Em 1572 publicou a obra que o tornaria imortal, e que o transformaria no maior poeta da língua portuguesa de todos os tempos, "Os Lusíadas", em que narra a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, mas descreve, igualmente, outras epopeias, como o trágico episódio de Inês de Castro "que depois de morta, foi Rainha" ou não quisesse o pai de Pedro "Matar do firme amor o fogo aceso".
Esta obra, "Os Lusíadas", ainda hoje é estudada, recitada e admirada, seja pela sua beleza literária, já que estruturalmente são 10 cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos, todos em oitavas decassilábicas, seja pelo seu papel na formação da identidade portuguesa e na influência que exerceu sobre a língua que todos falamos.
Uma outra grande protagonista da língua portuguesa é, sem dúvida, a fadista Amália Rodrigues.
Ainda que separados por séculos, a pena magistral de Camões e a voz imortal de Amália, convergem na sua grandiosidade, contudo, surge a curiosidade: como teria sido o encontro entre essas duas figuras emblemáticas, quando Camões existira quatro séculos antes de Amália, que viria a ser considerada a maior fadista de todos os tempos?
Essa hipotética conexão entre o poeta e a diva do fado leva-nos a reflectir sobre a atemporalidade e a profundidade da língua portuguesa, que transcende as barreiras do tempo e do espaço.
Amália cantou Camões pela primeira vez em 1961 e quando um jornalista lhe perguntou de quem eram os versos, a resposta foi: "estavam numa gaveta, num livro". Amália não quis dizer de quem eram os versos.
Perguntam-lhe, a dada altura, o que ela acha que Camões pensaria, ao que respondeu: "Eu não sei. Cantei os versos porque gostei deles. Os versos que os poetas escrevem são para ser cantados e conhecidos. Os poetas pertencem ao povo. Eu sou do povo".
Esta polémica foi gerada porque na época já Camões era o príncipe dos poetas e cantá-lo no fado seria, de algum modo, desmerecê-lo, uma vez que o género musical na altura não tinha boa fama, tendo Amália desempenhado um papel fundamental para alterar esta percepção, quando decidiu cantar os grandes poetas como Camões.
Quando Amália começou a cantar, os temas tratados no fado eram essencialmente o quotidiano, o amor, as agruras da vida, as dificuldades do trabalho.
Sem dúvida, Amália elevou o patamar do Fado além do que era exigível e do que era, até, expectável.
Ainda sobre a polémica, chegou a ser realizado um debate público, que foram auscultados diferentes intelectuais, para avaliarem essa ousadia de Amália.
Alexandre O"Neill, questionado sobre o que achava deste gesto da Amália, respondeu: "Acho óptimo o encontro de Camões-o-culto com Amália-a-fadista, para escândalo de certa bem-pensância e prazer dos que entendem que um poeta não é para sobreviver em pedra, nem uma fadista em navalha de ponta e mola".
Para Alexandre O"Neill, "isolar um génio na sua própria glória, torná-lo prisioneiro da sua própria complexidade, matá-lo aos poucos no hospital dos gramáticos ou na sonolência das sessões solenes é prática das sociedades basbaques".
Outro escritor, Manuel Alegre, afirmou: "Camões é o poeta de Amália e acho que foram feitos um para o outro". Alegre vai mais longe e afirma mesmo que "Camões tinha escrito aqueles poemas à espera que um dia pudessem ser cantados por ela".
Nos vários fados, em que a dura memória de Camões se entrelaça com a voz de Amália, os erros, a má fortuna e o amor ardente se conjuram em um destino fatalista.
Em 1965, Amália editou um disco de 45 rotações que se intitulava "Amália Canta Camões". Saíam então gravações de "Erros Meus", "Lianor" e "Dura Memória".
Amália não ficou por aí e lançou em 1970 o álbum "Com Que Voz" (poema de Camões), que representou o ponto culminante do percurso iniciado com o álbum "Busto" de 1962.
Este momento marcou a entrega de um repertório integral de Alain Oulman, seu compositor mais importante, sobre textos de Camões, O"Neill, Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, Homem de Mello, Cecília Meireles e Manuel Alegre, à sua voz em absoluto estado de graça (a sua melhor fase).
Com que voz foi considerado " o álbum perfeito", premiado em vários países e incluído na Billboard 200 daquele ano?
Considerando tudo isto, é imperativo destacar que esta relação de amor tão perfeita entre Camões - a palavra - e Amália - a voz - corporiza o lamento do poeta "para tão longo amor, tão curta a vida".
Acabou? Não. Fica para a história. Que faria Camões? Certamente, não arrancaria o outro olho, mas diria, aliás, já o disse "deixai-me com as lembranças desta glória", e eu termino, cuja beleza eterniza-se na memória.
Assim, a simbiose entre Amália e Camões transcende o tempo e funde-se na eternidade da arte.
Amália, com sua voz ímpar, deu nova vida às palavras imortais de Camões, e juntos, sem se terem conhecido, teceram um legado que perdura além das fronteiras do tempo e do espaço.

*Jurista