Foi na Fenda da Tundavala, diante daquele precipício vertiginoso, que parámos para contemplar Bibala de uma perspectiva privilegiada. Lá em baixo, o município parecia estender-se sem fim, entre a serra, a vegetação e a aridez do Namibe. Contemplámos a paisagem durante alguns minutos e registámos em fotografias a imensidão que se abria diante de nós. O local foi oficialmente classificado como Paisagem Natural e Cultural em 9 de Agosto de 2012, por Decreto Executivo, servindo de varanda natural sobre o abismo que separa o planalto da Huíla das terras baixas do Namibe.
Bibala, município do Namibe situado aos pés da Serra da Chela. É nesse encontro entre o deserto e a montanha que Bibala construiu a sua vocação agrícola e pastoril. Onde a geografia, a vida rural e a memória colectiva se cruzam para formar uma identidade própria.
Vista da Fenda da Tundavala, nos longes, as montanhas aglomeram-se e recortam o horizonte do Namibe, erguendo-se em frentes imponentes que aos poucos se esfumam num tom azul-acinzentado, dissolvendo-se na claridade pura do céu. A partir dos cumes verdes da Serra da Chela, a vertente despenca abruptamente em encostas acidentadas, abrindo caminho para o grande desnível que marca a transição entre o planalto e as terras baixas.
Para o interior do município, o relevo vai gradualmente suavizando e perdendo altura. Das cristas mais elevadas, erguem-se formações rochosas e enormes blocos de granito, que surgem na paisagem como pequenas sentinelas esculpidas pelo tempo, contrastando com o desenho serpenteado das estradas que cortam a vegetação arbustiva.
Lá em baixo, a perder de vista, estende-se a vasta e larga planície da Bibala. O vale combina tons de terra seca, povoações dispersas e manchas de savana, revelando uma imensidão territorial que traduz a escala monumental da geografia sul angolana.
Há uma particularidade interessante na possível origem do nome Bibala. Uma fonte local relaciona-o com Ovivala, termo da língua Nhaneca interpretado como «várias cores», numa alusão às formações rochosas das serras que envolvem a região. A interpretação não é consensual do ponto de vista etimológico, mas oferece uma imagem sugestiva para compreender o território. Bibala está longe de ser uma paisagem de uma só cor: há a pedra das serras, o verde da vegetação, a água, o gado, as áreas de cultivo e a memória de uma terra marcada pelo caminho-de-ferro.
A povoação foi fundada a 1 de Fevereiro de 1912, no contexto da construção do Caminho de Ferro de Moçâmedes, e recebeu inicialmente o nome de Vila Arriaga, que manteve até 1975. O comboio ligou este território ao litoral e ao interior e deixou uma marca que ainda hoje faz parte da sua memória. Bibala é, assim, um lugar onde a paisagem do Namibe muda de rosto: o deserto fica para trás e a serra aproxima-se.
Bibala é, no fundo, uma terra de encontros. Entre o deserto e a serra, entre a secura e a vida, entre o passado e o presente das nossas gentes. Vista da Tundavala, impressiona pela dimensão; percorrida de perto, revela uma paisagem diversa, uma terra de trabalho e uma identidade própria. É talvez essa a melhor forma de a compreender, não apenas como um município do Namibe, mas como um dos lugares onde o Sul de Angola mostra a sua diversidade.
*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto
