A ORAA, a Organização de Resgate de Animal em Risco de vida em Angola, funciona há cinco anos em Luanda, tendo começado como um pequeno gatil que depois se tornou num abrigo com a dignidade que os animais merecem, uma vez que não são culpados pelo abandono a que são votados, nem sequer das superstições ancestrais sem sentido, muito das quais ligadas ao atraso civilizacional das sociedades onde isso sucede, especialmente no caso dos gatos maltratados.

Um exemplo, comum, é algumas pessoas atirarem sal aos gatos que se abeiram das suas casas no período nocturno por temerem que estes sejam veículos de entidades sobrenaturais malignas. O pior é quando os animais são simplesmente mortos por causa dessas enraizadas superstições.

Badocha era tratada como "feiticeira" e para acabar com a vida dela atiraram-lhe com água quente, mas não morreu. A gata branca foi resgatada das ruas da cidade no ano passado com ferimentos graves no corpo, mas está hoje livre de perigo e tem uma vida "normal".

Isso só foi possível graças à ORAA, organização que a acolheu e tratou, durante três longos meses, mas hoje segue a vida embora com cicatrizes marcantes de um sofrimento atroz.

Apesar de tanta perseguição, nem sempre essa é a realidade dos gatos em Angola, como os irmãos Zeus, Luna e Bebé, resgatados após a morte da sua dona, uma cidadã portuguesa que teve um AVC repentino. Tiveram de ficar desamparados por curto tempo, porém depois foram adoptados pela ORAA, tão logo vizinhos e amigos se aperceberam da morte da mulher.

Em declarações ao Novo Jornal, a fundadora da ORAA, Filomena Paulino, lembra que os gatos não são feiticeiros, e "a maior parte das pessoas que não gostam deles é por falta de espiritualidade".

"O gato cura, acalma e tira o stresse das pessoas", acrescenta a responsável do abrigo, que dedica boa parte da sua vida a centenas de animais de quem cuida com visível humanidade, lembrando, por exemplo, que a ciência moderna provou já que as pessoas com um gato em casa têm menos probabilidades de apanhar um ataque cardíaco.

A história de "Sagrada"

Há sensivelmente cinco anos, ouviam-se latidos de dor lancinantes nos arredores do Largo da Sagrada Família, no bairro do Maculusso, vindos de uma cadela que foi abandonada com um enorme tumor, provocado por vírus transmitidos sexualmente por cães.

"Sagrada", como era carinhosamente chamada, estava com ferimentos graves que afectaram toda a parte traseira, mas um dia Filomena Paulino deu de caras com a situação e decidiu ajudar o animal.

Levou três meses para conseguir resgatá-lo, porque a cadela que estava cansada de ser pisoteada, já havia perdido a esperança nos seres humanos e fugia todas as vezes que alguém se tentava aproximar.

Depois de ter sido recuperada, foi internada numa clínica, onde foi submetida a quimioterapia, tratamento para combater o cancro, e saiu de lá curada.

No ano passado, com quase sete anos de vida, a "Sagrada", morreu por outros motivos de saúde. Porém, ela passou os seus últimos quatro anos feliz, num abrigo harmonioso, que lhe devolveu a alegria, esquecendo-se da fome e do medo vividos nas ruas de Luanda.

Muitos destes animais que são resgatados da miséria carregam consigo talentos que precisam ser explorados. Na ORAA, os gatos e cães não encontram só um lar, mas também têm oportunidades de participar em actividades e concorrer em concursos.

Como é o caso de Lord, não obstante os traumas que carrega, por ter um pé amputado. Lord já venceu o concurso de cães na categoria de "Dog Simpatia".

De tom branco e com alguns detalhes castanhos, nas regiões da cabeça, lombo e da cauda, este canino foi encontrado em circunstâncias precárias, nos arredores do Banco Nacional de Angola.

Actualmente, é um dos membros do abrigo que se encontra no Morro Bento. Apesar de ter um pé amputado, tal como os outros cães, ele não deixa de correr para o colo das pessoas que lá passam, para as saudar.

A organização conta com três abrigos, nomeadamente no Morro Bento, Kikuxi e Vila Alice, alberga mais de 100 cães e quase 240 gatos, que têm direito a duas refeições por dia.

O funcionamento da instituição é garantido por um grupo de voluntários, composto por mais de 150 pessoas, que participam com aquilo que estiver ao seu alcance, de forma regular ou irregularmente.

Para além dos voluntários que algumas vezes se disponibilizam a ajudar com trabalho normal nestes abrigos, entre limpar alimentar ou cuidar dos animais, a ORAA tem 12 funcionários que auferem um salário entre os 100 a 150 mil kwanzas.

Mensalmente, a ORAA tem uma despesa de quase 11 milhões de kwanzas, repartidos entre compras de alimentos, produtos de higiene, pagamento de salários e aluguer dos espaços.

A instituição actua apenas em Luanda, mas há uma vontade de se expandir para outras províncias, contudo Filomena Paulino lamenta o facto de não o poder fazer devido às dificuldades financeiras.

Todo o apoio é bem-vindo na ORAA

De entre os outros constrangimentos que a organização vive, destacam-se o custo elevado com as clínicas veterinárias, dificuldade em pagar salários e a renda, embora se saiba que estas verbas são escassas quando comparadas com o que poupam e entregam à comunidade.

Não apenas em termos de compensação emocional a quem deles trata, mas também ao impedir, quantas vezes, que os problemas de saúde pública com origem em animais, seja maior, como o caso, por exemplo, dos surtos de raiva ou de outras doenças.

Os animais abrigados no Morro Bento e Vila Alice, como o Novo Jornal constatou, estão em zonas habitacionais e, nalguns casos, também têm de enfrentar as reclamações dos vizinhos que falam sobre o barulho que os animais por vezes fazem.

Tal como uma criança que é acolhida no centro ou orfanato e tem o sonho de ser adoptada por uma boa família um dia, o mesmo também acontece com estes animais, e todos estão disponíveis para serem adoptados desde que as pessoas interessadas tenham condições mínimas favoráveis.

"Os gatos e cães são animais que nutrem amor, carinho e respeito pelas pessoas, maltratá-los é uma atitude repugnante", sublinhou Filomena Paulino, apelando ao bom senso das populações e a não olharem para o gato como um animal parente do mal, porque "isso é fruto de crenças sem sentido" e sem fundamento científico, "e a forma como se trata os animais define as sociedades".