Os três hectares de café servem apenas de lembrança para a gera- ção do camponês Almeida José da comuna de Quilombo-Kia-Puto, no município de Golungo Alto, província de Kwanza Norte.

A fazenda de 20 hectares com a plantação do café foi substituída por outras culturas de rápido rendimento, nomeadamente, mandioca, feijão, bananeira (…) milho e abacaxi. "A cultura do café marcou a história de quase todo o nosso município no tempo colonial. Hoje ninguém fala desta riqueza que desenvolveu Angola", lamenta.

O camponês lembra ainda a constituição de algumas cooperativas de serviços que comercializavam e descascavam café com melhores preços, o acesso a empréstimos do Instituto de Crédito de Angola e a construção de chafarizes abastecidos em água pela força da gravidade foram alguns dos indicadores que mudaram o município "Muitos agricultores chegaram a produzir mais de 20 toneladas de café comercial e a ter 50 trabalhadores permanentes", recordou.

"Tenho à minha disposição apenas três hectares de café para mostrar aos meus netos, bisnetos e outros da minha geração, de que o café foi uma riqueza que desenvolveu Angola", lamenta. A produção de café, por parte do sector familiar, perdeu importância progressiva devido ao baixo preço oficial, pela ausência de mercados e ainda pelos efeitos da guerra civil.

O fazendeiro António Quiombo, na localidade de Kimbulo já compreende porque trabalha tão duro e ganha tão pouco. "É uma calamidade. Eu produzo um bom café mas não há recompensa. O preço é sempre baixo. Não vale a pena continuarmos", disse Quiombo desesperado.

Quiombo e outros produtores no município estão enfrentar um período problemático, com a queda do preço do café no mercado nacional e internacional. Na fazenda de Ramos Pedro na comuna de Cambondo, já não tem sequer uma planta de café.

"Derrubei todos os cafeeiros e agora tenho na fazenda outros produtos", argumentou, lamentando este cenário. O município do Golungo Alto, tido na altura como o maior produtor de café na província, era então detentor de 40 máquinas de descasque, apresentava uma cifra de 13.343 toneladas no ramo empresarial e 8.567 no sector tradicional. "A falta de incentivos económicos é a maior dificuldade que enfrentamos para a dinamização do sector do café no nosso município", queixa-se Armando Zua da localidade de Caluia.

O produtor alega que a produção de café exige recursos financeiros avultados para garantir uma boa colheita. "Optamos agora por produzir o nosso milho, mandioca, feijão, ( ....) batata, banana e abacaxi. São produtos que nos dão algum dinheiro a qualquer hora", acrescentou o agricultor.

De acordo com mesmo agricultor o "café como produto de geração de trabalho e riqueza desapareceu na região". "Praticamente já desapareceu. O café tornou-se um produto inexistente", lamentou.

O técnico agrónomo Salviano Neto contactado pelo Novo Jornal para comentar a situação disse que "a cadeia produtiva do café em Angola caracteriza-se, na fase actual, por um ambiente de recuperação ténue das plantações e de toda a cadeia produtiva que depois de anos de abandono, necessita de investimentos a todos os níveis da fileira".

"Por ser o café uma cultura perene, exigente quanto à imobilização de activos (especialmente maquinaria e equipamentos de beneficiamento) e com início da fase produtiva apenas de três a quatro anos após o plantio, o processo de recuperação produtiva é, muitas vezes, longo", esclareceu. Para o agrónomo as antigas plantações de café, hoje abandonadas, possuem um ambiente propício para a revitalização da produção de café.

"É nestas terras hoje improdutivas, que se produziu o café que projectou Angola como 3º produtor mundial de café, num passado não muito distante", frisou. Lamentou que "a grande maioria dos produtores, inclusive boa parte dos médios e grandes produtores, não disponham de sistemas estruturados de controlo de custos de produção".

"Com o devido apoio do Estado, é preciso dotar a sua estrutura produtiva de condições e recursos necessários para a concepção e implementação dos programas elaborados, visando a recuperação do potencial produtivo, através de um plano director que contemple as acções estratégicas, com metas e indicadores de desempenho", aconselhou.

