Publiquei neste espaço, a 20 de Outubro de 2024, um texto sobre a minha experiência como pequeno produtor agro-pecuário (faço agricultura e crio animais de pequeno porte). Nesse artigo descrevi a história da minha criação, explicando que, mesmo vivendo em apartamentos e sem espaço para cultivar, cheguei a cultivar tomateiros em vasos. Quando tive oportunidade de ter espaços agricultáveis, fiz aproveitamentos, o que me permite auxiliar o abastecimento alimentar da minha casa. Quer o espaço que citei no Lubango, quer o da Catumbela, hoje complementam o meu rendimento e são fonte segura de abastecimento para a minha casa, contribuindo igualmente para a poupança, pois deixo de gastar com a compra de grande parte dos produtos que cultivo. Há mais de 3 anos que não compro, por exemplo, feijão, milho, mandioca, hortícolas (repolho, quiabos, rama, batata-doce, beringela, tomate, alface, cenoura, etc.) até ovos e frango temos uma pequena produção, temos cana-de-açúcar todo o ano. Adicionalmente, a partir do pequeno pomar que tenho no Lubango, tiro limão para o consumo e também para venda (desde Outubro do ano passado já colhi mais de 800 kg de limão), temos produzido, igualmente, laranja, tangerina, que ainda estão limitadas ao consumo doméstico. Na Catumbela colhemos ainda mamão e manga, plantadas há pouco mais de 2 anos.
As pessoas que mantêm a nossa horta, detêm pequenos espaços adjacentes ao nosso, onde cultivam uma variedade de produtos, tais como batata-doce, mandioca, milho, feijão, cana-de-açúcar, couves, repolho. São espaços pequenos, mas as pessoas aprenderam a gerir, de tal sorte que, elas têm aproveitamentos que, até, me espanta! A Dona Domingas Fátima, o Paulino Sachilombo e o Mendes Júlio, que são os que mais acompanho, porque são os que nos ajudam na nossa horta (os dois são regadores e a outra cuida das hortícolas), no seu pequeno espaço, tiram o sustento para as suas casas. A Dona Domingas é, certamente, uma pessoa pobre, na perspectiva de que não possui bens de que dispõem muitos membros da sociedade. Mas, não passa fome, pois da sua pequena lavra tira uma diversidade de produtos alimentares, que uma parte vende para comprar o que ela não produz. Esta Senhora é um exemplo de esplendor da honestidade e de gratidão. Por vezes, vende produtos da nossa horta, apresenta os valores de forma integral. É excepcionalmente assídua, de Segunda-feira a Sábado, a Dona Domingas, está no seu posto de trabalho, ou trabalhando na nossa horta, ou na sua própria. A verdade é que, segundo as suas próprias palavras, foi Deus que nos colocou na sua vida. Pois, nos seus dizeres, a sua relação connosco, melhorou substancialmente a sua vida.
Infelizmente, hoje pessoas como a Dona Domingas Fátima, o Paulino Sachilombo e o Mendes Júlio são uma raridade. A maioria prefere deambular pelas praças, andando de um lado para o outro, sem nada fazer. Outros chegam mesmo a optar por assaltar as lavras desses que se dedicam ao trabalho, como a Dona Domingas, o Paulino e o Júlio, tal como referi no artigo sobre os roubos no vale da Catumbela. Por conseguinte, a fome é, em grande medida, relativa. Muitos optam por ocupar o seu tempo com acções que nada acrescentam às suas vidas. Quando completei 10 anos, o meu pai decidiu enviar-me para viver com a sua irmã mais nova, a tia Nafuindi que residia na cidade, para que pudesse aprender a vivência de um meio mais evoluído (só mais tarde entendi a pretensão do meu pai, que naquela idade, inicialmente, não a recebi de bom agrado). Entretanto, o meu pai deu uma recomendação muito específica à sua irmã, a meu respeito! Disse que o seu sobrinho Candundo, terá de ter tempo para brincar, para trabalhar e tempo para estudar, ou dedicar-se aos livros, ou seja, era proibido passar todo o tempo apenas na brincadeira. A minha tia cumpriu escrupulosamente a orientação do irmão, a meu respeito. Pena que não tenha feito o mesmo com os seus próprios filhos. Os meus primos tinham tempo ilimitado para as brincadeiras, o que, como criança, me fazia confusão, levando-me a pensar que talvez a minha tia não gostasse de mim. Porém, mais tarde, veio revelar-se, detrimental, infelizmente, nos meus primos, nenhum progrediu, hoje são pessoas dependentes de ajudas de terceiros.
