A ministra da Educação, Érika de Carvalho Aires, lembrou, naquele momento, que a educação é um dos mais poderosos instrumentos de transformação das sociedades. Falou de cidadania, paz, justiça social e inovação, mas deixou também aos alunos uma recomendação particularmente importante: respeito pelos professores, espírito de investigação, tolerância, solidariedade e patriotismo. É uma visão de escola que não se esgota na transmissão de conteúdos, mas procura formar pessoas capazes de pensar e intervir no seu tempo.
O ano começa com escolas requalificadas a regressarem ao serviço, a aprovação de 145 novas escolas no âmbito do projecto Minha Escola, Meu Futuro e, no Huambo, a distribuição de mais de 130 mil manuais escolares, 20.300 carteiras e 200 computadores. A província conta ainda com novas respostas no ensino técnico, como o Instituto Técnico de Saúde Professor Luís Lumai, no Bailundo. São medidas que não resolvem, por si só, os problemas da educação, mas mostram que a melhoria das condições materiais continua a ser uma frente indispensável.
Mas uma escola melhor, além de edifícios, carteiras, manuais ou computadores, faz-se também de atenção, disciplina e disponibilidade para aprender. Se queremos alunos capazes de investigar, ler, pensar e concentrar-se, teremos de discutir os limites de uma tecnologia que, quando usada sem critério, pode transformar-se de instrumento de aprendizagem em fonte permanente de distracção. Falamos a propósito da restrição do uso de telemóveis no ensino primário e secundário.
O número de países que limitam ou proíbem o uso de telemóveis nas escolas cresce rapidamente, sinal de que a questão deixou de ser uma preocupação marginal para se tornar uma matéria de política educativa.
Segundo a UNESCO, em Março de 2026 já 114 sistemas educativos tinham adoptado proibições nacionais. A razão é simples: o telemóvel, quando escapa ao controlo pedagógico, compete directamente com a atenção do aluno, introduz nas salas de aula as redes sociais, os jogos, as notificações e abre espaço a problemas que ultrapassam a aprendizagem, como o cyberbullying, a exposição indevida de dados pessoais, a pressão social e outros riscos associados ao ambiente digital.
Em Espanha, por exemplo, escolas de algumas regiões autónomas proíbem os telemóveis nas instalações, mas não existe uma proibição a nível nacional. Na Itália, os dispositivos eletrónicos estão proibidos nas salas de aula, mesmo para fins pedagógicos. A proibição inclui os alunos do jardim de infância e das escolas primárias e secundárias. Só para citar estes dois exemplos.
A discussão passou, por isso, da pergunta sobre se os alunos devem ter telemóvel para uma questão mais exigente: em que circunstâncias, com que limites e para que finalidade deve ser usado na escola? A tendência internacional parece apontar para uma resposta cada vez mais clara: a tecnologia pode servir a educação, mas não pode ocupar o lugar da atenção, da convivência e da aprendizagem.
O Ministério da Educação, caso ainda não tenha feito, poderia iniciar um estudo nacional que avaliasse os impactos do uso excessivo destes dispositivos no aproveitamento, na concentração e no comportamento dos alunos e, a partir daí, ponderar uma política de restrição adequada à realidade angolana.n

*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto