A possibilidade de novo período de violência cinética no Golfo Pérsico está a gerar a maré perfeita para novas valorizações do barril de crude, tanto em Londres, Brent, como em Nova Iorque, WTI, porque se vem juntar ao já famoso "Dia D Económico" dos EUA no Irão.

Não é uma invasão como a de 1944, na Normandia, quando os aliados iniciaram a recuperação da Europa das mãos dos nazis, é outri "Dia D", do tipo invasão da economia do Irão com sanções em cima de sanções que já estão nas praias iranianas há décadas.

Como sempre, o ponto focal destas iniciativas da Casa Branca é o Estreito de Ormuz, que, também como sempre, Trump diz querer reabrir à força para reduzir o preço da energia fóssil mas com as quais apenas tem conseguido novas escaladas nos gráficos dos mercados internacionais.

Há uma área do negócio do petróleo dos EUA que está agradecida a Donald Trump, que é a do fracking, ou petróleo de xisto, indústria que tem um breakeven elevado e precisa do barril acima dos 90 USD para poder gerar lucros semelhantes aos da extracção tradicional.

E é também nessa indústria do fracking que está, sabendo-se disso porque é o próprio Trump que o confirma, uma das plataformas mais relevantes de apoio financeiro para as campanhas eleitorais do Presidente e do seu Partido Republicano.

Somar dois mais dois, dá sempre quatro e Trump já sabe, porque repete a táctica amiúde, que sempre que retoma os ataques ao Irão o petróleo sobe e em nada muda o "status" no Estreito de Ormuz: está fechado para os americanos e os seus aliados ocidentais...

É neste imprevisível filme sem guião que o barril de Brent, a referência maior para as exportações angolanas, estava esta terça-feira, 01, perto das 12:00, hora de Luanda, a valer 92,3 USD, mais 2% que no fecho anterior, somando ganhos por cima do campo minado do Golfo Pérsico.

E a imprevisibilidade não deve esvanecer-se rapidamente, porque o próprio Trump tem repetido as ameaças de voltar a atacar "muito forte" o Irão nos próximos dias.

Mas, como sempre, só quando se chegar aos "próximos dias" se saberá o que fez o "guionista frenético" na Casa Branca e os mercados já se mexem pouco a não ser perante certezas...

Angola soma ganhos, mas...

O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 92 USD, no caso do Brent, cerca de 31 USD acima desse valor.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.