Em 2019, as fissuras de um sistema educativo sob pressão ganharam forma nas ruas de Rabat. Milhares de professores saíram à capital com cartazes erguidos e reivindicações por melhores condições salariais, maior estabilidade profissional e contratos mais seguros. As autoridades reagiram com o uso de canhões de água e bastonadas para dispersar os manifestantes, expondo uma ferida que permanecia aberta: a dificuldade de um sistema em responder às próprias fragilidades.

Com o tempo, o eco das ruas perdeu intensidade, mas as rachaduras permaneceram. Quando os docentes são atingidos pela erosão das respostas e pela inoperância das soluções, aquele que deveria ser o principal elo de transmissão do conhecimento arrisca deixar de ser ponte e transformar-se numa barreira no caminho da aprendizagem.

A dimensão da ferida é revelada pelos números. Dados divulgados pelo Ministério da Educação Nacional, Pré-escolar e Desporto de Marrocos apontam para cerca de 280 mil alunos que abandonam anualmente os estudos, uma realidade que atinge com maior intensidade o 1.º Ciclo. Por trás das estatísticas existem percursos interrompidos, famílias confrontadas com limitações económicas e jovens afastados de uma ferramenta essencial para construir o futuro.

Este flagelo não é apenas marroquino. É uma sombra que atravessa fronteiras. O relatório GEM UNESCO/2024 indica que cerca de 251 milhões de crianças e jovens permanecem fora do sistema de ensino em todo o mundo. Em Angola, dados divulgados pelo NJ em 2025 apontavam para quase 4,5 milhões de crianças fora da escola, revelando que a exclusão educativa continua a ser um dos grandes desafios do continente africano.

É perante esta realidade de exclusão e a necessidade de encontrar novas portas de entrada para aqueles que ficaram pelo caminho que Marrocos lançou a "Feuille de route 2022-2026". A estratégia procura reconstruir a relação entre alunos e escola, propondo medidas para recuperar estudantes afastados do sistema e adaptar o ensino às diferentes realidades sociais.

A aposta em modelos de educação alternativa surge, assim, como uma tentativa de impedir que mais crianças desapareçam pelo lado de fora da janela da aprendizagem.

No centro desta transformação estão as PEP (Escolas Pioneiras). Trata-se de uma iniciativa criada para enfrentar a crise educativa e reduzir as desigualdades dentro das salas de aula. O programa arrancou no ano lectivo 2023/2024 em 626 escolas do ensino primário, abrangendo cerca de 322 mil alunos, conforme dados apresentados pela publicação Iniciativa Educação, no artigo: "Como Marrocos melhora a aprendizagem dos alunos: o êxito das Escolas Pioneiras".

A lógica das Escolas Pioneiras parte de uma ideia simples, antes de exigir que todos avancem ao mesmo ritmo, é preciso perceber onde cada aluno realmente está. Desse modo, o modelo recorre à abordagem "Teaching at the Right Level" (ensinar no nível certo), agrupando estudantes de acordo com as suas competências e não apenas pela idade, permitindo recuperar lacunas acumuladas sobretudo em leitura, escrita e matemática.

Esta abordagem aproxima-se da visão defendida pelo pedagogo Jean Piaget, para quem o desenvolvimento do conhecimento resulta da interacção entre o indivíduo e o meio que o envolve. A aprendizagem não acontece isolada do ambiente do aluno; nasce da relação entre desenvolvimento, experiência e construção do saber.

Outra frente da reforma opta pelo ensino explícito com guiões pedagógicos que orientam os professores, estruturam as aulas e tornam mais claro o percurso entre a explicação e a aprendizagem. O professor deixa de caminhar sozinho no labirinto das dificuldades e passa a contar com uma bússola mais definida para conduzir os pupilos.

Os primeiros resultados transformaram a experiência num dos símbolos da reforma educativa marroquina. Avaliações iniciais sobre a experiência apontaram melhorias expressivas, com alguns indicadores de proficiência a subir de cerca de 20% para 80% após a fase intensiva de recuperação.

Mas a estrada ainda é longa. Transformar uma experiência bem-sucedida numa mudança nacional exige formação contínua de professores, recursos e capacidade de manter a qualidade quando o modelo alcançar mais estabelecimentos de ensino. A janela que Marrocos tenta abrir agora dependerá da força das estruturas construídas para resistirem à erosão dos fundamentos.