Por isso, ao receber o convite e sermos indigitados para representar o MPLA numa delegação internacional de gestores e líderes da Comunicação de Partidos Políticos no Mundo numa viagem-estudo pelo interior da China, a tendência foi levar a coisa na desportiva: "nada de novo por aí além, uma viagem turística em jeito de lazer por lugares mais ou menos exóticos". Ainda por cima calharia com as festividades do 103º Aniversário do Partido Comunista Chinês... "é farra, pensei cá com os meus botões". Grande engano!
Parti de Luanda num ensolarado sábado, 28 de Junho. Entre a descolagem no aeroporto de Bom Jesus e a aterragem final em Beijung, foram exactamente 20 horas, com uma escala de 4 horas em Addis Abeba. Uma kunga! Assim que pus os pés fora da manga de desembarque, comecei a perceber porquê para os Chineses somos "cabeça-água": eles são extremamente organizados e eficientes.
Um oficial das forças de segurança abordou-me com a segurança de quem tinha estudado o meu dossier e abordou-me com a economia de palavras de quem nãoperde tempo: "IDCP Angola" - disse num inglês impecável. IDCP é a sigla em inglês do Departamento Internacional do Partido Comunista Chinês, organizador da excursão. Era para conduzir-me pela burocracia de entrada no País que não é, nem curta, nem fácil. Se com ele levei uns bons 20 minutos, imagino quanto tempo levaria sozinho, mais com a enorme fila que aí se encontrava.
Sim, porque, para meu espanto - ou talvez nem tanto - tanto o vôo de Luanda a Addis Abeba como desta para Beijing estavam completamente cheios! Se de Luanda eram os chineses de regresso a casa e as inevitáveis moambeiras angolanas, de Addis o número e nacionalidades dos comerciantes aumentou à escala do continente africano. Uns dos Camarões, outros da RDC, outros do Uganda e Quénia, a China de repente transformou-se no destino onde vão buscar mercadorias a preços acessíveis para revender nos seus países. Mas voltemos à minha viagem.
Terminadas as formalidades fronteiriças, e já incorporado no grupo de alguns membros da delegação que tinham chegado na mesma altura, seguimos de autocarro... para o hotel no aeroporto doméstico para jantar e passar a noite. E assim nós, exaustos pelas longas horas da viagem e zonzos com a diferença de fuso horário - 8 horas adiantados - que pensamos que teríamos um dia para descansar, no dia seguinte às 7 horas apanhámos o avião para a província Ganzhou no Sul da China, a 1749 kilómetros de Beijing.
O Contra-Ataque da China à Propaganda Ocidental
A China embarcou numa campanha de Relações Públicas com o objectivo de mostrar ao Mundo a sua nova realidade. Debaixo do fogo de uma intensa propaganda hostil da parte do Ocidente que a apresenta como um regime retrógrado que nada tem a oferecer aos seus cidadãos, decidiu mostrar os avanços que alcançou
desde 1979 quando, sob a direcção do Presidente Deng Xiaoping decidiu criar o que chamou "uma China, dois sistemas". Ou seja, o capitalismo e socialismo convivendo no sistema de complentariedade de forma simultânea num mesmo país. Então, aproveitando o 105° aniversário e 93° aniversário da Longa Marcha do Exército Vermelho sob o comando de Mao Tsé Tung, o Partido Comunista Chinês - PCC - organizou um programa extensivo de 10 dias de visitas, palestras e seminário de alto nível para uma delegação de profissionais de comunicação social e líderes de opinião de partidos políticos no Mundo. A referida delegação era composta de responsáveis de comunicação partidária, para além do MPLA, do Partido Comunista da Itália, Australia, Partido dos Trabalhadores do Brasil assim como partidos da esquerda do Quénia, Sudão do Sul, Sérvia, Nepal, Alemanha, Egipto, Bahamas, Bahrein, Bangladesh, Campuchea, Equador, Laos, Líbano, Mongólia, Nepal, Panamá, Sri Lanka e Vietname. E eles não perdem tempo com descansos, feriados, fins de semana ou quejandos. Nem lhes passa pela cabeça que as pessoas possam estar cansadas. Há um programa para cumprir e cumpre-se. Ponto.
Foi então assim que nós os 24 membros estrangeiros da delegação internacional chegámos tontos de cansaço e confusos com a diferença de fuso horário, aterrámos às 11H35 do dia 30 de Junho à cidade de Ganzhou. Foi nessa cidade que começou a luta armada do Partido Comunista Chinês, uma jornada épica que percorreu aproximadamente 12.500 kms. Liderada por Mao Tsé Tung, durou cerca de um ano (outubro de 1934 a Outubro de 1935), cruzando 11 províncias, 18 cordilheiras e 24 rios. Após o almoço fomos visitar o antigo Quartel General do Exército Vermelho Chinês, incluindo a cabana ocupada por Mao, os memoriais erigidos noutros lugares e, ao cair da noite tivemos a primeira grande palestra sobre o que foi "a Longa Marcha" e o que ela representa para a República Popular da China na actualidade.
