O que ouvimos naquele áudio foi uma verdadeira manipulação emocional, um adulto que procura usar a sua posição para tentar convencer uma adolescente e "normalizar" que o que fez foi resultado de um "desvio" da mente. Uma atleta que é campeã nacional e internacional, hoje fica conhecida apenas por obra e acaso da actividade de um treinador que a devia orientar, proteger e disciplinar. A pobre menina viu a sua imagem exposta num período em que fazia exames escolares e está emocionalmente abalada. Pior do que isso, hoje ela e a sua família têm de lidar com a intolerância, com a falta de solidariedade e de educação de pessoas que nas redes sociais fazem comentários vergonhosos que desonram o seu nome e imagem, um sinal que revela muito da sociedade em que vivemos hoje. Tudo sem dó e nem piedade do sofrimento da menina, dos pais, irmãos, primos, tios, avós e outros familiares dela.
Os pais procuram apoiar e ver os filhos realizarem sonhos. Põem os filhos a praticarem desportos e entregam-nos aos cuidados de pessoas "de confiança" - só que não... pessoas cujo perfil na verdade desconhecem, pessoas que passam grande parte do tempo com as adolescentes, viajam com elas para dentro e fora do país em competições. O treinador já detido e presente a um juiz de Garantia, está num estabelecimento prisional, mas a aguardar e ver se este caso não morre na praia!
Onde andam as instituições criadas para a defesa da honra, da moral e dos bons costumes? Alguém ouviu aí o INAC, o Ministério da Família, a OMA, a LIMA e outros? Viram por aí algum "amplo debate" na comunicação social? - O silêncio, muitas vezes, não é neutralidade, é cumplicidade!
Temos uma sociedade que se cala porque é conivente, porque tem medo que ao tocar neste caso pode estar a criar condições para que outros sejam mexidos, discutidos e abordados.
A andebolista Albertina Kassoma deixou algumas perguntas no ar, entrementes todos assobiaram ao lado, fingiram que nem viram. Aquela reacção de Albertina Kassoma não é inocente... o que está a acontecer no Ju Jitsu, provavelmente já terá acontecido - ou ainda acontece - no andebol e basquetebol feminino mas todos se calam porque ninguém quer abrir a Caixa de Pandora.
Até quando?! Este é um assunto que muitos querem que venha a morrer na praia, que venham outras distracções e, no final, prevaleça o habitual "abafa o caso"! É que, já viu se ainda surge alguém a denunciar aquele treinador ou dirigente desportivo que há 30 anos usou e abusou da sua autoridade para abusar de menores no andebol, basquetebol, futebol, ginástica, natação e outras modalidades!? Ainda vão falar de governantes, empresários e figuras públicas que foram useiros e vezeiros no abuso de menores em apartamentos nas centralidades, em casas nos condomínios , no Mussulo ou em fazendas por aí . Já imaginaram vocês um ficheiro Eipsten "made in Angola"?
Somos uma sociedade de virtudes públicas e de vícios privados. Todos se calam, até que um dia a vítima seja alguém próximo de nós. Uma sociedade que relativiza abusos contra menores está moralmente doente e falhar redondamente. Como disse Niki Menezes, as nossas crianças precisam de protecção, não de desculpas de adultos predadores!
Deixo aqui uma palavra de conforto à atleta de Ju Jitsu e à sua família que muito sofre. Uma mensagem de apoio para todas mulheres que foram vítimas de abusos de predadores que usaram o seu poder e influência para destruir suas vidas e projectos: estes e outros abusos não podem morrer na praia!