Desde que a coligação israelo-americana declarou guerra ao Irão, há quase sete meses, a 28 de Fevereiro, a primeira medida iraniana foi fechar o Estreito de Ormuz, por onde, até ali, passava 20%, mais de 20 milhões de barris, do petróleo consumido diariamente em todo o mundo.
Além disso, perto de 25% do gás (LNG) queimado diariamente pela economia global, uma parte fulcral de compostos para fertilizantes, alumínio ou o estratégico e insubstituível hélio para a indústria 2.0 dos chips, tinham Ormuz como ponto de passagem do Golfo Pérsico para o Oceano Índico e para o mundo.
Mas o problema da escassez de crude nos mercados foi sendo atenuada porque a Arábia Saudita, o segundo maior produtor, atrás dos EUA, e o maior exportador do mundo, mais de 10 milhões de barris por dia, tem um oleoduto de 1.200 kms que atravessa o país da costa do Golfo Pérsico ao Mar Vermelho, por onde passou a escoar 5 milhões de barris/dia.
E os mercados foram, com a ajuda das declarações estrategicamente definidas para os manipular feitas semanalmente pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o iminente fim da guerra, o recomeço de negociações, a abertura à força do Estreito de Ormuz... evitando o colapso que muitos analistas julgavam ao virar da esquina do tempo.
O facto de as duas guerras em curso no mundo envolvendo grandes produtores/exportadores de crude, no Golfo Pérsico e no leste da Europa, entre russos e ucranianos, terem as refinarias como alvos estratégicos, foi diluindo a capacidade de refinação e com isso a redução da oferta de crude foi sendo minimizada pelos mercados.
Só que, no fim-de-semana passado, o outro conflito, que encaixa no que envolve iranianos e norte-americanos como uma peça de lego na fornalha do Médio Oriente, entre a AnsarAllah (Houthis) do Iémen, apoiados pelo Irão, e as forças estatais suportadas pela Arábia Saudita, veio fazer estalar o equilíbrio gerado pela diminuição da oferta de crude e a redução da capacidade global de refinação.
É que, além dos Houthis terem ripostado de imediato aos ataques sauditas que puseram fim às frágeis tréguas estabelecidas em 2024, depois de uma longa década de guerra em que os Houthis tomaram conta de grande parte do Oeste do Iémen, desta vez estão claramente empenhados em destruir a infra-estrutura energética da Arábia Saudita.
Depois de ataques consecutivos às suas refinarias, algumas entre as maiores do mundo, nomeadamente as de Jizan, Abha e Najaran, sendo que a maior de todas, a de Ras Tanura, ter sido várias vezes alvejadas pelos iranianos, a AnsarAllah-Houthis desferiu o amis rude golpe na capacidade exportadora de crude saudita.
Assim foi ao fazerem ir pelos ares o oleoduto que atravessa o país, denominado "Petroline" ou "Leste-Oeste", em vários pontos, nas últimas semanas, com Riade a restabelecer prontamente o fluxo de petróleo bruto, mas, este fim-de-semana, os rebeldes mudaram de estratégia.
E além de destruírem várias secções do "Peroline", rebentaram também, com mísseis e drones fornecidos pelo Irão, a maior estação de bombeamento desta infra-estrutura com 1.200 kms de extensão, que tem uma complexidade tecnológica excepcional e grandeza que, pela imagens de satélite existentes, permitem aos especialistas prever que as reparações podem demorar no mínimo três meses.
Ora, este cenário, que tem ainda como "bónus" o facto de nada garantir que se o fluxo de crude no "petroline" for restabelecido não será destruído de novo no minuto seguinte, ou, como começa a ser evidente, essas cargas conseguem atravessar o Estreito de Bab al-Mandeb.
Esta passagem marítima entre o Oceano Índico (Ásia, África, Oceânia) e o Mar Vermelho (Canal do Suez, Europa, Américas...), tão estreita como a de Ormuz, mas ainda mais relevante porque responde por quase 15% do comércio mundial, incluindo energia, está agora nas mãos dos Houthis, que nas últimas duas semanas conquistaram pelas armas o resto da orla marítima e ilhas adjacentes do Oeste do Iémen a partir da qual dominam Bab al-Mandeb.
Com este movimento estratégico das forças aliadas do Irão, além da perda do oleoduto que liga os campos petrolíferos do Golfo Pérsico ao Mar vermelho (ver imagem para melhor perceber esta complexa geografia), a Arábia Saudita deixou de poder enviar quase metade da sua produção para os grandes clientes asiáticos, especialmente a China e a Índia, que consomem normalmente 70% a 80% do "light" saudita.
E se o quiserem continuar a vender nesses mercados, depois de restabelecido o fluxo de crude no "Petroline" os sauditas estão, para já, obrigados a fazer os seus petroleiros circum-navegar o continente africano pelo lado ocidental, uma viagem que acresce mais de um mês ao trajecto directo pelo Estreito de Bab al-Mandeb e encarece o preço de venda enormemente.
Todavia, apesar destas evidências, ao que tudo indica, o Presidente norte-americano voltou a conseguir manipular os mercados com uma simples declaração à bordo do seu novo Air Force 1, oferecido pelo Catar, atribuindo a alta dos preços dos combustíveis refinados não à sua guerra no Golfo Pérsico/Península Arábica mas sim ao conflito entre russos e ucranianos.
Isso, alegadamente, na versão claramente sem ligação com a realidade, de Donald Trump que é que o gasóleo subiu mais de 100% nos postos de abastecimento dos EUA e da Europa e mais de 150% na tonelada métrica, unidade formal de negociação nos mercados internacionais, por causa dos ataques ucranianos às refinarias russas... o que levou Moscovo a interromper as suas exportações de refinados do crude.
Alguns analistas como Jeffrey Currie, antigo quadro da Goldman Sachs e consultor de fundos de investimento no sector energético, este cenário traçado por Trump é irreal, pelo simples facto de que a Rússia está longe do topo dos grandes exportadores de refinados, que são a China, a Índia, os EUA ou mesmo Japão e a Coreia do Sul, onde o crude em bruto para ser depurado começa a não chegar...
Este cenário mostra que a convulsão nos mercados do petróleo está apenas a começar e que nos próximos dias ou semanas, como nota Currie, o buraco que cresce diariamente entre a oferta e a procura, os preços que sobem sem travão tanto na matéria-prima, onde, por exemplo, o barril para entrega imediata está já mais de 50% acima dos "futuros", como nos refinados, onde os preços ao consumidor estão muito longe do que é pago na oferta internacional, este "terror" ficará exposto com consequências de difícil antecipação.
Apesar de tudo, com Trump a conseguir uma vez mais diluir a gravidade deste contexto global atribuindo a culpa do aumento dos preços nos postos de abastecimento americanos ao conflito entre russos e ucranianos, o barril de Brent está esta terça-feira, 15, a ser comercializado muito acima dos 100 USD.
Com efeito, perto das 10:00, hora de Luanda, o barril de Brent estava a valer no mercado de futuros 107,4 USD, uma subida de mais de 2,3%, corrigindo em alta as "perdas" do final do dia de ontem, geradas pelas declarações "estratégicas" de Trump.
Angola soma ganhos...
O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 108 USD, no caso do Brent, cerca de 48 USD acima desse valor.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
