Não pode deixar de ser significativo que a primeira visita que Lula da Silva fez a um país estrangeiro, depois de participar na da COP27, fosse a Portugal e esse facto não tem só a ver com a passagem do bicentenário da independência do Brasil, que este ano ocorre e que teve a singularidade de o primeiro imperador do país, D. Pedro, ter sido o filho primogénito do Rei de Portugal, D. João VI.
A afirmação de que "o Brasil está de volta" é, claramente, tradutora da intensão de o futuro Presidente do Brasil pretender dinamizar as relações externas do país com uma visão aberta e dinâmica no quadro do mundo multipolar que vivemos, assumindo compromissos internacionais transparentes na defesa do ambiente, na luta contra as desigualdades, no desenvolvimento sustentável e humano mas também no aprofundamento das relações com os países de língua oficial portuguesa.
A este propósito, convém recordar que dois dos últimos Presidentes da República do Brasil, Telmer e Bolsonaro, estiveram muito longe de considerar as relações com os Países de Língua Oficial Portuguesa como muito importantes para o Brasil.
Isso não aconteceu com os dois mandatos presidenciais de Lula da Silva que, interpretando premonitoriamente a evolução do quadro geoestratégico mundial, compreendeu o peso crescente que poderiam e deveriam ter os países de Língua Oficial Portuguesa na evolução da era da globalização.
Daí que Lula da Silva tivesse concorrido para abrir várias representações diplomáticas do Brasil em países africanos, visitado, como nenhum outro Presidente o fizera antes, vários países deste continente e integrado no seu gabinete personalidades profundamente conhecedoras e sensíveis a esta realidade.
Não admira, por isso, que Celso Amorim tivesse participado no gabinete da sua recente candidatura a Presidente da República, sabendo-se o papel que esse intelectual teve neste domínio nos dois anteriores mandatos presidenciais de Lula da Silva.
A tudo isto acresce que a língua portuguesa é a língua mais falada do Atlântico Sul, a que o Brasil pertence, que a armada desse país é a mais relevante da América Latina e, tal como os demais países de Língua Oficial Portuguesa, também o Brasil faz fronteira com o mar.
Se atendermos que é pelo mar que se realizam mais de 90% das transacções comerciais e que todos os países de língua oficial portuguesa são, de facto, porta de entrada para os continentes em que se integram ou para importantes regiões destes, compreende-se facilmente que Lula da Silva coloque as relações do Brasil com esses países como prioritárias.
E porque nenhum dos nossos países tem influência hegemónica à escala planetária, mas falam a quarta língua do mundo, que é hoje um instrumento económico, o reforço das relações no quadro da CPLP é para cada um deles e para o conjunto uma mola amortecedora contra as influencias efectivamente hegemónicas que à escala planetária se redesenham nos dias de hoje e que a invasão da Ucrânia veio evidenciar.
Saudemos por tudo isto a afirmação de Lula da Silva de que "o Brasil está de volta".
* (Secretário-geral da UCCLA)