E, se a escalada ainda não parou, a verdade é que o barril de Brent, em Londres, ou o WTI, de Nova Iorque, estão muito longe ainda dos 200 USD que algumas das mais importantes casas financeiras, como a Goldman Sachs, previam dias antes do início do conflito.

Quando a 28 de Fevereiro, a coligação israelo-americana lançou o ataque inicial desta guerra contra o Irão, matando o Líder Supremo, aiatola Ali Khamenei, e perto de 50 líderes políticos e militares que estacam com ele reunidos, o cronometro da corrida para os 200 USD por barril foi ligado...

... mas está longe de ter visto concretizado esse receio, porque nestas quatro semanas, sempre aos domingos - o histórico comprova-o - Donald Trump tem vindo a público com palavras de confiança numa solução de paz negociada para breve com o Irão.

Foi outra vez assim neste Domingo, 29, com o Presidente norte-americano, em entrevista a um jornal económico e em declarações aos jornalistas a bordo do Air Force 1, sugeriu que a guerra vai terminar rapidamente, embora com um tom estranhamente dramático, o que deixa a porta entreaberta para uma nova fase da guerra e não o seu epílogo.

Disse Trump, horas antes da abertura dos mercados nesta segunda-feira, 30, que "pode haver ou não um acordo" com o Irão e admitiu que, como já se desconfiava entre a maioria dos analistas, está a pensar seriamente em ocupar a ilha de Kharg, no Golfo Pérsico.

É por esta ilha, de escassos 25 kms2, a 20 kms da costa iraniana, que Teerão exporta 80% do seu petróleo, e se os EUA, como se teme em todo o mundo, pelo que isso representa, a ocupar com uma invasão terrestre, toda a configuração deste conflito muda.

É que, como se pode revisitar nos links em baixo nesta página, os EUA estão a erguer uma força militar no Golfo Pérsico de dezenas de milhares de militares, a maioria de forças especiais, pressupondo uma invasão terrestre, que, ao que tudo indica, deverá ser limitada a alvos estratégicos, como a Ilha de Kharg e o Estreito de Ormuz.

O Estreito de Ormuz é, sem dúvida, o ponto nevrálgico desta complexa situação porque é por ali, onde o Golfo Pérsico e o Oceano Índico se unem no Mar Arábico, que passam 20% do crude e do gás mundial, mas também matérias-primas estratégicas como 50% do hélio, para a indústria de chips, e compostos essências para fertilizantes sem os quais o mundo dificilmente se aguentará por muito mais tempo.

Ao entrar na sua 5ª semana, o barril de Brent, a referência maior para as exportações angolanas, começou esta segunda-feira, 30, a subir mais de 3%, estando, perto das 09:00, hora de Luanda, 116,3 USD, uns espantosos 46 dólares acima do que valia antes de 28 de Fevereiro, primeiro dia desta guerra, e 55 dólares acima do valor médio usado pelo Governo para elaborar o OGE 2026, que foi de 61 USD.

Apesar de se estar perante uma situação extraordinária, ainda pode ficar mais extraordinária se, como já é dado como certo entre a maioria dos analistas, do outro lado da Península Arábica, a Ansar Allah (Houthis) do Iémen, fecharem, como sucedeu em 2024, o Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho (Canal do Suez) ao Oceano Índico, via Golfo de Aden.

É que se pelo Estreito de Ormuz passa a energia que movimenta o motor da economia global, pelo de Bab al-Mandab, passa de tudo, representando quase 20% do comércio mundial, e o seu fecho, como ficou provado em 2023 e 2024, é um foguetão para a inflação mundial.

A razão para isso é simples, e geográfica... porque obriga os grandes cargueiros e porta-contentores que se deslocam entre a Ásia e a Europa, ao invés de seguirem pelo Canal do Suez para o Mediterrâneo, têm de descer a costa africana do Índico, e depois de passar pelo "Cabo das Novas Tormentas", subir a costa continental atlântica para rumar às Américas e à Europa.

São entre duas a três semanas a mais de viagem que acabam por se reflectir nos preços globais até 40%, em média, como sucedeu aquando do fecho pelos Houthis (Ansar Allah), em solidariedade com Gaza sob ataque israelita e que já prometeram voltar a fazer, agora em apoio ao Irão, sob ataque da mesma coligação, israelo-americana.

O mundo está perigoso como raramente esteve nas últimas décadas. E no que diz respeito aos mercados petrolíferos, o pior está claramente para vir, porque as reservas estratégicas globais que a Agência Internacional de Energia (AIE) tem vindo a libertar de modo a controlar os preços, deixarão de estar disponíveis para esse efeito em duas a três semanas, segundo vários analistas.

O que faz com que Angola, um dos países produtores de crude, e também de gás LNG, seja um espectador entre os mais atentos em todo o mundo para o que está a acontecer no Médio Oriente.

Angola soma ganhos, mas...

O actual cenário internacional tende a manter os preços muito acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 116 USD, 55 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.