Apesar de nada ter mudado de substantivo, porque o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do gás e do petróleo que alimentam a economia mundial, e os ataques contra o Irão pela coligação isarelo-americana bem como a resposta iraniana, são ainda a realidade na região.
Ao entrar no 11º dia de guerra, apenas menos um que a "guerra dos 12" dias como ficou conhecido o conflito de Junho de 2025 entre a força conjunta israelo-americana e o Irão, mesmo que a destruição e morte sejam a norma, começa a emergir uma vaga de fundo em prol da paz.
E isso ficou claro nas declarações de Donald Trump à televisão CBS, na segunda-feira, onde este procura contrariar a ideia de que a guerra que lançou, em conjunto com o primeiro-ministro israelita, Benjamim Netanyhau, não será longa, como o prório tinha garantido dois dias antes.
Tal como o seu secretário da Guerra, Pete Hegseth, que tem repetido , e fê-lo de novo já depois destas declarações de Trump, que a guerra vai ser longa e terá a duração necessária para que o objectivo de destruição total da capacidade militar iraniana seja desmantelada.
Não se percebe muito bem o que motivou este recuo de Donald Trump, embora o impacto devastador da alta nos mercados petrolíferos (o barril de Brent bateu ontem nos 120 USD) e de LNG (que subiu mais de 60%) e a queda histórica nas bolsas mundiais, seja a mais importantes das razões.
É que, num ano eleitoral que pode ser decisivo para Trump, que se perder a maioria nas duas câmaras do Congresso em Novembro, nas eleições intercalares, pode vir a ser alvo de um processo de destituição, como o próprio já admitiu, a crise económica que começa a ser insustentável nos EUA aconselha a que o conflito termine o mais depressa possível.
Isto, porque há ainda outra razão para que Donald Trump resista à pressão de Israel para manter a guerra acesa até à mudança de regime em Teerão, que é o escândalo de pedofilia encerrado nos "Ficheiros Epstein" e onde o seu nome é um dos mais citados...
Mesmo que, depois da destruição dos ataques israelo-americanos ao Irão, onde já morreram mais de 1300 pessoas em 11 dias, as autoridades iranianas, após a eleição do novo Supremo Líder, que substitui Ali Khamenei, morto no primeiro dia de guerra, o Irão tenha vindo publicamente dizer que não há nem cessar-fogo nem quaisquer conversas com os agressores.
Na trágica contabilidade deste conflito, incluindo as 165 crianças na escola primaria de Minab, sul do país, atacada por misseis norte-americanos, como a Reuters e a CNN demonstraram, apesar de Trump negar ser responsabilidade norte-americana, culpando antes a falta de pontaria iraniana, está ainda a mais devastadora barragem de misseis sobre Israel de toda a sua história...
Porém, em Israel, uma cerrada censura, como o afirmam repetidamente os jornalistas dos media internacionais no país, que, nas suas reportagens, como a CNN, por exemplo, explicam que não podem mostrar as áreas dos impactos dos misseis iranianos, também o número de vítimas tende a ser historicamente elevado.
E é neste contexto que surgem as declarações de Trump a antecipar um fim acelerado para a guerra, apontando para um resultado que lhe permite "a vitótria", mesmo que nenhum analista independente perceba porquê, visto que nem o Irão se rendeu nem deixou de contra-atacar.
E, ao mesmo tempo, praticamente à mesma hora, se soube que Donald Trump telefonou ao Presidente russo, Vladimir Putin, com o Kremlin e a Casa Branca a divulgar que se tratou de uma conversa sobre os conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.
Este telefonema de Trump a Putin surge ainda depois de os líderes dos países do Golfo Pérsico que estão também sob ataque iraniano por terem bases dos EUA, terem falado com o chefe do Kremlin para convencer o Irão, um aliado estratégico de Moscovo, a parar os ataques sobre os seus territórios.
