A razão para que o anúncio fosse feito hoje, 24 horas depois da escolha, não está relacionado com o facto de se tratar do filho do aiatola Ali Khamenei, assassinado há nove dias, aos 86 anos, por misseis da coligação israelo-americana, mas sim porque uns e outros já avisaram que tudo farão para também assassinar o novo líder iraniano.~

E com este delay de 24 horas, o novo Supremo Líder, e agora Grande Aiatola Mojtaba Khamenei, 56 anos, filho de Ali Khamanei, teve o tempo necessário para colocar em curso a estratégia para evitar os misseis israelo-americanos, embora em Washington e Telavive já se desconfiasse que seria ele o escolhido para suceder ao seu pai.

Esta escolha é, ao que tudo indica, um claro desafio aos atacantes, porque Mojtaba Khamenei esteve sempre a par dos planos do pai, como é um dos mais fiéis seguidores dos seus ensinamentos, com o acrescento de que com Ali Khamenei, EUA e Israel também lhe mataram a mãe, a filha, o genro e uma neta de seis anos...

E, ainda por cima, Donald Trump, que já tinha feito saber que queria ser ele a escolher o novo Supremo Líder, anunciará ao mesmo tempo que entre todas as escolhas possíveis, o nome de Mojtaba Khamenei era o pior entre todos da lista que divulgou que não queria ver a dirigir o Irão.

Isto, quando a guerra parece não ter fim à vista, e os EUA e Israel estão, neste momento, a desviar os seus misseis e bombas planadoras lançadas a grande distância, de alvos militares para alvos civis com clara intenção de tornar a vida civil insuportável no Irão para pressionar o regime a ceder.

Nas últimas horas, os misseis da coligação caíram sobre os gigantescos depósitos de combustíveis nos arredores da capital iraniana, deixando a cidade de 10 milhões de habitantes sob uma espessa e irrespirável nuvem tóxica (ver fotografia), com a agravante de que este ataque, como se sabia em todos os boletins meteorológicos disponíveis online em todo o mundo, ocorreu horas antes de chover em Teerão com relativa intensidade.

Como chamou a atenção para isso o analista iraniano Seyed Marandi, da Universidade de Teerão, sendo impossível que em Washington e em Telavive se ignorasse os efeitos deste ataque sobre a população civil, o agravamento da situação pela chuva também não podia ser ignorado na análise às consequências deste "crime de guerra" que continuará a matar pessoas muito para além do fim do conflito.

Isto, numa altura em que, questionado por uma jornalista à bordo do seu avião presidencial, Donald Trump negou que tivessem sido os americanos ou os israelitas que, nas primeiras horas de Sábado, 28 de Fevereiro, dispararam o míssil que destruiu uma escola primária para meninas, na cidade de Minab, sul do Irão, matando 165 crianças e 10 professores e funcionários.

"Foi o Irão, porque as munições deles são pouco precisas e foram eles que mataram as crianças", disse Trump. Também questionado pela mesma jornalista, Pete Hegseth, o secretário da Guerra, admitiu que estão a decorrer investigações para apurar tudo, mas acrescentou, sob o olhar ríspido do Presidente, que "só os iranianos é que matam civis".

Tanto Donald Trump como Pete Hegseth ignoraram as investigações separadas da CNN e The New York Times sobre o ataque na escola de Minab, concluindo de forma clara que se tratou de um míssil norte-americano.

Além disso, nestes 10 dias de guerra, as bombas e misseis da coligação israelo-americana já mataram mais de 1.400 civis nas várias regiões do Irão que estão sob ataque, na sua maioria crianças e mulheres, como o demonstram os números oficiais, corroborados pela ONU e ONG's internacionais, sendo que as Nações Unidas já vieram exigir investigações independentes sobre esta mortandade...

Entretanto, depois do Presidente Massoud Pezeshkian, que é agora, teoricamente, o nº 2 do regime iraniano, após a eleição do novo Supremo Líder, ter dito que o Irão não voltaria a atacar os países vizinhos, onde os EUA têm bases militares, excepto se estas voltassem a ser usadas para apoiar ataques sobre o território iraniano, bases do Bahrein e do Kuwait sofreram a "visita" de novos drones iranianos.

