Embora o fim da colonização tenha interrompido o processo de ocupação do nosso território, a geoestratégia fez com que surgisse a irrupção de uma violenta e generalizada guerra fratricida que acabou por beneficiar, em grande medida, os interesses expansionistas dos protagonistas da guerra fria e prejudicar, gravemente, a economia de uma Angola independente.
Volvidos mais de 46 anos desde o dia da independência, notamos, claramente, que o período pós-colonial resultou, sim, no fim do domínio político e jurídico que Portugal tinha sobre uma sociedade angolana subjugada, mas não interrompeu necessariamente as relações económicas de dependência, nem evitou que parte das riquezas nacionais continuassem ao serviço de interesses e necessidades económicas de outros países, como ocorria durante o passado colonial.
Terá sido esta a razão da nossa luta pela independência? Certamente que não! Também, do ponto de vista do tão propalado desenvolvimento humano, justo e harmonioso, temos de admitir que a Angola independente não conseguiu, ainda, assegurar a institucionalização de novas estruturas económicas, sociais e políticas capazes de eliminar as desigualdades de oportunidades, a que ainda hoje assistimos na nossa sociedade. Neste quesito, em muitos aspectos, a Angola dos nossos dias muito se parece à Angola colonial.
E mesmo que se faça menção de que na Angola do passado, enquanto colónia, as autoridades coloniais controlavam política, económica e militarmente o território, e os colonos europeus que aqui se estabeleceram gozavam de privilégios sociais e económicos, mesmo sendo uma minoria - privilégios e oportunidades essas que eram negados a maior parte das populações indígenas -, em relação à Angola actual, onde o controlo político, económico e militar do território é feito pelas autoridades angolanas, temos de aceitar que os privilégios e oportunidades económicas não são e nem nunca foram iguais para todos.
Podemos, também, fazer uma distinção entre a gestão directa da nossa economia, exercida pelas elites e burocracias da metrópole, e a gestão "indirecta", exercida pelas instituições e elites nacionais surgidas do pós-independência, como, teoricamente, representantes do povo. Na verdade, as elites surgidas do pós-independência sofriam grandes influências e até pressões externas que acabaram, muitas vezes, por ditar o modelo económico a ser seguido pelo País. E se tivermos em conta que um dos principais objectivos do colonialismo era proporcionar às potências - sobretudo ocidentais - e a Portugal um abastecimento seguro de matérias-primas para a sua indústria em expansão e mercados cativos para as suas exportações; depois da independência, há quem afirme que, de certa maneira, Angola continuou vítima de um certo controlo político externo, articulado de diferentes fórmulas ideológicas, tais como o internacionalismo, a cooperação entre os povos, a assistência técnica, o neoliberalismo, o qual, apesar de parecer nobre, continuava baseado na crença da inferioridade dos sistemas produtivos, sociais e culturais tradicionalmente angolanos.
Para os mais saudosistas, nem tudo foi tão mau assim, há quem acredite que o colonialismo representou um impulso benigno, que promoveu a modernização económica e o progresso social, criou instituições e infra-estruturas económicas que funcionavam, garantiu o direito e a propriedade privada e tantas outras coisas que foram destruídas ou não funcionaram tão bem depois da independência. A questão que se levanta é a seguinte: quem eram os destinatários deste suposto impulso benigno?
Eu não tenho quaisquer dúvidas de que ser independente é muito melhor do que ser colonizado, até porque é bem sabido que o processo de colonização foi realizado com uma combinação de estímulo económico, coerção e violência. Os poderes colonizadores expropriaram as melhores terras e, em muitos casos, contaram com a colaboração de alguns chefes locais, que foram assim reforçados no seu poder, o que alterou a legitimidade da sua autoridade. Pena mesmo é que situações como estas ainda ocorrem e nada pode justificar tal facto, numa Angola independente.
A fim de melhor nos dominarem, os colonizadores encorajaram o confronto entre os grupos étnicos existentes. Depois de independentes, as potências da guerra fria encorajaram uma guerra fratricida entre irmãos, que perspectivavam diferentes sistemas políticos e económicos para o País. A situação não foi a mesma?