"Israel privou milhões de palestinianos da sua liberdade e da sua propriedade. Perpetua um sistema de discriminação racial e de desigualdade. De apartheid", Nelson Mandela

"Não se trata só de matar um povo, trata-se de matar a terra, a educação, a saúde, a arqueologia, o passado e até mesmo o futuro. E, sobretudo, é matar a humanidade dos palestinianos", denunciou a 19 de Maio, numa intervenção online dirigida à cerimónia de entrega do Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa, em Lisboa.
O gazacídio, traduzido em números, mostra a crueldade dos crimes contra a humanidade desencadeados pelo regime de Benjamin Netanyahu, nomeadamente "crianças mortas nas escolas, mulheres massacradas pelos bombardeamentos em acampamentos improvisados e famílias inteiras soterradas sob os escombros", como relata Rami Abou Jamous.
Gazacídio que, segundo alguns académicos e investigadores, citados em Setembro do ano passado pela italiana Francesca Albanese, relatora da ONU para os territórios palestinianos, terá causado pelo menos 680 mil mortes. Partindo deste número, cerca de 380 mil das vítimas serão crianças com menos de cinco anos.
Nesse gazacídio, a fome é usada como arma de guerra, civis são mortos nos pontos de distribuição de ajuda humanitária e as evacuações ocorridas entre Março e Outubro de 2025 abrangem mais de 80% do território de Gaza, relata um estudo da Revista Lancet, divulgado no mês passado.
Desde a proclamação do chamado cessar-fogo (Outubro de 2025), pelo menos 890 pessoas morreram e outras 2.648 ficaram feridas, vítimas desse gazacídio que o mundo vê, assiste em directo, mas que, apesar de tudo, "alguns continuam a desviar o olhar", diz o correspondente de guerra palestiniano.
Números do terrorismo israelita dão razão aos jornalistas palestinianos que vão transmitindo ao mundo a "resistência e sofrimento diário" da população, lembrou Rami Abou Jamous, agraciado com o prémio Norte-Sul do Conselho da Europa 2026, galardão entregue pelo Presidente português, António José Seguro, a uma representante do laureado.
Rami Abou Jamous não pôde estar fisicamente presente porque sair de Gaza "tornou-se um privilégio reservado aos moribundos, mas infelizmente (apenas) algumas dezenas de feridos por dia obtêm uma autorização, enquanto mais de 20 mil doentes aguardam condenados a uma lenta agonia por falta de cuidados médicos".
Assim, ao agradecer o prémio "em nome daqueles que ainda estão vivos, que continuam a trabalhar no coração deste genocídio e em nome daqueles que foram mortos pelo Exército de ocupação simplesmente por fazerem o seu trabalho", o jornalista palestiniano homenageou as centenas de colegas mortos por Israel.
Desde o início do gazacídio, o regime de Netanyahu assassinou 261 jornalistas na Faixa de Gaza. Só no ano passado, dos 129 jornalistas que morreram em todo o mundo enquanto exerciam a sua profissão, cerca de metade foram mortos em Gaza por Israel, revela o Comité de Protecção dos Jornalistas (CPJ).
"O exército israelita", afirma o CPJ em relatório, "cometeu mais assassinatos selectivos de membros da imprensa do que qualquer outra força governamental, e a grande maioria das vítimas são jornalistas e profissionais dos media palestinianos em Gaza".
Mais de 60% dos 86 jornalistas assassinados pelas Forças de Israel em 2025 eram palestinianos e trabalhavam em Gaza. O CPJ também assinala um aumento no uso de drones nos ataques a jornalistas.
Documenta, igualmente, casos de jornalistas conhecidos por reportagens profundas sobre crimes de guerra evidentes, como fome ou ataques a hospitais, que foram alvejados pelos criminosos de Telavive. "Ao usar essa táctica, as forças israelitas exacerbaram as violações do direito internacional, ao mesmo tempo que silenciaram as críticas no território", afirma o CPJ.
Por isso, Jamous considera o prémio uma "vitória de pequenas canetas face a um imenso arsenal mediático, uma vitória para jornalistas que muitas vezes se encontram sozinhos, exaustos, em perigo constante e sem protecção, face a uma máquina de destruição que não é apenas militar, mas também mediática. Porque este genocídio não se desenrola apenas debaixo das bombas".
E acrescenta: "desenrola-se também nas narrativas, nas imagens que tentam apagar, nas vozes que procuram silenciar a própria humanidade dos palestinianos, que alguns ainda se recusam a ver. A ocupação também impede os jornalistas estrangeiros de entrarem em Gaza para testemunhar. Querem cometer os seus crimes sem testemunhas".
Israel ataca em todas as direcções e as infra-estruturas indispensáveis para a vida das populações palestinianas não são poupadas.
Para ilustrar a gravidade da "destruição gratuita" de infra-estruturas que as forças israelitas causaram em Gaza, a Amnistia Internacional divulgou uma investigação sobre a demolição pelo exército israelita de pelo menos 13 edifícios residenciais e comerciais de vários andares em toda a cidade de Gaza, entre Setembro e Outubro de 2025.
Por outro lado, segundo a ONU, 70% das infra-estruturas civis do território foram destruídas ou severamente danificadas pelas forças israelitas. A devastação é de tal magnitude que gerou cerca de 55 milhões de toneladas de escombros, e os custos de reconstrução ultrapassam os 60 mil milhões de euros.
Essa destruição atinge centenas de milhares de residências totalmente demolidas, deixando a grande maioria da população deslocada e sem abrigo; a quase totalidade das universidades, escolas e grande parte da rede hospitalar e de cuidados primários foram afetadas ou deixadas inoperantes; redes de abastecimento de água potável, saneamento básico, centrais eléctricas e telecomunicações foram fortemente atingidas, e centenas de edifícios históricos, locais religiosos (mesquitas e igrejas) e sítios culturais foram destruídos.
De notar que, no início deste ano, Israel atacou 22 hospitais e centros de saúde em Gaza, deixando mais de metade dos hospitais a funcionarem apenas parcialmente e milhares de feridos sem acesso aos cuidados necessários.
Nesse período, mais de 43 mil palestinianos, entre os quais dez mil crianças sofreram ferimentos que exigem reabilitação a longo prazo, informa o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), citando a OMS.
O OCHA revela que 98% da água na Faixa de Gaza não é potável e quase 90% da infra-estrutura hídrica está gravemente danificada ou destruída por ataques genocidas que já causaram a morte a pelo menos 1700 profissionais de saúde, equivalente a mais de duas mortes diárias, em acções que destruíram ou danificaram 94% dos hospitais.
O sistema de saúde de Gaza foi alvo de quase 800 ataques que atingiram 125 unidades de saúde, incluindo 34 hospitais. Em Setembro passado, indica a OMS, apenas metade dos hospitais do território (18 em 36) funcionavam parcialmente.
A organização internacional refere ainda que entre Janeiro e Agosto de 2025 mais de 200 crianças com idades entre seis meses e cinco anos morreram de desnutrição aguda e 35.430 foram tratadas por causa da referida doença.
O vencedor do Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa 2026 lamenta que, mesmo vendo todo o horror narrado e apesar das imagens divulgadas pelos profissionais do jornalismo palestiniano que continuam a trabalhar diariamente, alguns continuam a desviar o olhar "com demasiada frequência".

Jornalismo que na Palestina se transformou num "acto de sobrevivência e de resistência. Informar é resistir ao esquecimento. Filmar é proteger a memória", sublinha Rami Abou Jamous, lembrando que, para além da resistência, os palestinianos sofrem "de um mal incurável, que é a esperança".