Com o Estreito de Ormuz novamente encerrado, a mais dramática consequência sempre que as hostilidades iraniano-americanas são retomadas, o barril de Brent, em Londres, bem como o WTI, em Nova Iorque, ressentem-se e valorizam ao minuto.

O Brent, que é a principal referência para as ramas exportadas por Angola, está nesta segunda-feira, 13, perto das 10:20, hora de Luanda, a tombar para cima do verde, na perspectiva dos exportadores, e para o vermelho, no caso dos importadores, chegando aos 77,6 USD.

Este valor está ligeiramente abaixo do início da sessão, onde alcançou os 79 USD, mas claramente acima do preço de partida, que eram os 72, 3 USD com que os mercados fecharam na passada sexta-feira.

E com perspectivas de novas subidas se se confirmar aquilo que muitos analistas, como Steve Hanke, economista sénior da Universidade Johns Hopkins e especialista em mercados energéticos, estimam ser uma falsa realidade construída à custa das reservas estratégicas norte-americanas.

É que, como nota este renomado especialista, num podcast emitido no Domingo, as reservas estratégicas dos EUA, e outras, estão perigosamente a mostrar o fundo e isso, se continuar, quando for percepcionado, como se espera, pelos mercados, o pânico pode ser devastador.

Outra possibilidade para que esse efeito esteja a ser retardado é, segundo Steve Hanke, a ideia, igualmente pouco sólida, de que 2027 será um ano de decréscimo na procura e os mercados já estão a acomodar esse cenário, embora nada de substantivo aponte para essa realidade de modo a que possa justificar um efeito de controlo antecipado dos mercados.

Apesar de tudo, ao aproximar-se dos 80 USD, no caso do Brent, e dos 74, no WTI, o perigo para a economia global não se dilui e muito menos nos EUA, onde Donald Trump está entre a espada e a parede de mostrar fraqueza face ao Irão e Israel, e as eleições intercalares de Novembro onde pode perder, como todas as sondagens o sustentam, as maiorias nas duas câmaras do Congresso, os Representantes e Senado.

O cenário actual aponta para um duelo bizarro onde o conflito não interessa a nenhum dos contendores, EUA e Irão, embora um terceiro elemento, Israel, circunstancialmente e aparentemente fora dos combates, defenda a guerra e não a paz, mas ambos, Washington e Teerão, aguardem que o "outro" pisque primeiro os olhos.

Enquanto isso, a tensão no Golfo Pérsico persiste e o Estreito de Ormuz, o gargalo marítimo por onde são escoados 20% do petróleo e do gás que nutrem os motores da economia mundial, voltou a ser fechado pelo Irão.

Enquanto este estratégico ponto de passagem entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico não estiver aberto, a tendência, como apontam todos os analistas, é que os mercados continuem a não conseguir acomodar todos os sobressaltos, apesar dos esforços nesse sentido da Administração Trump.

E é de tal modo assim que alguns países europeus já admitem publicamente que o Irão, contra o que defende Donald Trump, possa cobrar serviços pela passagem de navios no Estreito de Ormuz, como, de resto, surge previsto no Memorando de Entendimento assinado em Junho por iranianos e americanos.

É que sendo esta a passagem de 20 milhões de barris de crude por dia em tempos de paz, o que corresponde, segundo o site MarineTraffic, que monitoriza a navegação comercial global, a mais de 150 petroleiros por dia, actualmente este número não passa dos 20 a 30, e isso dependendo de terem ou não autorização de Teerão.

Esse é outro dos estranhos contornos desta crise e de difícil explicação para o aparente controlo "emocional" dos mercados sublinhados por Steve Hanke, porque, nota este especialista da Universidade Johns Hopkins, não apenas milhões de barris deixaram de desaguar nos mercados oriundos do Golfo, como a Rússia deixou de ser um player regular.

Ou seja, como é que, questiona, com esta redução de oferta no Golfo Pérsico e com a Rússia a deixar de fornecer, como antes de 2022, início da guerra na Ucrânia, perto de 10% do crude mundial, e agora, em coincidência com o conflito no Médio Oriente, mais de 10% dos produtos refinados, os mercados se mantêm tão calmos?

Não há, aparentemente, uma resposta clara para esta pertinente questão, mas entre alguns analistas começa a temer-se que a esta surja de rompante, como uma explosão atómica, que levará, no pior dos cenários, o caos à economia planetária.

Perante este contexto de difícil compreensão e antecipação do que será no futuro breve, os países com as economias mais dependentes das exportações de energia, como a angolana, estão especialmente atentos aos sinais que chegam destes pontos quentes globais.

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 77, 5 USD, no caso do Brent, perto de 17 USD acima desse valor.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.