Esta frase não é uma tradução literal do que Donald Trump disse após ter sido informado sobre o ataque iraniano com cinco mísseis sobre as instalações militares dos EUA, porque o que ele disse foi muito mais gráfico: "Beat the fu*king s*it out of them".

E com isso fez ainda recordar a ameaça feita há meses de que iria "levar a civilização" iraniana de volta à "idade da pedra".

Em português cuidado para não ferir susceptibilidades, ou em inglês, na frieza da citação original, nada muda na hermenêutica aplicada a este recomeço dos ataques e contra-ataques entre o Irão e os EUA, onde já ninguém sabe bem quem disparou primeiro.

Mas sabe-se que nem uns nem outros estão prontos para baixar as armas e escolher as negociações, porque aquilo que foi feito até aqui para acabar com a guerra começada a 28 de Fevereiro pela coligação israelo-americana foi afogado nas águas do Golfo Pérsico.

É no Estreito de Ormuz que Teerão e Washington estão entalados na procura de soluções, porque os EUA precisam urgentemente que aquela via estratégica, por onde escoa 20% do petróleo e do gás queimados diariamente pela economia global, seja reaberta.

E o Irão sabe que é ali que está a sua vantagem porque ao meter no Estreito a "rolha" da ameaça de ataques, como têm sucedido diariamente, aos petroleiros e metaneiros que tentam furar o seu bloqueio, provocam rombos no casco da economia dos EUA.

Donald Trump atira repetidamente para os media que a razão desta guerra é garantir que o Irão "nunca terá uma arma nuclear", o argumento que mais simpatia gera entre o seu eleitorado, embora 70% dos norte-americanos se oponha a esta guerra...

... mas a ninguém que acompanha esta crise no Golfo Pérsico escapa que Trump está neste conflito porque para ele foi empurrado por Benjamin Netanyhau, o primeiro-ministro israelita que tem como derradeira missão de vida implodir o regime iraniano.

Netanyhau, apoiado por um poderoso lobby judeu em Washington, há quase três décadas, como elementos das equipas dos antigos Presidentes Bill Clinton (1993-2001) e Barack Obama (2009-2017)admitiram, procura lançar os EUA na "sua" cruzada contra o Irão.

Aqueles dois ex-Presidentes recusaram a pressão para levar os EUA a uma guerra com o Irão, mas Donald Trump cedeu a essa pressão de Netanyhau, embora ainda esta semana, questionado pelos jornalistas sobre a influência de Israel na sua Administração, se tenha defendido com redobrada ênfase afirmando que é ele quem "decide a política externa" norte-americana.

Mas dificilmente tem conseguido sair ileso do confronto com os factos: sobre o Irão procurar uma arma nuclear, foi ele que em 2016 retirou unilateralmente os EUA do acordo nuclear com Teerão, assinado por Barack Obama em 2015, que garantia que tal cenário jamais aconteceria, porque, além doutras garantias, estava sob vigilância permanente da ONU.

E ainda porque o Estreito de Ormuz, que é uma das mais estratégicas vias marítimas para a economia mundial, antes deste conflito era uma passagem livre para todas as embarcações, incluindo para aquelas com destino aos EUA e a Israel.

A visão dos especialistas

Alguns analistas, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de vários livros sobre conflitos no Médio Oriente, ou John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos mais prestigiados especialistas norte-americanos em política global e geoestratégia, explicam este cenário com as fragilidades de Trump face ao lobby israelita.

Mearsheimer entende que "só a cedência aos interesses de Netanyhau explicam como um Presidente dos EUA pode colocar o país numa guerra que vai totalmente contra os interesses norte-americanos" e, por razão maior, os seus próprios interesses.

Isto, porque ao manter o paísA neste confronto com o Irão no Golfo Pérsico, a consequência imediata é a subida vertiginosa da energia e isso impacta directamente no valor dos combustíveis e da inflação nos Estados Unidos, o que, como todas as sondagens indicam, compromete o seu Partido Republicano nas eleições intercalares de Novembro.

E se perde a maioria no Congresso, especialmente na Câmara dos Representantes, mas as sondagens indicam que o Senado também está na corda bamba, sabe que a oposição Democrata tem prontos para serem disparados vários processos de destituição (Impeachment).

Desde logo por causa do escândalo de pedofilia dos "Ficheiros Epstein", onde o seu nome é dos mais citados, e que os republicanos prometeram libertar mas continuam a esconder do público, e também porque Trump avançou para a guerra sem informar o Congresso como a Constituição impõe.

Já Jacques Baud aponta para a situação difícil de perceber que é os EUA estarem a ficar com os seus arsenais de mísseis de ataque e de defesa anti-aérea vazios, sem capacidade industrial de se reabastecerem na medida dos gastos.

