Nos últimos seis meses, o Presidente dos EUA usou a sua rede social Truth Social para manipular os mercados energéticos, ora ameaçando o Irão com ataques "nunca vistos", ora recuando, com o valor do crude a dançar ao ritmo das suas publicações.

Alguns analistas lembram, contudo, que, apesar de parecer que o barril, tanto o Brent, em Londres, como o WTI, em Nova Iorque, tem grandes oscilações, a verdade é que a média dos últimos seis meses, desde o início da guerra, essa é uma constante.

Noventa e três USD, um valor sete dólares abaixo daquilo que fontes da Cecretário do Tesouro norte-americano, disseram, pouco depois do ataque da coligação israelo-americana ao Irão, a 28 de Fevereiro, que seria um valor sustentável para a economia dos EUA.

É verdade que o barril de Brent, normalmente negociado acima do WTI, andou pelos 120 USD neste período, mas a média é que interessa e essa, contra todas as lógicas que se viram no passado por detrás de grandes oscilações nos mercados, rondou "apenas" os 90 dólares.

Senão vejamos, como notava recentemente Larry Wilkerson, ex-coronel dos EUA e chefe de Gabinete do secretário de Estado Collin Powell, na Administração Bush, no passado não muito distante, bastaria um ataque a uma grande refinaria da Arábia Saudita para fazer o crude disparar para valores astronómicos...

Agora, além de dezenas de refinarias, poços, de gás e de petróleo, terem sido atingidos, nalguns casos ainda a arder por esta altura, o Estreito de Ormuz, por onde passam, normalmente, 20% do crude e do gás queimados diariamente pela economia mundial, está fechado há seis meses, com breves pausas no bloqueio iraniano.

A isso, junta-se o facto de o Estreito de Bab al-Mandab, entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho/Canal do Suez, por onde circula 12% do comércio mundial, incluindo energia, estar sob fortes restrições dos Houthis do Iémen, especialmente visando a Arábia Saudita.

E, contudo, aponta Wilkerson, o barril de petróleo comporta-se como se nada de extraordinário estivesse a acontecer, com ligeiras oscilações que são todas, pelo menos aparentemente, passiveis de ser alteradas dependendo dos interesses do Presidente dos EUA...

A única certeza é que o fenómeno por detrás da mansidão dos mercados petrolíferos vista desde Fevereiro deste ano até hoje, não foi ainda totalmente esclarecido, apesar de alguns especialistas o irem desbravando aqui e ali, ou porque o mundo está a consumir menos crude, a libertação de reservas astronómicas nos EUA e na China...

Podem explicar parte das razões, longe de serem suficientes para assentar uma certeza.

Certeza existe apenas para o facto de o barril de Brent, que seve de referência maior para as ramas exportadas por Angola, estar esta sexta-feira, 14, a valer, perto das 11:00, hora de Luanda, 87, 4 USD, um ganho ligeiro de 0,4% em relação a ontem, mas cerca de 5% acima do valor com que começou a semana.

Por detrás destes ganhos estão, sempre, as declarações der Trump, mas, agora, com um pendor "persa", porque em Teerão se voltou a dizer que o americano não tem noção quando diz que os EUA são quem manda em Ormuz, e agora, aparentemente, alguns media ocidentais, "ouviram" os iranianos.

A Reuters, por exemplo, divulgou hoje uma análise onde nota que estes ganhos semanais de 5% resultam do anúncio pelos EUA de que o bloqueio naval aos portos iranianos se vai manter por longo período, o que implica que o Irão vai manter Ormuz fechado, embora segundo Trump, seja Washington que tem a chave desta estratégica passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o mundo.

Esta agência britânica adianta mesmo, contrariando as certezas de Trump, que as "últimas ameaças americanas chegam numa altura em que o Irão aperto o fluxo de crude que passa em Ormuz".

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 87, 5 USD, no caso do Brent, cerca de 26 USD acima desse valor.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.