A guerra está instalada como um vírus no "software" mental dos decisores políticos e militares dos Estados Unidos e do Irão e a sua remoção, para já, surge como impossível, com mísseis e drones a voarem em crescendo sobre o Golfo Pérsico.

Como foco central deste regresso da guerra americo-iraniana está, claramente, apesar de o Presidente norte-americano repetir que é para evitar que o Irão obtenha armas nucleares, o trânsito marítimo pelo Estreito de Ormuz.

Teerão e Washington acusam-se mutuamente de subversão do que está no Memorando de Entendimento (MdE) assinado em Junho depois de várias semanas de cessar-fogo acordado em Abril, mas o que interessa, sem margem para dúvidas, é o petróleo e gás que passa diariamente por aquele minúsculo canal marítimo.

Cerca de 20% do crude e do gás consumidos no mundo passam por ali, oriundos dos países do Golfo Pérsico, especialmente da Arábia Saudita, Catar, Emiratos, Kuwait, Iraque e Irão, e com Ormuz fechado pelo Irão, é a economia global onde os efeitos deste regresso da guerra mais se sentem.

E é precisamente isso que Donald Trump quer evitar que se prolongue, porque, com o aproximar das eleições intercalares de Novembro, onde as sondagens indicam que deverá perder a maioria no Congresso se a inflação e o preço dos combustíveis continuar a subir a cada dia que passa de Estreito fechado em Ormuz.

Para trás fica já a questão de quem começou esta nova ronda de ataques, embora o MdE seja claro ao indicar, nos pontos 4º e 5º, que compete ao Irão gerir o Estreito de Ormuz, para já nos 60 dias de vigência prevista no documento que deveria desaguar num acordo de paz alargado.

Os ataques do Irão foram reiniciados há cerca de 10 dias depois de os EUA terem tentado impor uma rota alternativa de passagem por Ormuz, fora do controlo iraniano, desafiando o que estava previsto no Memorando de Entendimento.

Mas, em pano de fundo, para se manter o foco no essencial, está o facto desta guerra ter sido começada pelo ataque israelo-americano de 28 de Fevereiro deste ano onde foi morto o Líder Supremo do Irão, aiatola Ali Khamenei, e perto de 40 figuras de proa do regime, entre militares e políticos.

Ataque esse que, tal como já tinha sucedido em Junho de 2025, ocorreu quando EUA e Irão mantinham negociações oficiais e calendarizadas para chegar a um entendimento que evitasse o conflito armado.

Isso foi o que levou agora o novo Líder Supremo do Irão, aiatola Mojtaba Khamenei, que sucedeu ao pai, a vir a público, numa das suas raras intervenções deste que foi eleito, logo a seguir à morte do pai, dizer que "a palavra de Donald Trump não tem valor, não significa nada", acrescentando que "os EUA não são confiáveis enquanto negociadores".

É neste cenário que os dois países estão, em crescendo, noite após noite, a lançar ataques sobre posições de um e do outro lado do Golfo Pérsico, com os EUA a visarem claramente a infra-estrutura civil iraniana, desde pontes rodoviárias, portos marítimos, centrais de dessalinização e, pela primeira vez, a central nuclear de Darkhovin, na província de Khuzestan.

Este ataque está a ser visto pelo Irão, de acordo com um comunicado do Corpo da Guarda Revolucionária (IRGC), a unidade de comando superior militar do país, como uma "escalada sem precedentes" neste retomar das hostilidades.

E as autoridades que respondem pelo programa nuclear civil do Irão reportaram nas últimas horas uma fuga de radioactividade nesta central à Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), permanecendo por saber qual a reacção desta organização das Nações Unidas para o sector nuclear civil.

Embora tenha vindo a repetir a ameaça de que vai passar a alvejar igualmente as infra-estruturas civis dos países do Golfo aliados com bases americanas usadas para atacar o Irão, os misseis e drones iranianos, para já, estão focados na vasta presença militar norte-americana no Kuwait, Catar, Emiratos Árabes Unidos, Jordânia e Bahrein.

O facto de o Irão estar, por ora, a manter a Arábia Saudita fora do mapa dos alvos visados significa, segundo vários analistas, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de vários livros sobre conflitos no Médio Oriente, que Teerão não está ainda em fase de guerra aberta.

E mantém um canal fluído para a diplomacia onde conta com os ofícios dos sauditas nessa frente, além do Paquistão, país que tem desempenhado com maior afinco esse papel de mediador entre Washington e Teerão, sendo a Arábia Saudita o mais forte militarmente país da região entre os aliados dos EUA no Golfo.

Embora o crescendo da intensidade e regularidade dos ataques mútuos seja evidente, o Irão, além da Arábia Saudita, em geral, também mantém Israel foram dos alvos dos seus misseis e drones, sinalizando também assim a sua disponibilidade para negociar apesar da desconfiança evidente na palavra e na assinatura de Donald Trump.

Mesmo que nas últimas horas, mostrando algum receio de que a situação possa evoluir desfavoravelmente aos interesses estratégicos dos EUA, ou políticos de Donald Trump e do seu Partido Republicano, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tenha vindo afirmar que Washington está disponível para passar, novamente, do campo de batalha para a mesa das negociações.

Mas isso não significa que em Teerão se estejam a poupar misseis e drones, porque as bases dos EUA nos restantes países do Golfo e na Jordânia estão há quase dez dias a ser flageladas com especial intensidade repetitiva, aumentando não apenas a tensão mas o pânico global devido ao efeito que isso está a ter nos mercados energéticos.

E isso é evidente nos gráficos dos mercados petrolíferos, onde o barril, tanto o Brent, em Londres, como o WTI, em Nova Iorque, estão esta segunda-feira, 20, a subir de forma impetuosa para a fasquia dos 90 USD, onde esteve por momentos logo na abertura, tendo depois estacionado nos 89 USD.

E o risco de novas subidas é mais que uma possibilidade, porque, para já, não há sinais nem em Washington nem em Teerão de que uma descida da "temperatura" esteja iminente.

Até porque o Irão, como explicou na Al Jazeera o especialista em defesa e estratégia Wolfgang Pusztai, possui um abundante stock de misseis e drones que lhe permite manter os ataques por um longo período, mesmo que seja igualmente verdade que os misseis norte-americanos tenham vindo a degredar essa mesma capacidade iraniana.

Este esclarecimento é relevante porque ao Irão basta manter o Estreito de Ormuz apertado de tal forma pela ameaça de ataques sobre os navios em trânsito que as companhias de seguros, como apontou ainda Wolfgang Pusztai, recusem segurar as embarcações.

O que faz com que o petróleo e o gás, mas também compostos insubstituíveis para fertilizantes, alumínio e o estratégico hélio, para a indústria 2.0 dos microchips, fiquem "engarrafados" no Golfo Pérsico, gerando uma crise em construção na economia global que pode desembocar numa recessão planetária como há muito não se vê.

É que o Irão, além de Ormuz, possui uma capacidade extraordinária de agrilhoar a economia mundial se avançar para o fecho, através das mesmas ferramentas, do Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho e o Oceano Índico.

É que, com isso, se esse cenário se tornar realidade, também o acesso ao Canal do Suez ficará cortado, obrigando as embarcações comerciais a contornar África, inflacionando a economia global e, ainda mais relevante, o crude que os sauditas conseguem exportar através do oleoduto que chega ao porto de Yanbu, localizado na costa do Mar Vermelho será inutilizado em grande medida, visto que esse petróleo tem quase em exclusivo como destino a Ásia.

Entretanto, face à evidente capacidade de resistência iraniana, que tanto agora como na guerra de quase 60 dias começada em Fevereiro pela coligação israelo-americana, se mostra ainda mais resoluta, alguns analistas e media norte-americanos começam a admitir como plausível a orquestração em Washington de uma invasão terrestre.

Mesmo que para tal fosse necessário aumentar muito a presença de unidades militares na região, a possibilidade mantém-se, incluindo, embora mais remotamente, com a cooperação dos países árabes do Golfo.

Há, contudo, sinais de alguma desagregação entre o comando militar norte-americano, CentCom, que gere este conflito, visto que, como notaram alguns antigos generais norte-americanos, agora na condição de analistas militares, num recente comunicado é dito, como não acontece por norma, que as acções em curso são resultado de uma ordem directa do Presidente Donald Trump.

Ora, isto é importante, porque isso pode muito bem significar que os comandantes militares do topo da hierarquia operacional estão a dar um sinal de que estão a cumprir ordens com as quais não estarão, pelo menos, 100% de acordo.

Se este tipo de sinais continuarem a ser emitidos pela estrutura militar que conduz esta guerra, tal significará que a Casa Branca poderá embater em dificuldades acrescidas para, no mínimo, avançar para uma invasão terrestre, estando obrigada a manter a guerra num plano "aéreo".

O que pode ser um problema maior porque, como nota amiúde, entre outros analistas, o antigo conselheiro militar da primeira Administração Trump, coronel Douglas MacGregor, os stocks de misseis dos EUA estão em mínimos históricos e este tipo de volume nos ataques estará comprometido em apenas alguns dias.

E já hoje, segunda-feira, 20, The Washington Post noticia que Donald Trump está lançado na preparação de uma guerra aberta e sem tréguas com o Irão, por um longo período de tempo, embora o mesmo jornal note que alguns oficiais apontam fragilidades nesse plano resultantes da escassez de armas ofensivas e defensivas nos arsenais norte-americanos.