E com isso, expondo o país como não se via em muitas décadas, à demonstração de fragilidade que é uma auto-estrada para a perda do estatuto de única hiper-potência e o desmoronamento de um sistema global dominado pelo ocidente facilitando a emergência da China e da Rússia como iguais.

O que, como nota outro analista, o antigo coronel Larry Wilkerson, ex-chefe de gabinete do secretário de estado Collin Powell, na Administração Bush, esta fragilidade, que começa a ser bem conhecida dos EUA, também pode explicar o facto de o Irão não ter alinhado no cessar-fogo tácito iniciado no final da passada semana pelos EUA devido à falta evidente de munições.

Ao atacar uma base norte-americana na Jordânia quatro dias depois de os EUA terem parado de "motu próprio" os ataques contra o Irão, os estrategas em Teerão estão claramente a procurar expor ainda mais essa fragilidade de Washington.

E não parece, acrescenta Larry Wilkerson, difícil, porque é do conhecimento público que a capacidade industrial dos EUA para produzir os mísseis Patriot de defesa anti-míssil é de apenas 600 unidades por ano, o que dará, em pleno combate, como sucedeu no Golfo Pérsico nestes meses, para pouco mais de um mês de usso, visto que por cada míssil balístico iraniano, são necessário dois ou mais Patriot para que exista uma relativa capacidade de interceção.

O mesmo se aplica aos projectéis de ataque, como os Tomahawk ou os JASSM, cujos stocks o próprio Donald Trump admitiu que "gostava de ter mais disponíveis" mas que a realidade é que a sua quantidade está em níveis estratégicos perigosos.

Larry Johnson, antigo analista da CIA sublinha a esse propósito, recorrendo a uma metáfora, que a única razão pela qual os EUA procuram sucessivos cessar-fogo, incluindo através de falsos acordos e processos de negociação, é porque estão a ficar sem armas nos seus stocks.

"Quando um corredor de maratona está em vantagem, com os restantes competidores a grande distância, como Trump diz estar nesta guerra, a derrotar o adversário de forma inequívoca, não vai ele propor uma pausa para permitir que os de trás reponham energia e possam voltar a disputar a corrida", diz este antigo analista da intelligentsia norte-americana.

Uma guerra a mundializar-se

Apesar deste contexto de difícil gestão, e com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, de novo em Washington para tentar empurrar Donald Trump para a frente de combate, como alguns analistas apontam, com uma invasão terrestre do Irão, os EUA voltaram esta madrugada de quinta-feira, 29, a atacar localidades iranianas.

O Comando Central dos EUA (CentCom) emitiu um comunicado onde avança que foi lançado um "poderoso ataque" sobre posições iranianas como resposta aos mísseis disparados por Teerão sobre as bases aéreas norte-americanas na Jordânia.

Esta resposta aconteceu, com vários civis mortos no Irão, incluindo crianças, na Ilha de Qeshem, no Estreito de Ormuz, apesar de Trump garantir que "todos os mísseis disparados pelo Irão" sobre as suas bases na Jordânia terem sido interceptados com sucesso.

Mesmo essa informação avançada pelo Presidente dos EUA de forma a enfatizar a cada vez mais posta em causa eficácia dos Patriot americanos, não corresponde, porque, horas depois do ataque iraniano, vários vídeos mostravam os impactos bem sucedidos nas bases norte-americanas em território jordano.

Entretanto, estes mísseis iranianos atingiram igualmente com sucesso a "base" económica americana, como se pode ver nos mercados petrolíferos, que esta manhã de quinta-feira, 30, voltaram a disparar para lá dos 90 USD por barril, no caso do Brent.

Isto, depois de ainda na terça-feira, 28, no contexto da desescalada tentada pelos EUA, o barril de Brent ter atingido mínimos de mais de um mês, para os 84 USD.

Entretanto, o risco de uma degradação maior em erupção no oeste asiático está a ser impossível de ignorar visto que, depois de os Houthis, do Iémen, terem limitado o trânsito pelo Estreito de Bab al-Mandab, no Mar Vermelho/Canal do Suez e Oceano Índico, este conflito está a ganhar novas frentes no Iraque, com a entrada em cena das milícias xiitas pró-iranianas a alvejar alvos na Arábia Saudita.

Além disso, a alargar ainda mais o espectro deste conflito, dando-lhe dimensões globais, a Ucrânia atacou no início desta semana um navio de carga iraniano em trânsito pelo Mar Cáspio, com destino à Rússia, o que alguns analistas admitem ser uma tentativa de Kiev ligar os dois conflitos como forma de "atar" os EUA definitivamente à guerra Ucrânia-Rússia.