AIE é vista pelos analistas como a organização com mais informação acumulada sobre o sector do petróleo em todo o mundo, tendo sido criada em 1974, logo a seguir ao "choque petrolífero" do ano anterior, para criar capacidade de resposta às crises vindouras.
E vieram muitas. A de 1973 foi causada pelo bloqueio dos países árabes da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) à exportação de crude para o "Ocidente", incluindo especialmente o Japão e os EUA, como protesto contra o apoio que estes países deram a Israel na "Guerra do Yom Kippur, com o barril a triplicar de preço em escassos dias.
A seguinte foi em 1979, gerada pela revolução islâmica no Irão, quando o novo regime, que substituiu o do déspota Reza Phalevi, que já tinha destronado o regime democrático em 1953, para entregar a produção nacional às empresas ocidentais, não foi capaz de manter a produção nos 6 milhões de barris por dia (mbpd), provocando desconfiança e pânico globais ao cair para apenas 1,5 mbpd.
A crise seguinte com origem na disrupção dos mercados globais com impacto igualmente global pela via da escassez, surgiu em 1990-91 e depois 2003, nas duas invasões do Iraque pelos EUA, embora com efeitos curtos no tempo apesar de intensos, e já em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a saída paulatina do petróleo russo dos mercados forçada pelas sanções ocidentais.
Até que se chega a esta, actual, em 2026, gerada pelo ataque da coligação entre Israel e os Estados Unidos da América ao Irão, a 28 de Fevereiro, estando já no seu 18º dia, sendo que, como alguns analistas avisaram, e o presidente da AIE, Fatih Birol, sublinhou, tem um potencial de provocar danos mundiais muito superior às anteriores.
E a razão é simples, como explicou Fatih Birol, lembrando que já é superior em danos potenciais à de 1973, e não se vê qualquer sinal de que possa estar para terminar em breve, apontou que o fecho do Estreito de Ormuz retirou de um dia para o outro 20 mbpd do mercado, 20% do consumo global...
A dimensão desta situação não está a ser mais sentida porque, como notou ainda o Presidente da AIE, está a ser manipulada artificialmente pela libertação de gigantescas quantidades de crude das reservas mundiais das maiores economias planetárias.
O que é um exercício difícil, inseguro nos resultados e ainda agravado pelo facto de pela mesma estreita passagem marítima de 33 kms (apenas 3kms navegáveis para os grandes petroleiros) que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, passarem também mais de 20% do LNG queimado pela economia mundial diariamente com origem no Catar, o maior produtor mundial.
Se no campo estrito militar, devido ao intenso "nevoeiro da guerra", onde a verdade é, sempre, a primeira vítima, é quase impossível perceber quem está a ganhar, apesar de ser perceptível o maior poder de fogo da coligação israelo-americana, e em Israel a apertada censura impedir olhar para os efeitos dos misseis iranianos no país na sua plenitude, no "campo de tiro" económico, o desespero norte-americano não podia ser mais evidente e claro.
O Presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou mesmo nas últimas horas os seus aliados europeus da NATO de que vão ficar em "maus lençóis" se não enviarem as suas marinhas de guerra para libertar o Estreito de Ormuz do "cadeado" iraniano de forma a permitir o fluxo do crude e do gás do Golfo Pérsico para o mundo de forma a baixar os seus preços nos mercados internacionais.
E o mesmo aviso foi enviado para o Japão, Coreia do Sul e Austrália, a quem o norte-americano ameaça com represálias severas se não entrarem nesta guerra com os EUA, depois de ter afirmado, e voltado atrás logo a seguir, que a "maravilhosa armada" americana no Médio Oriente iria abrir à força o Estreito de Ormuz e garantir a segurança dos navios que passam por aquele canal com escoltas militares permanentes.
Ao 18º dia de guerra, e 17º dia de encerramento do mais importante local de passagem para a energia que faz mexer a economia mundial, os EUA e Israel não foram capazes de forçar o Irão a abrir esta "fronteira" energética nem mudar o regime em Teerão como Trump disse que faria em "alguns dias".
Para reduzir o impacto da saída do mercado de 20% do crude e do gás mundiais, países do G7, o grupo dos países mais industrializados do mundo ocidental, segundo a AIE, libertaram 400 milhões de barris para suprir o défice gerado pelo conflito iniciado pela coligação israelo-americana.
Mas Fatih Birol, insistindo que a situação está circunstancialmente controlada, porque ainda existem 1,4 mil milhões de barris em reservas estratégicas nas grandes economias mundiais, não deixa de apontar para os riscos e aconselhar os países importadores a "precaverem os cenários mais adversos".
"Esperamos todos que a situação possa ser resolvida em breve para os mercados poderem começar a recuperar, mas também é preciso estar com atenção para que esta situação se possa manter por mais tempo", avisou.
E, num tom de clara apreensão, Birol disse sem rebuço que o mundo está a assistir "à maior perturbação de abastecimento na história do mercado petrolífero mundial", acrescentando que "o volume da oferta de petróleo fora do mercado já é superior ao volume de petróleo que foi retirado do mercado durante o choque petrolífero de 1973".
