O Mali está desde 2020 a ser governado por uma junta militar com o coronel Assimi Goita na condição de Presidente, mas com os russos do Africa Corps, antigo Grupo Wagner, como guarda pretoriana.
O Africa Corps, peça central do poder em Bamako, ganhou um espaço estratégico na protecção ao novo poder maliano após este país cortar laços com a França, a antiga potência colonial, e aproximar-se estrategicamente de Moscovo.
Essa a razão pela qual, no contexto deste avanço rebelde, os media russos, bem como a imprensa estatal maliana, acusam a França de estar por detrás do financiamento, organização e apoio logístico à coligação entre a filiada da al Qaeda FLA (Frente de Libertação Azawad) e do JNIM (Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos).
Com efeito, esta tomada de assalto dos territórios do norte do Mali, com a ocupação de dezenas de milhares de quilómetros em pouco mais de duas semanas, e, depois, em cerca de 72 horas, a tomada de Kidal e a aproximação fulgurante a Bamako, só pode ter acontecido com um longo, bem financiado e profissional plano de combate e de logística militar.
Tudo aconteceu a uma velocidade que é, de momento, impossível aos analistas perceberem como é que o Africa Corps, organização que, com a extinção do Grupo Wagner, foi requalificada e colocada às ordens do Ministério da Defesa russo, e com milhares de combatentes no país, terem sido surpreendidos desta forma.
A surpresa foi tal que o ministro da Defesa, general Sadio Camará, foi morto no Sábado, 25, pelos rebeldes quando estava na sua casa em Kati, uma localidade relativamente perto de Bamako, com o propósito de fragilizar a Junta Militar considerando que era ele o principal elo de ligação à Rússia.
Para perceber a relevância de Moscovo neste contexto, recorde-se que o Mali, com o Níger e o Burkina Faso, a partir de 2020, iniciaram um processo de afastamento e corte de relações com a França e com os EUA, consolidando laços mais fortes com a Rússia, principalmente, mas também com a China.
Depois do corte radical de relações com Paris, ficou sempre no ar a ideia de que a França, antiga potência colonial destes três Estados, e com pergaminhos de controlo do seu espaço estratégico na, nem sempre pelas melhores razões, denominada "FranceAfrique", procuraria reconquistar a sua geografia de influência no Sahel, que exige voltar a ter o Mali, o Burquina e o Níger sob a sua asa.
E esse momento está, agora a acontecer, aparentemente com sucesso, visto que a aliança FLA/JNIM acaba de anunciar que está a dar os últimos passos para ter o cerco completo a Bamako antes do assalto final à fortaleza da Junta Militar de Assimi Goita e da Federação Russa.
Essa certeza não é partilhada nem aceite por Moscovo e pelos militares que integram o circulo mais restrito do poder em Bamako, que na terça-feira, 28, fizeram sair uma declaração onde garantem que têm a situação sob controlo e que está já em curso uma contraofensiva com o epicentro em Gao, uma cidade do centro-leste, considerada estratégica tanto para os atacantes como para as forças leais a Assimi Goita, onde as forças de Goita mantém concentrada a sua maior capacidade combativa a seguir à capital.
Alguns sinais apontam para que Goita esteja, de facto, a recuperar alguma capacidade de resposta, até porque nas últimas horas reapareceu depois de dois dias em que não se conhecia o seu paradeiro, ao lado do embaixador da Rússia, Igor Gromiko, a visitar soldados feridos em combate com os jihadistas.
Pouco depois de ter sido anunciado pelos rebeldes jihadistas que o cerco a Bamako se estava a apertar, o coronel Goita apareceu na televisão estatal para garantir que "a segurança no país está a ser retomada e os reforços para a garantir estão a caminho", sublinhando que "a situação está sob controlo".
"Operações de limpeza do território, recolha de intelligentsia e medidas de segurança com acções sucessivas de procura e destruição do inimigo estão já a acontecer em todo o país", apontou ainda Assimi Goita, quando a situação está claramente longe de ser tão segura e garantida como o Presidente maliano pretende fazer crer.
Entretanto, nas habituais operações de combate mediático, o Africa Corps tem, desde esta terça-feira, divulgado vários vídeos nas redes sociais e através dos media russos, com ataques a colunas rebeldes com drones, helicópteros e lança-roquetes múltiplos, sem, contudo, identificar com precisão a sua localização.
Todavia, esse esforço para mediatizar as operações do corpo militar russo presente no Mali está a ser visto como sinal de que em Moscovo o Kremlin optou claramente por apoiar e ajudar o seu aliado no Sahel, reforçando as suas capacidades de combate neste país.
E isso ficou claro quando o embaixador Igor Gromiko apareceu igualmente a fazer declarações no sentido da "reafirmação do apoio da Rússia de se manter ao lado do Mali para combater o terrorismo".
Apesar destas declarações, facto verificado é que os jihadistas mostram maior capacidade de avanço no território, de norte para sul, sudeste, que as forças leais a Bamako mostram estar preparadas para resistir e reconquistar territórios.
Uma derradeira possibilidade para que Assimi Goita possa retomar o controlo das áreas perdidas e reiniciar a reconquista reside agora no eventual apoio do Burquina Faso e do Níger ao seu vizinho, com quem têm parcerias estratégicas de nível militar que permite accionar mecanismos de interajuda como a que o Mali vive presentemente.