Foi uma conversa de cerca de uma hora, segundo Yury Ushakov, conselheiro de Putin, onde a guerra no Médio Oriente concentrou grande parte das suas atenções, com o russo a informar o norte-americano sobre as suas recentes conversas com os líderes regionais do Golfo Pérsico, incluindo o Presidente iraniano Massoud Pezeshkian.
O que os analistas retiram desta longa conversa, das qual quase nada se sabe, excepto as sínteses cuidados das assessorias para os jornalistas, é que, considerando o que Trump disse à CBS, Putin terá efectivamente sido incentivado a entrar em cena como mediador com o Irão, de forma a que Teerão aceite terminar o conflito sem reivindicar qualquer vitória.
Isto, porque a guerra acabar com o Irão, que efectivamente só precisa de resistir, não cair o regime e manter intacta a sua capacidade balística e hipersónica no qu3e diz respeito aos seus sistemas de misseis, a clamar vitória, seria trágico para a imagem da Casa Branca, depois de toda a retórica humilhante usada sobre o Irão, que é o país atacado e não o agressor.
Sobre a versão americana desta conversa pouco se sabe também, mas Trump disse sobre ela que "foi uma conversa muito boa" sobre os conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia, sendo que, no ponto de vista de Moscovo, o ataque israelo-americano ao Irão foi "ilegal e um acto de agressão não provocado".
Isso, pouco depois de o Kremlin ter enviado calorosas saudações ao novo Supremo Líder do Irão, o aiatola Mojtaba Khamenei, de 56 anos, filho do anterior, o aiatola Ali Khamenei, assassinado logo no início do conflito, no Sábado, 28 de Fevereiro, a quem disse que pode contar com "total apoio da Federação Russa".
Para os analistas, Trump ter ligado a Putin depois deste ter garantido o apoio total ao Irão, país com quem a Rússia tem uma parceria estratégica ilimitada, tem seguramente uma leitura política importante e o Presidente norte-americano, e os seus assessores, sabe disso, o que reforça a possibilidade desta chamada gter como objectivo maior puxar Putin para a condição de mediador entre o Irão e os EUA.
É que o próprio Trump, na entrevista à CBS, admitiu estar surpreendido com a resistência do Irão, a sua capacidade de contra-atacar, ao fizer que "ninguém sabia que eles tinham tantos misseis", mesmo que isso fosse do conhecimento generalizado e todos os analistas tenham falado longamente disso antes do ataque israelo-americano.
Além disso, dias antes da guerra começar, The New York Times divulgou uma conversa entre Trump e o CEMGFA, general Dan Caine, e o director da CIA, John Ratcliffe, onde este o informaram que os EUA não tinham capacidade deslocada para o Médio Oriente que permitisse uma guerra intensa por mais de cinco a sete dias...
A ser verdade este facto, ao fim de 11 dias de guerra, de grande intensidade, como o demonstra a destruição espalhada por quase todas as grandes cidades iranianas, os misseis disponíveis nos navios (Tomahawk) e nas bases americanas (AMRAAM e JASSM) que apoiam o conflito, deverão estar em mínimos...
Além disso, e os factos demonstram-no, o Irão está longe, como reivindicou Donald Trump logo ao 3º e 4º dias de guerra, de ter sido "obliterado" na sua capacidade de lançar misseis sobre Israel e as bases norte-americanas na região, sendo que, como tem vindo a ser dito pelas chefias militares iranianas da Guarda Revolucionária, os seus misseis mais modernos estão só agora a começar a ser usados...
E as sucessivas, e até agora, ininterruptas, vagas de ataques do Irão sobre as principais cidades e locais de importância militar em Israel e bases dos EUA no Golfo Pérsico, mostram que essa capacidade que surpreendeu Trump, está intacta e longe de ter sido obliterada.
Tal como, apesar das ameaças dos EUA e da França de imporem a abertura do Estreito de Ormuz pela força, este canal marítimo estratégico para a economia mundial permanece fechado e Teerão garante que assim se manterá, excepto para os países com quem o Irão mantém relações de amizade e não fazem parte da estrutura atacante.











