Desde que foi detectado o primeiro caso, na periferia de Bunia, a capital da província de Ituri, no leste da RDC, o vírus, desta que é a mais letal das febres hemorrágicas conhecidas, já chegou ao Uganda, com dezenas de casos, e as províncias dos Kivu Norte e Sul.

Além disso, o que justifica a chamada de atenção da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o facto de nenhuma das 16 epidemias que antecederam a actual ter mostrado uma capacidade como esta de se expandir, os restantes países vizinhos da RDC estão sob forte tensão devido à ameaça de as suas fronteiras sanitárias serem trespassadas.

Países esses, onde está incluída Angola, já montaram esquemas de controlo sanitário nas suas fronteiras, e, por exemplo, nas angolanas, incluindo no Aeroporto de Luanda, AIAAN, foi igualmente montado um sistema de medição de temperatura em tudo semelhante ao que existiu durante a pandemia da Covid-19.

Entretanto, países como os EUA e o Canadá, e alguns europeus, já criaram regras restritivas de acesso a pessoas que tenham estado na RDC nos últimos 21 dias, duração da incubação da infecção, com centros de quarentena no exterior para os seus cidadãos nacionais, como fizeram os Estados Unidos no Quénia para quem tenha estado no Congo.

É que a alarmante velocidade de propagação deste vírus, que resulta muito do facto de esta estirpe, Bundibugyo, ao contrária das restantes, mais comuns e conhecidas da ciência, não ter ainda nem vacina nem tratamento conhecidos, exige, segundo as organizações internacionais, um controlo mais férreo da sua evolução.

Na memória colectiva está ainda o que sucedei na África Ocidental entre 2013 e 2015, quando morreram mais de 11 mil pessoas e milhares ficaram infectadas, provocando a deslocação de centenas de milhares de pessoas das suas aldeias, com consequências sociais e económicas avassaladoras que só anos depois foram diluídas, parcialmente.

É a possibilidade da repetição desse cenário que está a assustar a OMS, mas também o CDC-África, o centro de controlo de doenças infecciosas da União Africana, e que está a gerar esforços suplementares para encontrar forma de confinar o vírus aos locais onde já chegou.

Além da ausência de uma vacina, ou de tratamento eficaz, como sucede com as restantes estirpes deste vírus mortal em 40% dos casos, está a contribuir para a dificuldade de o controlar a crendice popular que afasta os pacientes dos centros médicos criados para lidar com a doença.

Uma das dificuldades maiores das equipas médicas é o continuado problema da pressão dos denominados médicos tradicionais e feiticeiros para que os doentes evitem os hospitais oficiais e procurem soluções nas fórmulas tradicionais, o que está não apenas a aumentar a letalidade da doença como a contribuir grandemente para o seu alastramento geográfico.

É que parte destas crenças implicam que os pacientes, com sintomas de doença, se desloquem para as suas terras de origem em busca de tratamento tradicional, contribuindo para que o vírus se espalhe de forma dramática, como reconhece a OMS.

Por isso, com apoio internacional, as autoridades congolesas, que estão a realocar fundos públicos como em nenhuma outra ocasião, desenvolveram campanha de sensibilização para evitar episódios, que tendem a repetir-se, de assalto de grupos aos centros de confinamento para levarem familiares e amigos a serem tratados por médicos tradicionais e curandeiros.

Para já, nesta que é a mais veloz epidemia desde que o vírus chegou aos humanos, em 1976, na província congolesa do Equador, no oeste da RDC, estão oficialmente registados, desde que foi detectado o primeiro caso, em Maio, até esta segunda-feira, 20 de Junho, 930 mortos e quase 2350 casos com confirmação laboratorial.

Porém, estes números não fazem jus à realidade, visto que muitas das vítimas falecem longe dos cuidados oficiais, o que leva a outro problema grave, que é o facto de a tradição "obrigar" familiares e amigos a tocar no corpo para as últimas despedidas dos falecidos, abreviando a expansão do vírus que tem nos fluídos corporais a sua forma de infectar novas vítimas.

Para agravar o receio de avanços geográficos da infecção, só nas últimas 24 horas o Ministério da Saúda de RDC registou 37 mortos e dezenas de casos acrescentados à lista de possíveis novas mortes, que são entre 30% e 40%.