A razão esteve suspensa por mais de 24 horas, com as redacções de todo o mundo a olhar para os terminais das agências de notícias ou os sites dos grandes media norte-americanos para se perceber o que tinha acontecido para o tal ataque ter sido anulado.

Mas acabou por se perceber já no Domingo, através de uma notícia publicada por The New York Times, CNN e The Wall Street Journal, quase em simultâneo, sobre uma conversa pesada entre o comandante máximo das Forças Armadas dos EUA (CEMGFA) e o Presidente, na Casa Branca.

Nessa conversa, o general Dan Caine informou, segundo estes media, Donald Trump que se os ataques ao Irão continuassem ao ritmo das última 13 noites, os EUA ficariam gravemente depauperados de misseis de ataque nos seus arsenais...

... e os seus sistemas de defesa anti-aérea, especialmente os Patriot, ficariam sem interceptores para responder às respostas iranianas sobre as bases norte-americanas nos países do Golfo, desde o Kuwait à Jordânia, passando pelo Catar, Emiratos ou Baherein. ~

Além disso, ainda segundo vários media norte-americanos, os comandantes militares do Estado Maior norte-americano apontaram a Trump a inutilidade de manter os ataques ao Irão na região de Ormuz porque tinha sido atingido o limite de danos possíveis de infligir sobre a capacidade militar iraniana, que se mantinha activa e eficaz nos contra-ataques.

O que, traduzido para linguagem geoestratégica, significa que os EUA estão sem forma de conseguir reabrir pela força das armas o estratégico Estreito de Ormuz, por onde escoa 20% do petróleo e do gás mundiais produzidos no Golfo Pérsico.

Além disso, segundo vários analistas, o efeito desta guerra na política interna dos EUA está a ser devastador para as aspirações de Trump nas eleições intercalares de Novembro, onde todas as sondagens apontam para a perda da maioria nas duas câmaras do Congresso pelo Partido Republicano, e está à beira de ganhar nova dimensão, para o patamar da "catástrofe".

Isso, porque, com a inusitada entrada da Arábia Saudita em confrontos com a Ansar Allah (Houthis), do Iémen, Riade viu a sua infra-estrutura petrolífera fortemente atacada pelos drones e misseis iemenitas, que já tinham anunciado o bloqueio naval aos navios sauditas e seus aliados no igualmente estratégico Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho/Canal do Suez ao Oceano Índico/Ásia.

O que significa que deixou de ser viável o uso do Porto de Yambu, na costa saudita do Mar Vermelho, por onde Riade estava a escoar, através de um oleoduto de 1.200 kms, 7 milhões de barris de crude por dia, de um total de 12 milhões/dia, que não conseguia fazer sair por Ormuz.

O efeito desta disrupção foi a subida em flecha do preço do petróleo para perto dos 100 USD, no caso do Brent, instalando o pânico na Casa Branca, e obrigando Donald Trump a cancelar o tal "maior ataque de sempre" contra o Irão.

Sem os misseis "Made in USA" a voar sobre o Golfo Pérsico em direcção ao seu território, os iranianos também tiraram o dedo do gatilho e desde sexta-feira 24 até esta segunda-feira, 27, a guerra está suspensa, o que permitiu uma redução abrupta no valor do barril Brent de 100 USD para os 89 a que chegou esta manhã, perdendo quase 10%.

Apesar destas notícias que comprometem a capacidade dos EUA em manter a escalada militar contra o Irão devido á escassez de munições de ataque e de defesa, Donald Trump negou já que essa seja a razão para a aparente "paz", aludindo antes á sua vontade de dar uma nova oportunidade aos iranianos para aceitarem negociar novos termos para acabar com esta guerra.

Aparentemente, estas declarações de Trump estão a ter o efeito desejado, porque Marco Rubio, o secretário de Estado dos EUA, que gere a diplomacia de Washington ao mesmo tempo que é o Conselheiro para a Segurança Nacional, veio dizer que os canais de contacto entre Teerão e Washington, através de intermediários, estão activos.

De seguida, o porta-voz iraniano do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Esmaeil Baghaei, na capital iraniana, por seu lado, também assumiu estarem a decorrer contactos com os americanos, apesar de o Irão saber do pouco valor da palavra de Donald Trump e das "sucessivas traições".

No entanto, Esmaeil Baghaei não perdeu a oportunidade, citado pelos media iranianos, para dizer que Trump está a recuar por se encontrar "emparedado" nas consequências desastrosas da sua opção de não respeitar os acordos que assinou com Teerão.

"Os americanos estão a lutar para sair das areias movediças que criaram para si mesmos, sem justificação e sem razão e agora estão atolados nas consequências. Da nossa parte, sabem, como já sabiam antes, que a nossa acção militar depende das provocações porque a defesa dos interesses nacionais do Irão estará sempre assegurada", disse ainda Baghaei.

"Nuca deixamos nem vamos deixar os americanos determinarem o nosso tempo de guerra e de paz", avisou ainda o porta-voz da diplomacia iraniana.

Entretanto, ao que tudo indica, enquanto as armas se calam no Golfo Pérsico, no Mar Vermelho, os Houthis estão a usar o Estreito de Bab al-mandab para fazer à Arábia Saudita o que os iranianos fizeram com Ormuz.

Esta recente crise é um retomar das hostilidades suspensas por um frágil Memorando de Entendimento entre Saná e Riade assinado em 2022, que teve em 2024 um episódio dramático com uma coligação ocidental liderada pelos EUA e Reino Unido a ser obrigada a retirar os seus navios do Mar vermelho devido à resposta da Ansar Allah.

E, depois de iemenitas da Ansar Allah, que dominam o oeste do Iémen e a costa do país no Mar Vermelho, terem fechado Bab al-Mandab aos petroleiros sauditas, Trump ameaçou fazer regressar os seus porta-aviões para a região de forma a ajudar Riade.

Para já, a memória do que sucedeu em 2024 aos EUA, que foram obrigados a retirar, embora alegando uma vitória sobre os Houthis, depois da perda de vários aviões de guerra e drones de vigilância, parece ser suficiente para manter a Armada norte-americana ao largo.