Importa lembrar que o próprio território angolano, tal como hoje o conhecemos, é uma construção histórica relativamente recente. As suas fronteiras consolidaram-se apenas nas primeiras décadas do século XX. Ou seja, antes mesmo de discutirmos uma arquitectura angolana, é necessário perceber a definição do território (espaço geográfico) onde essa ideia de nação se desenvolve.
A resposta não é apenas uma questão de investigação científico académica. Dela depende a forma como queremos escrever a história de um país, como queremos proteger o seu património, como queremos ensinar arquitectura ou queremos planear as suas cidades para compreendermos a sua própria identidade.
Em junho de 2026 assinalaram-se os cinquenta anos da arquitectura angolana enquanto categoria nacional. Não porque a arquitectura tenha começado em 1976, mas sim porque pela primeira vez, toda a arquitectura existente no território de Angola passou a integrar uma mesma responsabilidade nacional, independentemente da sua origem, autoria ou época de construção. Esse património assumido por decreto (Lei 43/76) passou a fazer parte da história de Angola e da responsabilidade colectiva dos angolanos.
No nosso ponto de vista, a arquitectura angolana não deve ser lida como um estilo arquitectónico único. Não como estética única. Ela não corresponde apenas a um período histórico único e muito menos deve ser definida apenas pela nacionalidade dos seus autores. A arquitectura angolana é, antes de tudo, o património construído de um território e de uma nação. É a memória material da formação de Angola. É o conjunto de edifícios, cidades, infra-estruturas e paisagens que testemunham diferentes épocas da nossa história e que ajudam a compreender quem fomos, quem somos e quem pretendemos ser. Por isso, estudar arquitectura angolana nunca significou apenas estudar edifícios. Significa estudar o território, a evolução das cidades, as formas de habitar, a educação, a saúde, a economia, a cultura, a antropologia e as instituições. Significa compreender como um país se constrói através dos espaços que produz, ocupa, transforma e preserva.
No entanto, existe um paradoxo que não podemos ignorar. Falamos frequentemente de arquitectura angolana, mas conhecemo-la muito pouco. Ao longo destes cinquenta anos, Angola não desenvolveu um inventário nacional abrangente da arquitectura existente no seu território. Persistem lacunas documentais significativas. Muitos edifícios desapareceram sem qualquer registo. A investigação permanece profundamente desigual entre as províncias. Em consequência, conhecemos fragmentos da nossa arquitectura, mas ainda estamos longe de conhecer o conjunto. Um país que não conhece a sua arquitectura conhece mal a sua própria história. Não se consegue proteger aquilo que não se conhece ou que não se aceita como seu património. Não se ensina aquilo que não se estuda. Não se transforma património num recurso para o desenvolvimento quando esse património permanece invisível.
É desta constatação que se esta a desenvolver o projecto 50 Anos de Arquitectura Angolana. Mais do que uma comemoração, este projecto propõe um levantamento crítico da arquitectura existente nas vinte e uma províncias de Angola, procurando reunir conhecimento, documentação e reflexão crítica sobre um património que continua disperso e, em muitos casos, insuficientemente estudado. O objectivo não é apenas olhar para os últimos cinquenta anos, mas criar uma base de conhecimento que permita compreender a arquitectura
angolana na sua continuidade histórica e na sua diversidade territorial. É, portanto, um projecto sobre memória, sobre identidade, sobre autoconhecimento, sobre cidadania, sobre desenvolvimento e futuro.
Ao longo desta série de 10 artigos procuraremos demonstrar que a arquitectura é apenas a lente através da qual podemos compreender questões muito mais amplas: a formação do território, a construção das cidades, a valorização do património, o potencial cultural, a qualidade da educação e a visão de futuro que desejamos para Angola.
Celebrar cinquenta anos só fará sentido se esse exercício nos permitir construir os cinquenta seguintes com maior conhecimento, maior consciência e maior responsabilidade. Talvez seja essa a pergunta que deva acompanhar toda esta série: Quando falamos de arquitectura angolana, estamos apenas a falar de edifícios ou estamos, afinal, a falar da própria construção de Angola?
* Arquitecto e Investigador