O Papa, perante autoridades nacionais, corpo diplomático e organizações da sociedade civil, apontou como caminho levar mais alto a voz dos homens e mulheres de boa vontade que escolhem a paz e a reconciliação ao invés da exploração e da violência.
"Felizes os pacificadores", disse o Papa, que falou a seguir a uma curta intervenção do Presidente João Lourenço, destacando ainda que a maior riqueza de Angola são aqueles que procuram o caminho do bem.
Apontou como um problema as consequências das opções por lógicas extrativistas, o que se enquadra no contexto angolano, onde as matérias-primas são a base da sua economia, criticando, porém, esse caminho pela forma como discrimina e afasta os mais pobres e frágeis do desenvolvimento e do progresso.
Na sua intervenção, toda em português límpido, apesar de algumas entoações excessivas, o Papa disse estar também ao lado das vítimas das cheias em Benguela, pelas vidas que se perderam e pelas pessoas que perderam os seus bens e casas.
Aludiu aos "muitos tesouros" que Angola possui que "não se vendem nem se roubam", referindo-se à alegria, à fé e á solidariedade que os angolanos possuem e que nem as mais adversas circunstâncias a fizeram desaparecer, mas igualmente em contraste com a cobiça que geram os recursos naturais de que o país também é rico.
Referiu mesmo que há muitos que olham para as terras angolanas não para acrescentar mas para tirar.
E defendeu que a sabedoria de um povo não se deixa apagar por ideologias, notando ainda que o coração dos homens e mulheres de boa vontade persegue o objectivo mais profundo de "transformar" a sociedade que não está ao alcance de qualquer programa político.
Mas avisou que os jovens e os mais desfavorecidos ainda esperam que os seus desejos de desenvolvimento e progresso se concretizem, porque o que já existe não chega.
O Papa Leão XIV, que discursou para os presentes e sobretudo "para um povo que é uma reserva de alegria e de esperança", afirmou que Angola não pode temer as divergências, "devendo gerir os conflitos, transformando-os em caminhos de renovação, colocando o bem comum acima do de cada uma das partes".
Leão XIV, que falou de Angola como um "mosaico muito colorido", instou os responsáveis pela vida pública a acreditarem na riqueza multiforme do País, "sem temer divergências nem sufocar os sonhos dos jovens e a sabedoria dos idosos".
"Os déspotas e os tiranos dos espíritos pretendem tornar as almas passivas e os ânimos tristes, propensos à inércia, subjugando-os ao poder. Na tristeza ficamos à mercê dos nossos medos e fantasmas, refugiamo-nos no fanatismo, na submissão, no ruído mediático e na miragem do ouro, no mito identitário, no descontentamento ou sentimento de impotência", afirmou o Papa, que defendeu a alegria de quem contribui para o bem comum, "que "sabe traçar trajectórias mesmo nas regiões mais sombrias de estagnação e angústia".
"Juntos, podeis fazer de Angola um projecto de esperança", disse Leão XIV, que se dirigia aos mais jovens, advogando "um País livre de escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias".
No seu discurso, o Papa defendeu igualmente que é preciso eliminar os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, sobretudo nas periferias urbanas e nas regiões rurais mais remotas, "onde pulsa a vida do povo e se prepara o futuro da Nação".
PR lamenta que os recursos sejam escassos para resolver todos os problemas sociais do país
Antes do discurso do Papa, o Presidente da República expreddou a Leão XIV o regozijo do povo angolano pela sua presença no país, falou do percurso histórico das relações diplomáticas e de amizade entre Angola e a Santa Sé, sublinhando a "solidez" das relações com o Vaticano que se fundamentam no facto desta ser a 3ª visita de um Sumo Pontífice a Angola.
João Lourenço referiu as relações profundas que Angola tem com a Igreja Católica e sublinhou que os Governos angolanos consideram sempre as contribuições desta para a formulação das suas políticas sociais e económicas.
Admitiu haver ainda muito a fazer, mas lamentou que os recursos para ir mais longe na resolução dos problemas sociais "não são tão abundantes como desejado", mas asseverou ao Papa que as suas palavras e da Igreja que chefia "têm grande e especial ressonância entre os governantes angolanos".
João Lourenço disse ainda ao chefe da Igreja Católica que o passado tumultuoso de Angola é uma referência que permite hoje ao país estar entre os que mais lutam pela pacificação em África onde existem conflitos.
E disse que Luanda está sempre ao lado da paz, lamentando os conflitos que hoje reverberam no mundo, desde logo no Médio Oriente, onde o conflito entre os EUA, Israel e o Irão deve ser resolvido através do diálogo, alinhando aqui pelo mesmo diapasão do Papa Leão XIV.