Onde os analistas notam fragilidades na abordagem que está a ser feita pelo líder da AIE é que quando ele se refere às reservas globais, está a pensar nas reservas das maiores economias todas, incluindo China, Índia, Indonésia... porquanto no G7 estas somam "apenas" perto de mil milhões de barris.
Mesmo que o Estreito de Ormuz reabra nas próximas horas, este "choque petrolífero" ramifica-se também para os mercados bolsistas e financeiros, especialmente aqueles mais complexos e intrincados, onde os efeitos são menos visíveis, mas muit9o mais assustadores, como sucedeu na crise de 2008, e as reservas que agora estão a escorrer para diluir o risco global de colapso, vão ter de ser repostas.
Além disso, como apontou recentemente Anas Alhajji, economista-chefe da NGP Energy Capital Management, e um dos mais renomados especialistas mundiais neste sector, ao fim de duas semanas de acumulação, a capacidade de armazenamento dos países do Golfo esgotou e a produção de gás e de crude foram encerradas.
Para retomar a produção normal, sendo mais grave no sector do LNG, estas indústrias vão precisar de semanas no caso do crude e meses no que diz respeito ao gás.
Igualmente relevante, adiantou ainda Birol, é que "mesmo que Ormuz abra agora, vai demorar tempo até que o comércio global de energia retome a normalidade. A AIE continuará a trabalhar com os governos para encontrar respostas aos problemas com que estamos a lidar actualmente".
Face a este cenário, perante a recusa dos aliados dos EUA da NATO, que já todos anunciaram que não vão enviar os seus navios de guerra para a região, alegando que é uma guerra que não é sua, incluindo o Reino Unido, o mais sólido aliado de Washington a seguir a Israel, Donald Trump fica sem capacidade de responder à ameaça... económica que o "apertado" Estreito de Ormuz representa.
E é neste contexto que surgem como de difícil interpretação as insistentes afirmações de Donald Trump, sem que lhe seja dirigida uma pergunta específica pelos jornalistas, sobre a capacidade que ele tem de declarar vitória sobre o Irão a qualquer momento, tendo mesmo dito que o fará "assim que pressentir (feeling) que chegou o momento" porque "eles (o Irão) querem retomar as conversações de paz" e já informaram a Casa Branca disso.
Ora, estas declarações são de difícil interpretação porque o Governo iraniano, seja através do Ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Aarghchi, seja pela voz do Presidente Massoud Pezeshkian, seja pela de Ali Larijani, o secretário do Conselho Supremo de Segurança iraniano (na foto), que é visto como a última voz para a tomada de decisões neste momento, o Irão não quer nem pretende conversar com os EUA sem que estejam cumpridas um conjunto de condições.
E Abbas Araghchi descreveu essas condições com clareza e por diversas vezes nos últimos dias: Os EUA devem parar de imediato os ataques ao Irão, dar garantias sólidas do reconhecimento dos direitos soberanos do Irão, incluindo o direito de manter programa nuclear para fins civis, avançar com reparações e indemnizações e garantias de segurança firmes de que não voltará a haver agressões militares futuras por parte dos EUA.
Analistas como o norte-americano Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Columbia, e um dos mais respeitados especialistas em política e economia internacional, admitem que a pressão económica sobre Donald Trump, que se prepara para a dura batalha eleitoral das eleições intercalares de Novembro, deverá levá-lo a uma saída abrupta desta guerra para a qual os EUA não possuem um plano B.
Com a economia global a sofrer pesadamente, e a norte-americana com sinais evidentes de agravamento, que pode comprometer as aspirações de Trump para não perder a maioria no Congresso, Jeffrey Sachs aponta como forte possibilidade o Presidente estar â procura de uma solução mágica para se libertar deste imbróglio.
Além disso, como pode ser revisitado nos links em baixo nesta página, antes deste conflito começar, a 28 de Fevereiro, com o ataque à casa do aiatola Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão, entretanto substituído pelo seu filho por eleição colegial, Mojtaba Khamenei, Trump foi informado pelo seu CEMGFA, Dan Caine, e pelo director da CIA, John Ratcliffe, que as forças deslocadas para o Médio Oriente teriam apenas capacidade para um máximo de 10 dias de combate intenso... Já se entrou no 18ª dia de guerra intensa.
Uma prova do desespero na Casa Branca, até porque se o Partido Republicano perder as maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado do Congresso, Donald Trump, como o próprio já admitiu, terá um processo de destituição (impeachment) aberto imediatamente.
E com o escândalo dos Ficheiros Epstein, que contêm o maior caso de pedofilia e tráfico de menores de sempre em todo o mundo, onde o nome de Trump aparece milhares de vezes e é dos mais citados, a probabilidade de sucesso de um impeachment no Congresso, deixá-lo-ia à merce da justiça com consequências imprevisíveis.