Há dias, na minha visita de rotina e inspecção do nosso campo de milho, que se encontra numa fase avançada de maturação, com maçarocas bem frescas, encontrei uma senhora, já de uma certa idade no espaço, a colher lossuva e lombwa (folhas daninhas comestíveis). Perguntei-lhe quem lhe tinha autorizado a estar naquele lugar. Ela tentou mentir, dizendo que tinha pedido à Dona Domingas. Como eu sabia que a Dona Domingas estava próximo, levei-a até a ela, que de imediato negou ter a visto a entrar na propriedade, que é vedada, com vigias em torno. Mas a senhora entrou sem ninguém se aperceber. A senhora estava no fundo, a fazer o reconhecimento para furtar maçarocas. Aparentava ser mais nova que a Dona Domingas, mas preferiu fazer o mais fácil, pegar no que não lhe pertence, do que trabalhar e ganhar a vida do seu esforço. Não quero passar a mensagem de que a vida está fácil, não é isso! Mas há muitas coisas que podem ser feitas para atenuar as dificuldades que se apresentam aos angolanos no geral, que enfrentam desafios da sua existência. Tão pouco desresponsabilizar as autoridades, que devem implementar políticas públicas que possam absorver as pessoas que, por si mesmas, não se podem suster.
Vêem-se crianças a pedinchar nas ruas, algumas delas até instruídas pelos seus progenitores. Como se pode esperar que essas crianças, instruídas a viver de pedir, venham um dia dedicar-se ao trabalho árduo do campo? O gosto pelo trabalho deve ser inculcado na criança desde tenra idade. A educação é a passagem de conhecimentos, valores culturais, costumes por parte dos familiares. O ponto de partida da educação é o berço, isto é, o meio familiar é que edifica a criança, que amanhã será um adulto, responsável a edificar o seu perfil de pessoa trabalhadora, assim, transmitindo essas práticas de geração em geração. Foi assim que, aos meus 6 anos, era acordado muito cedo pela manhã, para tirar do curral os bois da charrua, pastados para depois irem suportar a jornada de trabalho de preparação da terra para a lavoura. Portanto, o que faço hoje como adulto, é fruto da cultura que me foi inculcada quando criança.
Lembro-me dos meus primeiros anos de escola no Centro Evangélico de Chipando, que congregava as aldeias de Mukinda e Caiangula, que foi a primeira escola para quase todas as crianças da minha geração. Existiam Centros Evangélicos no planalto central, que era o estágio precedente à transição para a Missão Evangélica. Às Quintas-feiras, íamos trabalhar nas lavras dos dirigentes da Igreja (Diácono, Catequista, Secretário e outros anciãos), particularmente para fazer a chacha, depois da jornada laboral davam, algumas vezes, canjica e kissangua. Nas aldeias do Planalto Central, ter uma horta em casa era um hábito normal, vem do tempo antigo ter o Otchumbo, que é a pequena horta perto da casa. Como criança, eu via estas actividades como castigo, hoje, como adulto, vejo como a forma de inculcar na criança a cultura de trabalho.
Os tempos são outros, as escolas lutam para manter as crianças na escola por causa da fome. Mas, por outro lado, as crianças não aceitam, até, lavar o prato em que comem em suas casas. Os adultos têm por via de exemplos práticos, ensinar às crianças o gosto pelo trabalho. As autoridades governamentais, por sua vez, têm de implementar políticas públicas que permitam que cada um possa sustentar-se com o fruto do seu trabalho, a partir mesmo dos pequenos espaços que muitos possuem. A fome é relativa, quando as pessoas se conformam com a condição em que vivem, permanecendo impávidas, sem fazerem nada para reverter a sua condição de vida. No caso da Dona Domingas Fátima, Paulino Sachilombo e Mendes Júlio, que nos seus pequenos espaços agrícolas, conseguem tirar o sustento das suas famílias, a fome é mesmo relativa!