Organização precisa-se A respeito da produção do café no município, o administrador do Golungo Alto, Cirilo Matias Mateus, destacou a necessidade dos produtores estarem organizados. "Uma vez organizados" diz o administrador- "os cafeicultores terão mais acesso a créditos e outros incentivos à actividade, visando aumentar a produção e assim poderem contribuir para desenvolvimento da cafeicultura no município e na província".

"A produção do café teve um declínio nos últimos tempos por motivos de vária ordem, mas acredito que se organizarmos os produtores podemos relançar a produção do mesmo e aumentar a economia da região", realçou.

O Novo Jornal apurou que os cafeicultores da província têm sido contemplados com alguns financiamentos através do Programa Angola Investe, visando o incentivo da actividade, mas para agilizar o processo os mesmos precisam estar organizados.

Estão controlados no município do Golungo Alto 275 cafeicultores, dos quais apenas 133 estão em actividade. Na campanha de 2013/2014 foram colhidas 510 toneladas de café mabuba na região, perspectivando-se para a presente época 2014/2015 uma safra de 600 toneladas.

Produção actual

Segundo dados do governo angolano, da baixa contínua do preço do café em 2014, a produção do bago vermelho atingiu uma safra de 1.800 toneladas de café cereja (ainda com casca), um incremento de 300 toneladas em relação ao ano de 2013.

Da quantidade colhida em 2014, apenas 142 toneladas foram comercializadas, por falta de mercado, estando cerca de 758 toneladas ainda na posse dos produtores por dificuldades de escoamento.

O que o Governo pensa

Dada a importância do café no desenvolvimento do país e na obtenção de receitas para a diversificação da economia, o Executivo angolano traçou um plano estratégico para o aumento da produção de café e a revitalização da indústria cafeícola com vista a torná-la atractiva e rentável. Esta estratégia passa pela implementação de programas específicos, nomeadamente a o recuperação e desenvolvimento do sector, fortalecimento da classe empresarial e a melhoria das condições de vida das comunidades rurais.

Este programa pretende apoiar até 2017 cerca de 678.797 explorações agrícola familiares, 12 mil explorações agrícolas empresariais, uma área de 929.699 hectares, nos quais se prevê uma produção de 158 mil e 53 toneladas de café comercial.

Até 2017, prevê-se a produção de 33 mil toneladas e 31 quilos de sementes de qualidade, 100 mil mudas, instalação de um milhão, 210 mil e 486 viveiros e 66 mil e 967 novas plantações. O programa de industrialização do café vai possibilitar a criação de condições para que até 2017, cerca de 49 porcento do café produzido no país seja torrado e moído localmente, criando empregos nas regiões produtoras e aumentando a renda e o bem-estar das populações rurais com a agregação de valor ao produto acabado para a exploração.

Educação

O administrador municipal do Golungo Alto, Cirilo Matias Mateus, disse que neste ano lectivo o sector da educação conta com mais de nove mil alunos matriculados em diferentes subsistemas de ensino, assegurados por 252 professores.

Cento e quarenta e quatro salas de aulas estão disponíveis na municipalidade neste ano lectivo. "O município tem 38 escolas e já tem formados de 100 técnicos médios. Precisam 100 professores para todos os níveis", acrescentou. No ano transacto o sector da educação tinha matriculado 8.629 alunos da iniciação a 12ª classe, com 7.203 aprovados, 845 reprovados e 581 desistentes.

Por outro lado, acrescentou que 3.786 cidadãos frequentam actualmente o programa da alfabetização e recuperação do atraso escolar. O programa de alfabetização no Golungo-Alto regista uma maior aderência de mulheres, com 2.329 matriculadas.

Saúde

As autoridades deste município têm reforçado medidas do saneamento básico e na prevenção e combate à malária na região. O município é endémico e por isso, as autoridades estão preocupadas com o aumento de casos de malária.

