Se o Estreito de Ormuz se mantém fechado, ou parcialmente fechado, como insiste o Irão, porque por ali continuam a passar navios de países que não têm atritos com Teerão, para os EUA, a postura hoje é de dar continuidade â guerra como solução.

E isso voltou a ser claro, não apenas na quinta-feira, 14, quando Donald Trump escreveu novamente que "ou o Irão cede ou é aniquilado", na já recorrente retórica agressiva entre Washington e Teerão, mas ainda mais grave já esta sexta-feira, 15, no fecho da sua visita oficial à China.

Também na Truth Social, o Presidente dos EUA disse, quando falava da sua passagem por Pequim, onde tinha pedido ao seu homólogo chinês para interceder no sentido de levar o seu aliado, o Irão, a ser mais cooperante para acabar com o conflito, que a guerra chegou a um patamar em que é para to be continued.

E se a guerra "é para continuar", certo e seguro é também que o Estreito de Ormuz continua sem alternativa para mais de 15 milhões de barris por dia e 20% do LNG consumidos no mundo, quando dezenas de países começam a ver as suas economias ruir uns atrás dos outros.

O problema energético é mais sentido na Ásia, onde países como as Filipinas ou Tailândia, entre muitos outros, já estão a racionar o acesso aos combustíveis, ou em África, América Latina e mesmo EUA, onde os fertilizantes agrícolas começam a ficar com preços insustentáveis ou a não haver para aquisição.

Isto, porque além do crude e do gás, do Golfo Pérsico chegam ainda quantidades vitais de fertilizantes, alumínios ou o hélio, essencial para a indústria 2.0 dos microchips, e sem paz, o Irão já fez saber que não abre o seu estratégico Estreito que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico.

E nem a possibilidade, dada como certa por Trum em entrevista à CBS News, de que o Presidente chinês, Xi Jinping, lhe prometeu que iria interceder junto dos seus aliados iranianos para facilitar um acordo com os EUA parece estar a acalmar os mercados.

Com efeito, o barril de Brent, referência principal para as ramas exportadas por Angola, estava esta-sexta-feira, 15, com ganhos acumulados de quase 8%, chegando, perto das 11:00, hora de Luanda, aos 109,5 USD, uma subida desde o início de mais de 3,6%, sendo que em Nova Iorque o WTI segue o mesmo diapasão, para os 105,4 USD.

A ajudar a esta "festa", a Agência Internacional de Energia voltou agora a sublinhar que o mundo está à beira de uma crise petrolífera sem paralelo e até as crises históricas de 1973 e 1979 lhe ficam muito distantes nos efeitos dramáticos que está ao virar da esquina.

Além disso, a AIE nota que começa a erguer-se um efeito exponencial do longo défice na oferta, o que, entre outros efeitos dramáticos, prolonga o tempo necessário para a recuperação da normalidade a partir do momento em que Irão e EUA se entenderem.

O facto de Trump ter anunciado que a China aceitou comprar mais crude Aos EUA devido ao efeito do fecho de Ormuz, segundo alguns analistas, isso pode ter um efeito retardador na vontade efectiva de Washington terminar o conflito no Golfo.

Perante a imprevisibilidade deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 109, 5 USD, no caso do Brent, perto de 49 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.