E Donald Trump está a fazer tudo para que assim continue, porque ainda na sexta-feira, 14, veio a público fazer a mais surpreendente ameaça contra Teerão desde que tinha anunciado que iria "enviar a civilização iraniana para a idade das pedras" em Abril.

"O Irão está a ser derrotado com estrondo, está sem capacidade militar para aguentar o poderio militar dos EUA, o bloqueio naval é uma `muralha de aço' e a economia deles está de rastos... por isso vou integrar o Estreito de Ormuz no mapa dos territórios soberanos dos EUA", disse o Presidente norte-americano num discurso perante agentes da polícia de Nova Iorque.

Quando fez esta ameaça difícil de contextualizar, Trump já sabia que o MdE que assinou com os iranianos a 17 de Junho, com duração máxima de 60 dias (ver links em baixo), chegaria ao fim hoje, surpreendendo até a sua equipa mais próxima, porque se o Irão tivesse dificuldade em encontrar uma justificação para um ataque preventivo, passou a tê-la naquele momento.

Donald Trump já tinha, em Abril deste ano, ameaçado "destruir a civilização" iraniana, que queria fazer regressar "à idade das pedras" com os ataques mais devastadores de sempre, mas na altura Teerão e Washington estavam longe de assinar um acordo de paz mesmo que limitado.

Alias, desde que a coligação israelo-americana lançou o ataque traiçoeiro contra Teerão, a 28 de Fevereiro, matando o Líder Supremo, aiatola Ali Khamenei, e cerca de 40 figuras de topo do regime, militares e políticos, de uma só vez, quando EUA e Irão estavam em negociações sérias mediadas pela ONU, os dois lados deixaram de se falar.

E só em Junho, através da mediação do Paquistão, foi possível que iranianos aceitassem voltar a falar com os norte-americanos, levando à assinatura do MdE a 17 de Julho, que deveria, em duas etapas, por 30 dias e depois a 60 dias, criar as bases para uma paz duradoura.

Não criou qualquer base para a paz e foi sendo violado nos seus termos várias vezes ao longo destes dois meses, quase sempre pelos EUA, que não aceitaram que o Estreito de Ormuz, controlado e fechado pelo Irão após 28 de Fevereiro, se mantivesse fechado.

O estreito estreita-se

Mas sem que se tivessem verificado ataques com a dimensão vista ao longo de Março e Abril, havendo mesmo alguns navios comerciais, incluindo petroleiros e metaneiros, que passaram por aquele canal que separa o Golfo Pérsico e o Oceano Índico e mais de 20% do petróleo e do gás mundiais, além de outras matérias-primas essenciais para a economia mundial, como o hélio (indústria dos chips) ou compostos para fertilizantes.

Já se sabia que em Washington o Memorando de Entendimento tinha sido "negociado" apenas para ganhar tempo e manter os mercados energéticos sob controlo, impedindo que o barril de crude subisse em valores recorde e castigadores da economia mundial, ou a doa EUA, em particular, por se estar ali em período pré-eleitoral para as intercalares de Novembro onde Trump arrisca seriamente perder a maioria no Congresso.

A demonstração de que os EUA não estão alinhados com uma possibilidade de paz sob condições em que o Irão mantém o controlo do Estreito de Ormuz aconteceu na sexta-feira, 14, quando o Presidente Donald Trump afirmou que vai em breve "anexar Ormuz" e fazer deste canal entre o Irão e Omã "parte do território dos Estados Unidos".

Perante esta inusitada e surpreendente declaração, em Teerão o comando do Corpo da Guarda revolucionária do Irão (IRGC), a unidade militar de elite iraniana, veio avisar que esta declaração de Trump, e a expiração do MdE, exige uma mudança de postura por parte da defesa iraniana.

O general Yadollah Javani, um dos comandantes séniores da IRGC, citado pela Al Jazeera, veio avisar que o Irão está, perante este conjunto de evoluções, a mudar rapidamente a sua postura militar de "dissuasão máxima", o que alguns analistas interpretam como o aviso de que o Irão pode realizar agora ataques preemptivos para impedir acções militares norte-americanas, que nunca deixaram de ser anunciadas por Trump.

CentCom quer mais...

Para intensificar a tensão que resulta da expiração do MdE e a ameaça de Donald Trump em fazer de Ormuz "um território dos EUA", o almirante norte-americano que comanda o CentCom, de acordo com uma notícia do Canal 13 israelita, está a insistir com Trump para manter a pressão militar sobre o Irão.

O almirante Brad Cooper diz que os EUA devem manter os ataques contra a infra-estrutura energética e rodoviária do Irão como forma de levar o regime de Teerão a aceitar negociar um acordo sob os termos maximalistas de Washington, para, acima de tudo, libertar o Estreito de Ormuz do funil iraniano.

Apesar de o Pentagono ter já vindo reclamar da interpretação errada dos factos pelo Canal 13 israelita, a verdade é que as declarações de Trump sobre anexar Ormuz e a morte sem glória nem resultados do MdE deixaram o Golfo Pérsico num cenário de guerra sem limites.

A questão agora é saber como é que os EUA e Israel vão lidar com a decisão inequívoca de Teerão em manter Ormuz fechado, embora com um acordo assinado neste fim-de-semana com Omã para definição das rotas de entrada e saída de navios no Estreito entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico.

E o bloqueio naval dos EUA aos portos iranianos, que Donald Trump diz ser "uma muralha de aço" e com efeito inegável na economia iraniana, como reconhecem os analistas iranianos, entre estes Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerão e uma das vozes mais ouvidas nos media internacionais, pode ser a solução americana.

É que a continuidade dos bombardeamentos contra o Irão pode não ser já uma opção dos EUA, pelo menos por agora, porque, como o próprio Trump reconhece, os seus arsenais de mísseis, tanto de ataque como interceptores, estão em níveis historicamente baixos, depauperados pelas guerras da Ucrânia e do Irão.

Além disso, o Irão já demonstrou que pode cumprir a sua ameaça retaliatória contra os aliados dos EUA na região, onde Washington tem dezenas de bases militares, desde a Arábia Saudita aos Emiratos Árabes Unidos, Kuwait, Jordânia ou mesmo Israel, porque, através de dados obtidos pela CIA que chegaram aos media norte-americanos, soube-se que o Irão manteve a capacidade balística e hipersónica quase intacta apesar da severidade dos ataques israelo-americanos.

Ataque nuclear em análise?

Entretanto, este momento foi aproveitado pela antiga aliada de Trump e ex-congressista Marjorie Taylor Greene, que se destacou ao criticar publicamente o Presidente por se ter desviado dos seus compromissos eleitorais com o fim das guerras dos EUA no exterior, veio alertar publicamente para o possível uso iminente de uma bomba nuclear contra o Irão.

Segundo Marjorie Taylor Greene, numa publicação no X, o Presidente está a analisar com os seus assessores militares e políticos o recurso a armas nucleares perante a evidente incapacidade para derrotar o Irão pela via militar convencional.

Sem identificar as fontes, a antiga aliada de Donald Trump avança que está convicta do que está a dizer e que "não se trata de especulação".

Esta possibilidade não aparece pela primeira vez, porque o próprio Trump já o referiu, mesmo que não directamente, quando ameaçou "destruir a civilização iraniana" fazendo-a regressar ao "tempo da idade das pedras", porque tal resultado só seria possível através de uma chuva de ogivas nucleares sobre o Irão, um país com 94 milhões de habitantes e do tamanho da Europa Ocidental.