Este momento, que pode marcar um antes e um depois no relacionamento entre Washington e Kiev, chegou a este ponto de efervescência com o corte no fornecimento de informações recolhidas pelas redes de satélites Starlink, privada, e Starshield, militar, sobre os mísseis e drones lançados sobre a Ucrânia pelos russos, até aqui fornecidos pelos norte-americanos.

Ao que parece, algo mudou radicalmente na forma como EUA e Ucrânia se relacionam quando, há cerca de uma semana, Donald Trump anunciou um negócio com Vladimir Putin de fornecimento de gasóleo russo aos EUA, envolvendo 300 mil toneladas deste combustível.

Volodymyr Zelensky não gostou, chamou mesmo "fraco" ao Presidente norte-americano, optando por várias entrevistas e declarações públicas onde teceu as mais duras críticas de sempre a Donald Trump, a ponto deste ter vindo responder afirmando que "é tempo de a Ucrânia ter outro Presidente".

Mas algo de ainda mais estranho ocorreu. Elon Musk, o dono da Starlink, a rede de satélites global que tem servido para as forças militares ucranianas se organizarem no confronto com os russos, veio dizer estar de acordo com Trump quanto ao negócio com Putin.

Esta reacção do trilionário dono ainda da SpaceX e da Tesla é fundamental para se perceber este momento histórico de eventual corte, ou profunda deterioração, de relações entre Washington e Kiev, porque apenas quatro dias depois, também ele está a ser acusado por Zelensky de contribuir para a morte de ucranianos ao "apagar" o sinal da Starlink.

Embora esta seja uma daquelas circunstâncias em que se aplica a máxima de que a verdade é a primeira vítima de um conflito, aparentemente Elon Musk poucio terá contribuído para o colapso da informação estratégica sobre os ataques russos contra Kiev.

Alega Musk que a "Starlink" não é responsável por isso, nem o seu sinal para Kiev foi desligado, o que, ao que tudo indica, é uma meia-verdade apenas, porque a velocidade da transmissão de dados caiu abruptamente, o que acaba por resultar no mesmo.

Porém, a informação a que se refere Volodymyr Zelensky, sobre a antecipação da chegada dos mísseis balísticos russos, que só pode ser fornecida pelos EUA, estando fora do alcance dos aliados europeus de Kiev, é fornecida pelo sistema "Starshield", que é a rede global de satélites militares norte-americana.

E foi, alegadamente a informação recolhida por esta rede, fundamental em toda a intelligentsia norte-americana, que deixou de ser facultada a Kiev, resultado isso no facto de nos últimos dias os mísseis russos estarem a chegar aos alvos na Ucrânia sem pré-aviso.

Isso não apenas dificultou a defesa dos alvos atingidos, especialmente os energéticos e de comunicações de dados, incluindo internet, como não permitiu os avisos atempados à população para procurar abrigo nos locais apropriados, como a rede de metro.

E o que altera tudo é que desligar o sinal da "Starshield", ou "Escudo das estrelas", em português, não é competência de Elon Musk, isso só pode ser feito com ordem do Presidente Donald Trump e as chefias militares e da CIA envolvidas.

A reacção do Presidente ucraniano não se ficou por acusar Trump de ser fraco e de o ter traído, passa ainda por anunciar que Kiev vai retomar os ataques às refinarias russas, o que afectará directamente a capacidade russa de fornecer o gasóleo prometido por Putin "amigo" ao norte-americano, contrariando um pedido directo da Casa Branca nesse sentido.

É que Donald Trump e o seu Partido Republicano precidsam de combustíveis baratos para melhor as péssimas sondagens que têm para as eleições intercalares de 03 de Novembro, onde, sem isso, têm garantida a perda da maioria no Congresso (ver links em baixo), abrindo a porta para uma sucessão de processos de destituição (impeachment), como a oposição Democrata já anunciou.

Alguns analistas, como Douglas MacGregor, antigo coronel norte-americano e conselheiro de Defesa na primeira Administração Trump, admitem que se trata de um golpe duro na capacidade militar ucraniana, mas tal como outros especialistas militares, admite que se possa tratar de um primeiro "aviso" a Zelensky para este mudar de atitude.

Em síntese, uma operação de pressão para que Volodymyr Zelensky aceite melhor as recomendações da Casa Branca para ser mais flexível na busca de um acordo de paz com Moscovo, o que o obrigaria a aceitar as condições do Kremlin, e realizar eleições no curto prazo, como Trump já lhe veio exigir publicamente, não necessariamente por esta ordem.

E é neste contexto de clara ruptura com Trump que Zelensky veio dizer, como cita o britânico The Guardian, "pessoalmente traído" pelo norte-americano, tanto pelo negócio do gasóleo como do corte de acesso à informação dos satélites da Starlink e ou da Starshield.

Além de se tratar de reveses duros para a Ucrânia, alguns analistas, incluindo aqueles reconhecidamente pró-Ucrânia, ainda mais importante que as consequências destes dois passos dados por Trump em direcção a Moscovo, está o que isso pode significar no relacionamento de longo prazo entre Washington e Kiev ou mesmo com os seus aliados europeus.

E não é para menos, porque em cima da mesa estão várias possibilidades e Zelensky pode ser a vítima em todas elas, porque sem as informações e o apoio político-diplomático dos EUA, a Ucrânia perde robustez no confronto com a Rússia, e a NATO europeia sem os Estados Unidos é um "falcão sem asas".

Para já, os países europeus, especialmente o Reino Unido, a Alemanha e a França, já vieram não apenas criticar Trump como reafirmar o apoio incondicional a Zelensky, mas se os EUA, como sublinha o major-general Agostinho Costa, decidirem pressionar os europeus, estes cedem porque se trata de tigres de papel e é Kiev que acabará no chão.

E para piorar este cenário, como relata The Guardian, numa visita a Londres, Volodymyr Zelensky afirmou sem titubear que "Donald Trumpo escolheu o outro lado" ao fim de quatro anos com os EUA do lado certo da história.

Neste seguimento, e numa entrevista ao podcast de Piers Morgan, um mundialmente conhecido jornalista e analista, claramente alinhado com Kiev, Zelensky afirmou que o que Trump está a fazer é a "saltar para o lado errado da história" lamentando estar a "perder um aliado muito importante".

Tal como a generalidade dos seus homólogos europeus, Andy Burham, o primeiro-ministro britânico, apesar desta guerra ser uma das, senão a principal, razões para o descalabro económico de toda a Europa ocidental, persiste na caminhada para o abismo com o ucraniano ao lado, como tem sido dito pela oposição em França, na Alemanha e no Reino Unido.

Alias, em França, Marine Le Pen, presidente do partido Reunião Nacional, que as sondagens apontam como quase inevitável futura Presidente, ou Alice Weidel, líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), igualmente, segundo as sondagens, a caminho do poder, tal como Nigel Farage, à frente do partido Reforma do Reino Unido, todos apontam como sendo necessário acabar com o apoio a Kiev imediatamente, embora em graus distintos.

Uma das razões para este realinhamento à direita do espectro político na Europa é resultado da chegada ao poder de Donald Trump, que tem sido prolífico no apoio a estas lideranças mais radicais e mais próximas de um reatamento, como ele, das relações com Moscovo devido á urgência do regresso da energia russa, gás e crude, barata à Europa Ocidental.

Alguns analistas admitem como muito escorregadio o piso em que se move agora Zelensky, mas, considerando a velocidade média com que em Washington Trump muda de lado, se há algo de claro é que o futuro para a Europa Ocidental é muito sombrio, e isso será decisivo para o futuro do conflito na Ucrânia.