Em Angola, este problema também já é conhecido, como o Novo Jornal noticiou a 22 de Abril, quando o Serviço de Investigação Criminal (SIC) do Moxico anunciou estar a investigar uma organização que usava as redes sociais para criar a ideia de que possui poderes mágicos que lhes permitem fazer desaparecer os órgãos genitais.

A investigação então realizada conduziu os agentes do SIC à constatação de que estes indivíduos convencem a comunidade onde actua de que fazem desaparecer órgãos genitais apenas com um toque.

Estes indivíduos, entretanto, conseguiram criar pânico social e ocorreram mesmo situações de violência grupal contra pessoas acusadas de fazerem parte dessa rede organizada apresentando casos de pessoas vítimas desses "poderes" após ser verificaso a falsidade.

Entretanto, quando são já conhecidos casos semelhantes em países como a República Democrática do Congo, Zâmbia ou Tanzânia, em Moçambique o número de mortos associados a linchamentos motivados por rumores de desaparecimento de órgãos genitais subiu para 49.

Como avança esta terça-feira, 05, a Lusa, as autoridades e profissionais de saúde moçambicanas, num contexto de pânico e desinformação que afeta várias regiões do país, procuram reduzir a tensão nas comunidades e as autoridades policiais estão no terreno para atacar este problema social crescente.

Segundo as autoridades moçambicanas, como acontece noutros países, cuja lista cresce diariamente, os episódios têm origem em crenças e desinformação, com relatos de suposto desaparecimento de órgãos genitais, que não têm fundamento científico.

"Não há nenhum desaparecimento de órgão genital. É impossível do ponto de vista científico", acrescentou um especialista citado pela Lusa, apontando o "stress" e o medo como fatores que contribuem para a perceção errada.

Na província de Manica, a médica-chefe do Centro de Saúde de Gôndola relatou na segunda-feira casos recentes de vítimas mortais.

"Recebemos ontem dois corpos sem vida, vítima de linchamento, por parte da população, por conta do mito que está a acontecer acerca de atrofiamento genital. E hoje também recebemos mais um caso de linchamento, também pela população", disse Vânia Monteiro.

Em 01 de maio, o ministro do Interior, Paulo Chachine, manifestou preocupação com a escalada de violência, sublinhando o impacto social dos boatos.

"Estes dados preocupam-nos. São muitas vidas inocentes perdidas por causa de algo que não existe. Devemos unir-nos contra este mal que, a prevalecer, poderá pôr em causa a nossa harmonia social", disse o governante.

Segundo o ministro, 74 pessoas ficaram feridas e 132 estão detidas por envolvimento em atos de agressão física e linchamento de "cidadãos inocentes", em 93 casos até então registados, relacionados com boatos com maior incidência nas províncias de Cabo Delgado, Nampula, Niassa e Zambézia.

As superstições sobre o alegado atrofiamento, encolhimento e até desaparecimento de órgãos genitais, a partir de um toque, tiveram início em 18 de abril, na província de Cabo Delgado, tendo-se posteriormente espalhado para outras regiões do país e para as redes sociais.

As autoridades indicam que a situação continua a gerar insegurança em várias regiões, apesar de sinais de estabilização em algumas zonas, com reforço da presença policial e ações de sensibilização.

A Comissão Nacional de Direitos Humanos já tinha denunciado anteriormente a escalada de violência associada a estas crenças, alertando para a necessidade de intervenção urgente para travar os linchamentos e proteger vidas.