Já no segundo dia tivemos ocasião de entrar em contacto com os avanços económicos e industriais. No distrito de Nankang fomos visitar uma grande fábrica de mobiliário. Três coisas saltaram-nos à vista: a primeira é que a fábrica foi posta aí porque o distrito possui vasta disponibilidade de madeira. Segundo, a maquinaria e equipamento é dos mais modernos, onde a intervenção humana é mínima. Terceiro, toda a maquinaria equipamento e pessoal é inteiramente chinês. E a mão de obre, que é altamente qualificada é composta maioritáriamente por jovens, formados na própria China. Uma amostra viva que o desenvolvimento só acontece quando o capital humano de um país, principalmente o jovem se torna no seu principal protagonista e recebe o investimento adequado em termos de educação.
Maravilhas da IA - Táxis sem condutor
Na manhã do dia 2 de Julho - sem dormir duas vezes num mesmo hotel - viajamos outros 1015 kms para a Província de Guizhou. Nesta provincia levaram-nos a ver 4 sectores: Histórico - fomos ver as cordilheiras onde se desenrolaram os combates mais violentos da Longa Marcha; Tecnológico - visitamos um Centro Tecnológico, andámos em táxis completamente "conduzidos" por IA que andam normalmente pela cidade em estradas normais junto com outros veículos e, "fizemos um passeio" pela Província através de um filme em 3D; e Comunicação Social - visitamos uma estação multimédia (TV, Rádio e Internet)
Três aspectos chamaram a nossa atenção: primeiro, mais uma vez a forma como vão buscar inspiração na sua história e cultura para dar propósito à forma como estão a moldar o país; segundo, o domínio da tecnologia e a forma como a põem ao serviço do desenvolvimento. Estavam na delegação representantes do dito primeiro mundo; Itália,
Austrália, Alemanha. Que estavam tão de boca à banda quanto nós. Imaginem entrar num táxi, digitar o destino e o dito cujo arrancar. Vai no meio dos outros carros, pára nos semáforos, tira o eixo da via, pisca, muda de direcção, mais mais devagar ou mais depressa consoante o trânsito... tudo isso apenas com ajuda de sendores e Inteligência Artificial. Para dizer a verdade, no princípio não queríamos subir. Foi preciso algum convencimento. Mas lá fomos para um passeio de quase meia hora e, no fim, descemos como quem sai de uma igreja depois de uma experiência espiritual profunda.
O terceiro aspecto, tem a ver com o modelo de gestão das empresas públicas, especialmente das empresas públicas de comunicação social e outras. O Estado não paga todas as despesas das empresas, como acontece aqui; paga apenas os grandes investimentos iniciais, como o aluguel do satélite e os equipamentos - topo da gama, diga-se. A empresa tem que gerar lucros para as despesas de operação, incluindo o pessoal e de manutenção e, no fim do exercício económico tem que dar dividendos ao Estado. Se o não fizer, a respectiva direcção sofre as consequências. Na China, o Estado cria empresas para trazerem lucros ao Orçamento Geral do Estado no fim do exercício económico; não para serem o peso para este. Caso isso aconteça, segundo eles, ou mudam a gestão, ou extinguem a empresa.
Combate à Pobreza e Socialismo com Características Chinesas
No dia 6 de Julho pela tardinha, voámos mais 1759 Kms para a Província de Ningxía para a terceira e última etapa da digressão. Nesta Província visitámos o local onde terminou a Longa Marcha - símbolo da vitória do Partido Comunista Chinês - puseram-nos em contacto com cooperativas agrícolas no âmbito do Programa de Combate à Pobreza e nos juntámos a outras delegações internacionais para o Seminário Internacional "O Pensamento de Xi Jimping Sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era no Mundo".
Sobre os programas de Combate à Pobreza, basta dizer que retiraram 800 milhões de pessoas da pobreza desde 2019. Ele tem a característica de estar muito centrada nas próprias pessoas - dali um grande investimento na Educação e Saúde - como procura respeitar e preservar as características culturais das populações. Isso faz toda a diferença na adopção e apropriação das soluções técnicas e tecnológicas oferecidas para o seu desenvolvimento. E, finalmente, pudémos ver que a extensão rural ali funciona à sério. Cada cooperativa tem um grupo de técnicos extensionistas que a acompanha e assegura que os camponeses mani-pulem correctamente os materiais, sementes e outros imputs postos à sua disposição.
Tudo isso acabou depois discutido e reflectido no Seminário Internacional realizado no último dia. Pelo que pudemos apreender, o pensamento de Xi Jimping, na continuação de "Uma China, Dois Sistemas" de Deng Xiaoping resume-se no seguinte: um capitalismo que produz produtos acabados de alta qualidade que, vendidos, asseguram o sonho socialista de uma riqueza nacional redistribuida por todos os cidadãos do país. E venhamos e convenhamos que é uma proposta de modelo de desenvolvimento que responde a muitos dos dilemas dos países do chamado Sul Global.
Num contexto em que, o neoliberalismo parece apenas reinventar a secular exploração dos recursos minerais dos países ditos em desenvolvimento numa equação em que estes ficam cada vez mais pobres em contraste com os países do Ocidente que ficam cada vez mais ricos, aparece a China a oferecer um caminho alternativo. E para isso mostra o que fez no próprio país que, há 50 anos estava nas mesmas condições.
É uma alternativa que atrai cada vez mais países do Sul Global. Não admira por isso que o Ocidente com Trump à cabeça andem tão fitucados com a China....
Sociólogo da Comunicação*