Os habitantes locais consideraram de alarmante os índices de malária na circunscrição pelo que recomendaram à administração municipal, sociedade civil e igrejas o redobrar de esforços na promoção de campanhas de sensibilização às comunidades, orientando-as a manterem limpas as suas áreas de residência.

O hospital municipal ampliado e reabilitado é um exemplo. Tem capacidade para internar 70 pacientes e a maternidade, 20 parturientes. Pelo menos 30 novos técnicos de saúde, entre enfermeiros e médicos são necessários, para assegurar o normal funcionamento do sector, no município do Golungo Alto, província do Kwanza Norte.

De acordo com o administrador municipal, a disponibilidade de mais técnicos aproximaria os serviços de saúde às comunidades, tendo em conta a expansão da rede sanitária.

"A circunscrição possui 11 unidades sanitárias asseguradas por 40 enfermeiros, dos quais 13 técnicos médios e 27 básicos e quatro médicos", salientando que o número insuficiente para atender a demanda da população que procura diariamente àqueles serviços.

Outros benefícios

O município dispõe agora de dois sistemas de captação, tratamento e distribuição de água nas sedes comunais de Cambondo e e Quiluange.

As localidades de Cabinda, Caluia, Gungo e Kimbulo também têm sistemas, embora de menores dimensões, e dois furos artesianos nos bairros Beta e Morro da Bomba, além de 29 chafarizes, que servem cerca de 18 mil habitantes.

A sede do Golungo Alto conta, desde Novembro de 2012, com uma linha de média tensão, com 20 postos de transformação, a partir da cidade de Ndalatando, para servir cerca de 25 mil habitantes. A reabilitação das estradas permite ligar o Golungo Alto a várias comunas e municípios, frisou Cirilo Matias, que mencionou a asfaltagem nas vias entre Ndalatando e Cambondo/Golungo Alto, Maria Teresa/Caxilo, Camuaxi/Cabinda/ Golungo-Alto e Golungo Alto/ Kiluange/|Andulo e, proximamente, Golungo-Alto/Camame/ Banga.

A história do município

Golungo Alto tem 1 989 quilómetros quadrados e cerca de 70 mil habitantes. É limitado a norte pelo município de Pango Aluquém, a Este pelos municípios de Gonguembo e Lucala, a Sul pelo município de Cazengo, e a Oeste pelo município de Cambambe. É constituído por três comunas.

O nome Golungo Alto deriva de um animal que é abundante neste município e que ali terá sido exclusivamente caçado com sucesso. Trata-se de uma espécie animal diferente do veado e da seixa que em Kimbundu se chama Ngulungu. Nada tem a ver com o porco, pois, ngulu quer dizer porco.

À semelhança dos nomes Ngulu e Ngulungu, segundo lendas locais, o povo alimentava-se muito da carne de porco de que eram grandes criadores, e a certa altura houve um surto de peste na região que quase eliminou a espécie toda.

Depois um animal selvagem e feroz roubava os poucos porcos que sobravam e levava-os para a mata para os devorar. Estando o povo na carência de carne, os caçadores resolveram ir à procura dos porcos e passaram meses sem os conseguir encontrar.

No final do ano, prestes a começarem as festas de Natal, apanharam um animal selvagem desconhecido, semelhante ao veado e à seixa mas com uma carne mais saborosa que a do porco. Então resolveram caçar em grandes quantidades e levaram-nos às festas populares de modo que todos saborearam e gostaram.

"E em lembranças e recompensas aos porcos elevaram este animal como símbolo e prato típico do Município, chamando-o consensualmente Ngulungu, o que traduz a ideia de porco raro, especial". Quanto a palavra Alto, é simplesmente devido às belas montanhas que abundam no município.

Admirados ficaram os colonos que viram que este povo em quase todas as regiões consegue e prefere construir e viver no Alto das montanhas, saboreando a água das nascentes e deleitando-se com a frescura dos ventos. Escalam montanhas para poderem visitar-se, ir ao rio ou aos campos, com muita eficiência. Daí o nome Ngulungu Alto ou Golungo Alto.