A justificação para a preanunciada tomada de Havana pelo Presidente dos Estados Unidos é uma acusação judicial do Departamento de Justiça contra Raúl, falecido em 2016, que sucedeu no comando do país, em 2008, e até 2018, ao histórico Presidente Fidel.

Aos 94 anos, mais de seis anos após ter abandonado o poder, sucedendo-lhe o actual Presidente Miguel Díaz-Canel, Raúl Castro é acusado por Washington de ser responsável por ter ordenado, em 1996, o abate de dois pequenos aviões de passageiros provenientes de Miami tendo morrido os quatro ocupantes.

Estes dois aparelhos, Cessna 337 Skymasters, abatidos pela Força Aérea Cubana, eram operados por um grupo de cubanos anti-comunistas exilados em Miami, denominados "Irmão para o Salvamento", apoiados pela CIA, com o objectivo de ajudar dissidentes a deixar a ilha, mas acusados por Havana de sucessivas violações do seu espaço aéreo.

Esta acção judicial visa, como admitem alguns analistas, criar o contexto para uma intervenção militar em Cuba, como, de resto, Donald Trump tem repetido exaustivamente ser sua intenção.

Outros analistas apontam na direcção de uma manobra de distração para o problema no Golfo Pérsico, na guerra com o Irão, e a preparação de outra, se este for resolvido, para o melindroso caso do escândalo de pedofilia internacional encerrado nos "Ficheiros Epstein" e onde Trump é dos nomes mais citados.

Apesar de o Presidente dos EUA estar há meses a repetir que vai invadir Cuba (ver links em baixo), cumprindo o trabalho iniciado em 1961, com a catastroficamente falhada invasão da Baia dos Porcos, ordenada por John Kennedy, nos meios de análise militar, o que deverá estar em preparação é um golpe semelhante ao que permitiu aos EUA raptar o Presidente Nicolás Maduro, na Venezuela, a 03 de Janeiro deste ano, em Caracas.

É que, ao mesmo tempo que fala em nas facilidades em tomar Cuba quando lhe apetecer fazê-lo, Donald Trump tem igualmente sublinhado a incapacidade dos seus governantes para garantir o básico ao povo cubano, ignorando que essas dificuldades são fruto do bloqueio naval de décadas e as pesadas sanções económicas impostas a Havana.

O que, como nota Alexander Mercouris, analista britânico no podcast The Duran, permite dar como seguro que Washington espera conseguir penetrar no tecido militar e político cubano de forma a substituir, através de uma acção militar de forças especiais, a actual liderança por outra mais cooperante com os EUA.

Para isso contribui o facto de os norte-americanos terem reforçado o bloqueio naval à ilha de Cuba, impedindo o acesso aos seus portos de todos os navios, incluindo petroleiros, deixando o país ás escuras, sem combustível, matando o sector do turismo, hospitais sem energia, cidades sem luz e sem gás...

Esta situação trágica, que já levou à morte de dezenas de pessoas em hospitais cubanos devido à falta de energia, foi aliviada entretanto com o envio pela Rússia de dois navios com combustível, furando o bloqueio naval dos EUA, permitindo assim ao Governo aguentar-se por mais uns meses sem uma implosão social.

Na resposta cubana a esta pressão de Washington, desde logo lembrando que, aquando do abate dos dois aparelhos sobre águas territoriais cubanas, as violações do espaço aéreo cubano eram flagrantes e repetidas, com sucessivos avisos do risco que estavam a correr os seus ocupantes, quase todos radicais anti-comunistas que usam Miami como quartel-general para a sua "guerra" com o Governo de Havana.

Um dos mais conhecidos cidadãos norte-americanos de origem cubana, a quem Trump já apontou o lugar de Presidente de Cuba assim que o actual poder cair, é Marco Rubio, o actual secretário de Estado e Conselheiro para a Segurança Nacional do Presidente dos EUA.

Rubio nunca escondeu a sua vontade de "resolver" o problema cubano começado em 1959, com a Revolução liderada por Fidel Castro e Che Guevara, que depós Fulgencio Batista, o então presidente marioneta de Washington que permitia que a ilha fosse um "El Dorado" para a criminalidade organizada dos EUA, especialmente a máfia nova-iorquina.

Além disso, os EUA nunca perdoaram o papel de Cuba em diversos palcos globais, sendo um dos mais conhecidos Angola, que, durante a guerra civil, ao lado das FAPLA/MPLA, ajudou, com milhares de militares, e o apoio da então URSS, a derrotar as forças da oposição apoiadas por sul-africanos e por norte-americanos num dos conflitos mais violentos de toda a Guerra Fria.

Sobre este avanço de Washington sobre Havana, que ainda não tem uma natureza definida, o Presidente Miguel Diaz-Canel disse, numa publicação no X, que esta perseguição a Raul Castro "apenas revela a arrogância e a frustração dos representantes do império com o desfecho da Revolução Cubana".

Diaz-Canel acrescenta na mesma sentença que se trata de "uma manobra política, sem qualquer respaldo legal, visando apenas fabricar um dossier de justificação para a agressão militar" que andam a planear há muito contra Cuba.

A par da resposta política, o Governo de Havana tem repetido que Cuba não será um campo de facilidades para uma agressão de Washington, sublinhando amiúde que as facilidades vistas em Caracas, Venezuela, não existem nem existirão em Havana e que as forças militares e populares cubanas estão prontas para combater a invasão norte-americana.

Alguns media latino-americanos têm avançado que em toda a ilha cubana estão a ser feitos preparativos para uma hipotética invasão dos "gringos" há muito tempo, envolvendo militares no activo, veteranos das várias guerras em que o país esteve envolvido e milhares de jovens, mesmo que muitos deles anseiem por mudanças económicas e políticas, que não querem ver a sua terra tomada militarmente.