E quanto à ameaça de invasão terrestre norte-americana, numa primeira fase através de operações especiais e das milícias independentistas do Curdistão iraquiano, porque os curdos iranianos não estão em pé de guerra com Teerão, devido a uma maior integração social, Massoud Pezeshkian já disse que não teme nada.

"O Irão está preparado para lhes dar as boas vindas", disse o Presidente iraniano numa clara tirada irónica, acrescentando que se os americanos quiserem entrar no Irão como o fizeram no Iraque e no Afeganistão, então "à sua espera estará a sua a maior tragédia militar de sempre" porque o Irão "está preparado para isso há mais de 20 anos".

A par da vertente militar, este conflito tem uma abrangência económica que o ultrapassa largamente, como o demonstra a vertigem nos mercados energéticos, com o barril de crude a bater nos 106 USD, no caso do Brent, e do gás natural, que nalgumas regiões, como a Europa Ocidental aumentou mais de 60%.

Nem toda a verdade está visível

Mas não é esse o único senão apontado por Anas Alhaji, economista-chefe da NGP Energy Capital Management, e professor em diversas universidades norte-americanas, onde, num podcast recente, lembra que mesmo que a guerra terminasse hoje, a normalização do fluxo de crude da produção para os mercados levará semanas e ainda mais tempo no caso do LNG.

Só que este analista notou outro pormenor interessante, que é a curiosa ausência de críticas por parte do Presidente norte-americano aos estratosféricos preços do crude e do gás, porque o aumento da gasolina nos EUA é um dos mais sérios danos às estratégias eleitorais de quem está no poder e os norte-americanos vão às urnas em Novembro, nas duras eleições intercalares que aguardam o partido republicano de Donald Trump.

Este economista e analista sírio-americano, um dos mais respeitados no sector e em especial no Médio Oriente, chama a atenção para a possibilidade desta situação, o fecho do Estreito de Ormuz, e a suspensão forçada da produção no Catar(LNG), e crude nos restantes países do Golfo Pérsico ser do interesse da Administração norte-americana.

Explica o próprio que um dos objectivos deste mandato para Trump, por ele anunciado com mais vigor, foi a reindustrialização dos EUA, com a recuperação da outrora flamejante indústria naval norte-americana como porta-bandeira desse plano audacioso.

E, com o LNG "fechado" no Médio Oriente, onde só o Catar, o segundo maior produtor, é responsável por 35% da oferta global, a Coreia do Sul, a mais férrea ameaça à indústria naval nos EUA, fica sem capacidade de manter os seus estaleiros a funcionar porque todo o seu LNG lhe chega daquela região, o que pode ser um golpe letal em apenas algumas semanas...

"E os EUA, que são o 1º produtor mundial de gás, além de grande exportador, podem ganhar, não apenas mercado se for essa a opção, ou desmantelar a indústria naval da Coreia do Sul, se esse for o caminho escolhido para revitalizar os estaleiros norte-americanos, há muito fora de serviço", nota Alhaji.

O outro aspecto não negligenciável para esta estranha ausência de declarações enfurecidas de Trump sobre os actuais preços da energia, que estão a levar a inflação e o preço dos combustíveis para lá do eleitoralmente aceitável nos EUA, é, aponta ainda Anas Alhaji, é que o Catar é também o 2º maior produtor mundial de Hélio, um gás raro em todo o mundo, mas essencial em várias etapas da indústria naval, da solda, estanquicidade, trabalhos submersos...

"Mais uma vez, aqui, este conflito pode estar a ser positivo na perspectiva económica de Donald Trump, porque os EUA são o maior produtor de Helio do mundo e, tal como no LNG, podem ganhar quotas de mercado ao Catar na Ásia Oriental ou aproveitar para revitalizar a sua indústria naval quando a concorrência sul-coreana está de rastos", disse, numa segunda nota sobre este assunto, Alhaji... no mesmo podcast.

Igualmente relevante neste contexto é que a China, o gigante que compete com os EUA pela liderança económica planetária, embora tenha outras fontes de energia, como a Rússia, o Cazaquistão, a Venezuela... ou o Irão por via terrestre, também pode enfrentar o mesmo tipo de problemas, mesmo que num nível menos severo, o que seria sempre visto como uma vantagem na perspectiva de Donald Trump e da sua Administração.