Depois de o Novo Jornal ter noticiado na quinta-feira, 28, que várias províncias estão a experienciar problemas no abastecimento de combustíveis e gás de cozinha, com destaque para Luanda, onde a escassez começa a ganhar dimensão de crise, a Sonangol Distribuição e Comercialização veio a público explicar a razão para esta situação.
Em comunicado, visando afastar o risco de o país entrar no mapa africano das crises mais severas no acesso a combustíveis, como o Quénia, a Etiópia, a RDC ou a Zâmbia, entre outros, a empresa avança que este problema resulta do "crescimento repentino e atípico da procura".
E isso, adianta ainda o mesmo documento, "gerou uma pressão acrescida sobre a cadeia logística de abastecimento" que provocou a escassez que se vive em Luanda mas também noutras regiões do país, especialmente no centro e sul, onde se destacam as províncias de Benguela, Huíla e Namibe.
A Sonangol Distribuidora considera tratar-se apenas de "constrangimentos temporários" em alguns postos de abastecimento e que "os automobilistas e a população em geral" não têm razões para preocupações desnecessárias visto que o país "dispõe de combustível suficiente para responder à procura".
E ainda porque "em coordenação com os diferentes operadores do sector, a Sonangol Distribuição e Comercialização "tem em curso um plano de estabilização da rede de abastecimento" por via terrestre e marítima em todas as regiões de Angola.
"A empresa assegura total empenho na rápida normalização do abastecimento e na estabilização gradual da situação nos próximos dias, pelo que apela à calma, serenidade e tranquilidade da população", culmina assim o comunicado da empresa.
Todavia, esta situação coincide claramente com um problema crescente em todo o continente africano resultante da redução drástica no fluxo normal de petróleo em todo o mundo desde finais de Fevereiro, com o início da guerra aberta pelos EUA e Israel contra o Irão.
Esse conflito levou ao imediato encerramento do Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, e por onde passam, normalmente, 20% do petróleo e do gás (LNG) consumidos diariamente em todo o mundo.
Esta situação, como todos os indicadores apontam, não levou apenas a um aumento substantivo do preço da matéria-prima e, consequentemente, dos produtos refinados, como deixou algumas regiões do mundo, especialmente em África e na Ásia, com sérias crises de combustíveis porque as grandes refinarias deixaram de ter capacidade para responder ao aumento da procura.
Em África, países como o Quénia, RDC ou Tanzânia, atravessam mesmo crises sociais graves devido à falta de gasolina e gasóleo nos postos de abastecimento, embora o mesmo cenário ocorra em dezenas de outros países mas sem que, para já, a situação evolua para respostas populares violentas.
Com o barril de petróleo acima dos 100 USD há cerca de três meses, apesar de esta semana se estar a verificar uma diminuição, para perto dos 90 USD, no caso do Brent, isto significa que países altamente dependentes da importação de refinados, como é o caso de Angola, estarem agora a pagar, por vezes o dobro, dos valores que existiam antes de 28 de Fevereiro.
E na região central de África, onde Angola também se situação, a situação está a ser relativamente mitigada porque em 2024 entrou em funcionamento a maior refinaria africana, a Dengote, na Nigéria, com uma capacidade de processar 650 mil barris/dia, tendo a sua capacidade máxima sido atingida precisamente neste momento.
Em países como o Gana, Togo, Camarões, República do Congo, Costa do Marfim ou mesmo Zâmbia, foi o recurso a esta infra-estrutura recente que evitou crises mais severas, mas também noutros continentes, que estão, como a Refinaria Dengote admitiu publicamente, em fila à espera dos seus produtos, especialmente o jet fuel para a aviação comercial.
O "milagre" Dengote
Alguns dos países para onde a Refinaria Dengote, na Nigéria, começou a exportar refinados do crude, como combustíveis, poderiam estar na lista das possibilidades para exportação angolana a partir das suas três refinarias que permanecem em construção ou em fase inicial de produção.
Com efeito, a maior refinaria africana, que entrou em funcionamento em 2024, situada na Nigéria, com capacidade de refinação de 650 mil barris/dia, e é um investimento do homem mais rico de África, Aliko Dengote, começou agora a colocar os seus produtos no mercado africano em força.
Países como Togo, Camarões, Tanzânia, Gana ou a Costa do Marfim, aparecem, segundo os media especializados na lista dos primeiros clientes da Refinaria Dengote, aproveitando a redução da oferta gerada pela guerra no Médio Oriente, sendo que outros países, como a RDC, República do Congo, ou Zâmbia, estão na calha para serem clientes.
Alguns destes países, nomeadamente os de maior proximidade geográfica, podem ser, naturalmente, clientes, como já foi sublinhado pelas autoridades angolanas do sector, dos excedentes esperados da refinação nacional quando as unidades do Soyo, Cabinda e Lobito estiveram operacionais.
É que, as necessidades diárias angolanas rondam os 200 mil barris/dia, a capacidade máxima, por exemplo da infra-estrutura projectada para o Lobito, e as quatro, contando com a actual, de Luanda, deverão, em plena funcionalidade, refinar entre 350 a 400 mil barris por dia.
Números longe da capacidade desta infra-estrutura nigeriana, com potencial para refinar até 650 mil barris/dia, cujo fundador, ao longo do processo de construção foi repetindo que se tratava de um projecto com potencial para garantir a independência energética regional.
E essa demonstração de potencial está a ser apressada pela crise no Médio Oriente gerada pela guerra iniciada pela coligação israelo-americana contra o Irão, que está há 3 meses a retirar quase 20% do crude e do gás mundial de circulação devido ao fecho do Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsicoi e o Oceno Índico, pelo Irão.
O primeiro passo para a expansão regional da Refinaria Dengote, situada na região de Lagos, começou em Março deste ano, com o anúncio de que foram exportados 12 cargas, totalizando 456 mil toneladas de fuel, para seis países da região.
O que está dentro dos objectivos iniciais deste investimento superior a 20 mil milhões USD, que são proporcionar independência energética à Nigéria e a toda a África Ocidental e Central, uma das áreas de potencial mercado para os excedentes das refinarias angolanas.
Um porta voz da Refinaria Dengote, citado pelas agências, sublinhou que o conflito no Médio Oriente está a ajudar a queimar algumas etapas na conquista de quotas de mercado e acrescentou que esta unidade tem já procura fora do continente africano, especialmente no que toca ao jet fuel.






