Comparemos com o corpo humano. Imagine que o seu joelho começa a doer. Em vez de ir ao fisioterapeuta, compra uns sapatos novos. A dor persiste? Coloca um piercing. A inflamação aumenta? Faz uma tatuagem. O joelho continua a incomodar? Nada como um corte de cabelo moderno. Bonito por fora, podre por dentro, mas na fotografia do Instagram ninguém vê a artrose.
É exactamente esta a lógica que preside à gestão das nossas infra-estruturas públicas. As estradas existentes definham ao abandono, com buracos que duram mais que alguns casamentos. Em vez de se implementar um programa de manutenção, é dar mais um contrato para uma reparação que, na realidade, é construir uma estrada nova no mesmo local. Quanto custa? Não importa. É obra nova, é inauguração com fita cortada, é foto na primeira página. É o botox asfáltico: um lifting superficial para esconder a decadência estrutural do espírito deixa-andar.
O paradoxo é cruel gastamos rios de dinheiro em estradas novas enquanto as velhas se desfazem em pó. Pagamos empreiteiros para construir do zero quando bastaria pagar uma manutenção contínua. É como ter o corpo coberto de feridas abertas e gastar o salário em cremes anti-rugas. A infecção não se cura com maquilhagem.
Seria bom aproveitar o cacimbo. O céu azul, o sol tímido, a chuva ausente. É a época perfeita para obras de manutenção e reparação. A natureza oferece uma janela de oportunidade de meses para reparar o que está danificado. Porque o fiscal das obras irá vir e dar o seu veredicto. Talvez um dia aprendamos que a saúde das infra-estruturas não se mede em quilómetros inaugurados, mas em quilómetros bem cuidados. Até lá, o corpo está em coma, mas com um penteado maravilhoso.
