A razão para esta escalada no preço do crude nos mercados internacionais, que abrange tanto o Brent, em Londres, a referência maior para as ramas exportadas por Angola, como o WTI, em Nova Iorque, que afecta directamente a economia dos EUA, é a situação dramática que se vive no Golfo Pérsico.

Onde a guerra deu lugar a um cessar-fogo periclitante e os bloqueios do Irão no Estreito de Ormuz, e dos EUA, ao Irão no Mar de Omã, estão a secar a oferta global de crude e a mostrar que pode não haver um limite para esta subida.

Para já, perto das 11:20 desta quarta-feira, 29, hora de Luanda, o barril de Brent está a passar em passo de corrida a barreira dos 115 USD, com uma subida de "apenas" 3% mas a acumular com oito sessões consecutivas de ganhos que estão a atirar os gráficos para onde estiveram da última vez em Junho de 2022.

O que move este intrincado negócio actualmente é claramente a dúvida sobre se a oferta global de crude vai manter-se em quantidades mínimas suficientes para evitar o colapso económico ou se, pelo contrário, o efeito em cadeia será de modo a que o passo derradeiro para o abismo seja mesmo dado.

É que se o Estreito de Ormuz se mantiver com as actuais restrições, o "buraco" na oferta intensificar-se-á e algumas previsões menos optimistas já apontam para o risco de o barril poder chegar muito em breve aos 150 USD.

E não é para menos, porque a Agência Internacional de Energia (AIE) já avisou que o mundo está a viver a antecâmara da pior crise energética de sempre e o maior choque na oferta alguma vez observado.

Para já não se vê que o problema possa ser resolvido em breve porque iranianos e norte-americanos estão a jogar ao "quem pisca primeiro", olhos nos olhos, fixos, sabendo que quem ceder, perde e, neste caso, quem perde é quem tomar a iniciativa de levantar o seu bloqueio naval em torno do Estreito de Ormuz.

Para criar ainda mais dúvidas, quando se esperava que a saída dos Emiratos Árabes Unidos da OPEP, anunciada na terça-feira, 28, poderia aliviar a pressão sobre os preços, visto que se trata de um membro relevante do "cartel", e deixaria de estar sujeito aos limites de produção imposto pelo sistema de quotas que ali vigora, o efeito está a ser o contrário.

Perante a imprevisibilidade deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.

Angola soma ganhos, mas...

O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 114, 5 USD, no caso do Brent, perto de 55 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.