E a razão é a de sempre: o risco efectivo de a guerra lançada pela coligação israelo-americana contra o Irão a 28 de Fevereiro, actualmente em stand by negocial, vir a ser retomada nos próximos dias, senão nas próximas horas.

É que o Irão, usando o mesmo "truque" de Donald Trump para manipular os mercados, fez chegar a sua resposta a Washington a escassas horas da abertura nesta segunda, 11, sabendo que o efeito seria este: uma nova subida em flecha no valor do barril.

Claramente com a intenção de fazer uso da sua "guerra assimétrica", sendo, como é, militarmente, um David contra Golias, em Teerão sabe-se que o "calcanhar de Aquiles" da Casa Branca é o efeito do controlo de facto do Estreito de Ormuz na economia global.

E a aproximação do calendário eleitoral das eleições intercalares de Novembro, onde Trump e o seu Partido Republicano, como as sondagens apontam, pode perder a maiorias nas duas câmaras do Congresso, exige do Presidente dos EUA uma ponderação dramática.

É que se pode ver na situação de a continuação da guerra sem uma vitória clara sobre o Irão resultar na derrota eleitoral que lhe garante dois anos de mandato, os últimos, aflito com processos de destituição sucessivos como a oposição democrata já disse que fará.

Ainda assim, Trump escreveu na sua rede social que ficou furioso com a resposta iraniana: "I don't like it!", dizendo ter sido uma resposta "totalmente inaceitável", quando antes já tinha, noutra publicação, ameaçado o Irão garantindo que "não se voltam a rir dos EUA" em Teerão.

Ainda neste contexto, os media internacionais estão há vários dias a noticiar ataques a petroleiros, tanto de iranianos como de norte-americanos, cuja marinha de guerra mantém um bloqueio naval ao Irão há duas semanas, com várias embarcações deste tipo a arder sobre as águas do Golfo Pérsico e do Mar de Omã.

Sabendo disto, os mercados, com um pendor para acreditar mais na retoma da guerra que numa solução negociada depois das publicações de Trump na sua Truth Social, onde este diz que "o Irão não mais se voltará a rir dos EUA", mas outra solução não parece estar descartada.

É que, apesar de se estar, nesta segunda-feira, 11, a observar uma subida substantiva no valor do barril de Brent, referência maior para as ramas exportadas por Angola, mas também em Nova Iorque, no WTI, a ideia do reinício para breve das hostilidades poderia vincar ainda mais essa escalada nos mercados.

Com efeito, perto das 11:00, hora de Luanda, o barril de Brent estava a valer 103,5 USD, uma subida de quase 3%, reflectindo a instabilidade no Golfo Pérsico, onde o Irão, ao controlar efectivamente o Estreito de Ormuz controla 20% do crude e do LNG mundiais mesmo sendo apenas responsável por 4% a 5% da produção mundial de petróleo e 7% a 8% do gás natural.

A este factor de estrangulamento, como estão a notar cada vez mais alguns especialistas, como Anas Alhajji, da Energy Outlook Advisors, LLC, um dos mais citados analistas da geoeconomia energética, começa a impor-se um novo olhar sobre o real valor do barril.

Isto, porque se o preço do barril oficial tem sido aquele que resulta dos mercados oficiais de futuros, a verdade é que o estrangulamento no Estreito de Ormuz tem exigido a cada vez mais países adquirir o crude que precisa nos mercados de entrega imediata, onde o barril pode estar entre 25 a 35 USD acima, e, nalguns casos, mesmo 40 USD acima do valor de futuros.

Perante a imprevisibilidade deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 104, 5 USD, no caso do Brent, perto de 43 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.