negação de que os dois países estivessem em conversações, tendo o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, desafiado mesmo o norte-americano a dizer com que esteve a falar.
Pelo contrário, Mohammad Bagher Ghalibaf acusou Trump de estar a produzir "fake news" apenas com o objectivo de manipular os mercados bolsistas, do petróleo e do gás para efeitos financeiros, sabendo que estava a mentir quando, além de avançar com conversas imaginárias, disse que estas tinham sido pedidas pelo lado iraniano porque este país "quer a paz" para evitar desaparecer do mapa em definitivo.
A realidade, entretanto, voltou a impor-se, os mercados energéticos voltaram a subor rapidamente, com o barril de Brent a voltar para cima dos 100 USD, o gás a recuperar mais de 50% do que tinha caído horas antes e as bolsas das grandes economias resvalaram para o vermelho de onde tinham saído a grande velocidade puxados pelas palavras de Trump.
Mas, fora da bolha dos efeitos na economia mundial, no terreno não chegou a mudar absolutamente nada, porque a coligação israelo-americana manteve o ritmo de ataques sobre o Irão, com explosões verificadas em Teerão, Isfahan ou Khorramshahr, uma cidades portuárias no sudoeste iraniano e o Irão manteve Israel sob uma chuva constante de misseis balísticos hipersónicos enquanto empresas e bases americanas nos países árabes do Golfo Pérsico eram atacadas com vagas sucessiva de drones.
Mas, neste contexto, o Irão apresenta ainda outra justificação para as "fake news" fabricadas por Donald Trump, pela voz de Abbas Araghchi, o ministro dos Negócios Estrangeiros, que acusa o Presidente norte-americano de ter procurado conseguir para o seu lado desta guerra uma "pausa táctica".
O chefe da diplomacia iraniana apontou como razão para a necessidade desta "pausa táctica" a recuperação da capacidade de resposta às vagas sucessivas de misseis e drones iranianos sobre Israel, onde, aparentemente, as defesas antiaéreas se mostram menos eficazes e a destruição em cidades como Telavive e Haifa deixou de ser possível esconder, mesmo com uma censura férrea sobre os media, incluindo os internacionais.
Aliados desalinhados...
Além disso, Trump e a sua Administração tem sentido a pressão dos seus aliados do Golfo Pérsico, onde possui dezenas de bases militares, quase todas sob ataque iraniano desde 28 der Fevereiro, quando a coligação israelo-americana começou mais uma gurra contra o Irão, assassinando o Líder Supremo Ali Khamenei e mais de 40 chefias militares de topo de uma só vez.
Nos media internacionais crescem as declarações, quase sempre através do anonimato, de governantes do Catar, Emiratos e Kuwait, entre outros, sobre a falha de misseis interceptores para os sistemas de defesa antiaérea que os EUA lhes venderam e agora se mostram ineptos para a tarefa de proteger os seus países do drones e misseis iranianos.
Isto, quando tudo parece estar a falhar do lado americano, porque os preços da energia estão, de novo, em níveis estratosféricos, um pesadelo para Trump considerando as eleições intercalares de Novembro, onde tem em risco a sua própria carreira política (ver links em baixo) e a guerra, que deveria levar, em menos de uma semana, à queda do regime iraniano, está já no seu 25º dia e em Teerão mandam os mesmos...
Do lado israelita, quando começam a surgir dúvidas se Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau estão sintonizados na mesma frequência de interesses e objectivos, porque Washington pede agora, numa evolução clara do inicialmente objectivo de mudar o regime rapidamente, que o Irão seja impedido de possuir uma arma nuclear...
... e em Telavive, o Governo israelita, quase sem falhas, se mantém como horizonte mudar o regime em Teerão, destruir o seu potencial balístico e cortar as linhas de apoio aos seus aliados regionais, como o Hezbollah, no Líbano, a outra frente de guerra onde as Forças de Defesa de Israel (IDF) estão empenhadas com milhares de soldados... sem, para já, sucesso na ocupação da parte sul daquele país vizinho.
Uma janela entreaberta
Entretanto, numa janela que se entreabre, a diplomacia regional começa a dar alguns passos, com os ministros dos Negócios Estrangeiros do Egipto, do Paquistão e de Omã em intensas e longas conversas com o seu homologo iraniano, Abbas Araghchi, que já disse publicamente estarem a decorrer.
Pelo que é possível verificar dos pronunciamentos oficiais deste conjunto de países, e que Araghchi confirma, o objectivo destas conversas passa por encontrar uma solução que integra as três exigências-base do Irão para terminar a guerra, para a qual não pediu nem está a pedir qualquer cessar-fogo.
A perspectiva iraniana é que não pode confiar nos EUA e em Israel, porque não apenas desta vez, a 28 de Fevereiro, mas também em Junho de 2025, estavam a decorrer negociações entre Teerão e Washington quando, "traiçoeiramente" a coligação israelo-americana atacou visando uma decapitação do regime e a sua mudança súbita e permanente.
Nas duas vezes em que tal sucedeu, o Irão resistiu, o regime não caiu e a resposta balística de Teerão surpreendeu o mundo, incluindo o próprio Donald Trump e os seus conselheiros militares, que admitiram não estar à espera do poder da reacção da Guerrda Revolucionária do Irão (IRGC), o corpo militar de elite do país.
"Como podemos confiar agora nos EUA?!", questionava, retoricamente, Abbas Aragchi, recentemente numa entrevista ao canal norte-americano CBS, o mesmo que agora diz que em Teerão ninguém confia nos EUA e em Israel para que o conflito termine sem que o Irão obtenha garantias robustas e inexpugnáveis de que não volta a ser atacado, que as sanções económicas a que está sujeito há 40 anos sejam levantadas...
Outra exigência é que não tenha limites ao enriquecimento de urânio para fins civis e pacíficos e a presença militar dos EUA no conjunto dos países do Golfo Pérsico tem de ser repensada e reduzida para limites que não constitua uma ameaça permanente ao Irão e o Irão ser indemnizado pela destruição provocada pelas duas guerras ilegais iniciadas pela coligação liderada pelos EUA com Israel atrelado...
Quase que deixando transparecer que sabe que foi apanhado na sua criação de uma falsa narrativa, como é disso acusado pelo Irão, Donald Trump disse, pouco depois de ter falado nas conversações com o Irão, que não está a "prometer nada de concreto", apenas a revelar que estão a acontecer conversas para acabar com o conflito.
Isto foi dito pelo Presidente norte-americano quando faltavam algumas horas para terminar o prazo que deu para que o Estreito de Ormuz fosse aberto, as 00:44 desta terça-feira, 24, hora de Luanda, mais cinco horas que em Washington.
O Estreito de Ormuz, está hoje, como estava então, quando esse prazo, na versão de Trump, para dar espaço à diplomacia, foi prolongado por mais cinco dias.
E os mercados energéticos já perceberam que a paz não está ao virar da esquina. O Barril de Brent, a referência principal para as exportações angolanas, já estava, nesta terça-feira, 24, perto das 09:45, hora de Luanda, de novo nos 103 USD.









