O que vem acontecendo, nas circunstâncias difíceis que Angola disponibiliza para os profissionais e amadores do mundo do Jazz, permite-me orgulhosamente mencionar alguns nomes. Desde logo, o membro mais activo e o maior estilista da sua geração: o pianista Dimbo Makiesse, incansável e ousado produtor de eventos; os instrumentistas Nino Jazz (piano e teclados) e o notável guitarrista de Jazz, Mário Gomes. Em bateria, tenho grande predilecção por Jackson Nsaka e o "swingão", que segura o Semba, Marito Furtado. Mas há mais: Jairo Oceano, Kark Sumba, Nel Jazz, Paulo Jazz e o talentoso Carlos Praia. E a voz do nosso "Ray Charles", o inovador e original Jay Lorenzo.
Ocorre, entre nós, o que se passa um pouco por toda a parte: se, por um lado, os homens dominam os instrumentos, as Senhoras vingaram-se, e ocupam o trono da Voz: Bevy Jackson, criou o projecto "Cascata Gin & Jazz", que acontece semanalmente numa unidade hoteleira situada no Morro Bento. A Afrikkanitha, depois de algum silêncio, reapareceu em grande forma, em variados clubes luandenses. E está com grande pedalada. E existe um projecto feminino: "4 tons de Jazz", com Afrikkanitha e Bevy Jackson, Evanice e Kaddesh. E também a encantadora performer/ cantora Anabela Aya.
O universo do meu conhecimento da actividade local não almeja o contexto total, mas a presente realidade obriga-me a não desistir dos meus sonhos.

De New Orleans ao património da Humanidade


Uma viagem pelas origens, pelos mestres e pela eterna arte da improvisação, eis aqui o primeiro passo.
Há músicas que nasceram para entreter. Outras para acompanhar os rituais da vida. Mas poucas tiveram a força transformadora do Jazz. Nascido entre a dor e a esperança, entre a segregação e o sonho da liberdade, o Jazz tornou-se uma das maiores conquistas culturais da Humanidade. Mais do que um género musical, é uma forma de pensar, de sentir e de dialogar. É, talvez, a expressão artística que melhor simboliza a liberdade criativa.
O Jazz perdurou- e perpetua-se- progredindo para um estatuto de enormíssima dignidade, apesar dos sistemas repressivos sobre ele terem recaído.
Durante mais de um século, o Jazz percorreu um caminho extraordinário: saiu das ruas pobres de New Orleans para conquistar as grandes salas de concerto, as universidades, os festivais internacionais, as avenidas amplas da actualidade, as editoras respeitáveis e o respeito da cultura erudita. Hoje pertence ao património espiritual do mundo.
A sua história começa no final do século XIX, numa cidade única: New Orleans. Ali cruzavam-se culturas africanas, europeias, caribenhas e latino-americanas. Na menos americana das cidades dos "States", Nawlins ou "The Big Easy", como também é conhecida, a "mistura" foi, desde sempre, a alma da velha cidade: europeus pobres, muitos presos por dívidas, que a troco de terra e alojamento, deixaram os seus países para construírem "La Nouvelle Orléans"; africanos escravizados que produziram açúcar e algodão, nas grandes plantações agrícolas. Os antigos espirituais negros, o blues, o ragtime, as marchas militares, os hinos religiosos e as danças populares misturaram-se de forma espontânea. O resultado foi uma linguagem musical completamente nova.
Desde o início, o Jazz recusou a rigidez, o seu aprisionamento em esquadrias inflexíveis. Enquanto a música clássica privilegiava a fidelidade absoluta à partitura, o Jazz colocou o improviso no centro da criação. Cada interpretação passou a ser única. Cada músico podia contar a sua própria história através do instrumento.
Daniel Louis Armstrong "Satchamo" foi o primeiro grande génio desta nova linguagem. Com o seu trompete luminoso e um sentido rítmico revolucionário, transformou definitivamente o papel do solista. Depois dele, o Jazz deixava de ser apenas música colectiva para afirmar a personalidade criativa de cada intérprete. É a Armstrong que se deve o surgimento do papel do "solista". Satchamo é o grande "clássico" do Jazz. E um grande cantor.
Nas décadas de 1930 e 1940 surgiu a era do Swing. As grandes orquestras de Duke Ellington, Count Basie, Benny Goodman, Jimmie Lunceford e tantas outras encheram salões de dança e emissões radiofónicas. Foi uma época de enorme popularidade, mas também de extraordinária qualidade artística. Duke Ellington (1899- 1974) elevou o Jazz a um nível composicional que o aproximou das grandes tradições da música universal. "Há dois nomes que simbolizam, mesmo fora do ciclo dos hot fans, a música negro-americana: Louis Armstrong e Duke Ellington", destaca o notável especialista- com colossal obra publicada, Lucien Malson (In: Os Mestres do Jazz, Arcádia, Lisboa, 1968).
Ao longo deste percurso brilhante, o Jazz conheceu também tragédias humanas que marcaram profundamente a sua memória colectiva.
A cantora Billie Holiday (1915- 1959) transformou a dor em beleza como poucas artistas na história da música. A sua voz, aparentemente frágil, possuía uma intensidade emocional irrepetível. Enfrentou o racismo, a violência, as dependências e uma perseguição institucional que agravou os seus últimos anos. Morreu em 1959, aos apenas quarenta e quatro anos, deixando uma herança artística que continua a emocionar sucessivas gerações.

Palavras para Billie Holiday:
"Sempre que ia ver a Billie pedia-lhe que cantasse "I love you Porgy", porque quando ela cantasse" don"t let me touch me with this hot hands" (não me deixes tocar-me com estas mãos quentes) quase podia sentir o que ela sentia. E o modo como cantava era belo e triste."
Miles Davis, trompetista, compositor, band leader, pintor.
"Billie fazia com que sentíssemos o que ela sentia. E isso poucas cantoras conseguem fazer."

Shirley Horn, cantora e pianista
Palavras de Billie Holiday
"Fiquei tão cansada de cenas em esquálidos restaurantes de beira de estrada que costumava simplesmente permanecer no autocarro sentada...esperando que trouxessem alguma coisa num saco de papel. Em alguns lugares, nem mesmo me deixavam comer na cozinha. Às vezes, a questão resumia-se entre eu comer e a banda inteira passar fome. Cansei-me de leis federais sobre o pequeno-almoço e o jantar...mas o pior de tudo era uma simplicíssima coisa de encontrar um lugar para ir ao sanitário."
(As várias dezenas de citações de e sobre Billie, aqui reduzidas por questões de espaço, foram obtidas no livro With Billie: A New Look at the Unforgettable Lady Day, escrito por Julia Blackburn, foi publicado originalmente pelas editoras Vintage Publishing e Pantheon / Random House.)