Nos primeiros três meses a Polícia Nacional registou 20 casos e apenas dois resultaram em assassinato por motivação passional. Os casos começam com uma história de amor e termina em tragédia. Entre os homicídios cometidos na capital nas últimas semanas, chama a atenção a quantidade de crimes passionais, em que uma erupção sentimental é levada às últimas consequências. 6 de Março: Uma jovem, de 23 anos, matou o marido, na sequência de uma briga entre o casal. Dora João Capaxe foi acusada de ter esfaqueado até à morte o marido, de 33 anos. Tudo por causa de uma disputa pelo comando de televisão.
"Ele queria ouvir música no DVD e eu queria ver o show da paz. Disse-me que ele é que compra o cartão e que queria ouvir música. Foi aí que começámos a discutir. Não sei o que aconteceu, a única coisa que sei é que ele me agarrou e quando me largou, estava estendido no chão. Eu não o queria matar", confessou a jovem.
Dora Capaxe lembra que as brigas com o falecido marido eram constantes. Brigavam "por tudo e por nada, ele me batia quase sempre, as irmãs dele já tinham falado com ele várias vezes. Ele pedia desculpas, mas depois de alguns dias voltava tudo à mesma. Eu, às vezes, falava que um dia iria acontecer o pior, como acabou por acontecer". Dora tem dois filhos, de cinco e um ano de idade. Maria de Tumbe, 17 anos, foi atingida com dois tiros pelo ex-namorado, inconformado com o fim do relacionamento.
A adolescente estava no mercado a vender quando foi surpreendida pelo rapaz, de 24 anos, que tentou levá-la para dentro do carro. Maria resistiu e, depois de ter sido conduzida à força, levou dois tiros na perna e no braço quando tentava fugir. Outros casos mais antigos permanecem na memória da sociedade, como o da cantora Nhã Lisandra, de 23 anos de idade, morta pelo ex-namorado, alegadamente por não aceitar o fim da relação.
O crime aconteceu em 2005, mas a extrema violência e o facto de envolver uma jovem no início de uma promissora carreira fez com que não seja esquecido, vindo à tona sempre que se fala em crimes passionais. O ex-namorado de Lisandra Cecília dos Santos, que frequentava o segundo ano do curso de Informática, no Instituto Superior Privado de Angola (ISPRA), disparou 12 tiros. O corpo de Nhã Lisandra ficou completamente "partido e desfigurado", como noticiou a Angop na altura.
Ainda bem fresco na memória colectiva está o crime que vitimou a bancária Barbara de Sá, supostamen-te morta pela amiga, Judith da Silva, com quem, segundo a polícia, tinha uma relação amorosa e que está a ser julgada.
A bancária terá sido sequestrada, três dias depois, o seu corpo foi esquartejado e encontrado num contentor de lixo em Viana. Passionais sem tipificação Segundo uma fonte do Comando Provincial de Luanda, os crimes passionais não fazem parte das estatísticas oficiais deste comando.
As ocorrências são registadas como ameaça, agressão física e, no extremo, homicídio, mas sem uma tipificação específica. De acordo ainda com a fonte, o número crescente de casos chama a atenção. Considerando ainda que o aumento da ocorrência de crimes passionais é generalizado. "Não sei o que se está a passar com a sociedade. Por tudo e por nada háagressões. Hoje a gente não leva desaforo para casa. É necessário que as pessoas entendam que isso não acontece só em Angola.
Ainda há muita gente que leva essa coisa da honra até às últimas consequências", salientou, alertando que a lei prevê punições para os agressores de mulheres, o que parece não dissuadir a prática deste tipo de crimes. O problema, explicou, é cultural. "Existe uma ideia de que o homem está autorizado a agredir a companheira se ela o trair, por exemplo. Isso é uma questão de educação e de cultura".
A mesma fonte classificou o aumento do número de registo de agressões em Luanda como "alarmante". Em parte, o crescimento das ocorrências dá-se por uma maior participação das vítimas, que hoje já não têm tantos problemas em apresentar queixa.
Noutros casos, como esclareceu a fonte, o registo é feito independentemente da vontade da mulher, por se tratar de um crime público. Os casos em que as vítimas dão entrada em hospitais e postos de saúde com sinais de violência doméstica são automaticamente comunicados à justiça, que acciona os mecanismos para punir o agressor.

