E é neste contexto que a notícia desta quinta-feira, 19, do The Wall Street Journal sobre a existência de planos sobre a mesa de trabalho de Donald Trumnp para decapitar o regime iraniano surgiu sem suscitar surpresa ou estupefacção.

A história mostra à evidência que em Washington, estratégia vencedora é para não se mexer... porque foi assim, recentemente, quando os EUA atacaram a infra-estrutura nuclear do Irão, na Venezuela, no golpe "hollywoodesco" de rapto do Presidente Maduro...

Estratégia que também foi usada nas invasões do Iraque e do Afeganistão, sendo que se se recuar ainda mais na "máquina do tempo", nas guerras do Vietname e na Coreia, as negociações foram sempre usadas como distracção para golpes militares já planeados.

E é isso que, segundo um dos mais influentes media norte-americanos, The Wall Street Journal, está a acontecer neste preciso momento com as negociações com Teerão, porque o que Washington tem planeado é um golpe de decapitação do regime iraniano.

Segundo vários media internacionais, as recentes idas do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, aos EUA, duas vezes em dois meses, serviram para arquitectar o golpe definitivo no regime que vigora no Irão deste a revolução islâmica de 1979.

Ao contrário do que sucedeu em Junho de 2025, quando os EUA atacaram as infra-estruturas nucleares 12 horas antes do arranque de nova ronda negocial sobre o programa nuclear, o Irão, desta vez já avisou que não tira o dedo do gatilho...

Se, como alguns analistas já admitem, este confronto do eixo EUA-Israel tiver como objectivo não o ataque ao Irão mas sim o primeiro embate directo entre sistemas de armas norte-americanos e chineses para testar as possibilidades de um e do outro lado.

Recorde-se que as chefias militares norte-americanas já disseram ser inevitável um confronto aberto com a China antes de 2030 para definir a nova ordem mundial mas estes dois gigantes militares e económicos que procuram o domínio hegemónico global, nunca tiveram uma oportunidade para se testarem mutuamente num "laboratório" como o Golfo Pérsico.

É que, como na natureza, por vezes "machos alfa" são desafiados dentro do grupo por outro macho com pretensões a "alfa" mas nem sempre chegam a vias de facto mortais, seja porque se entendem para dominar o território, seja porque um deles se impõe na fase de testes de força efectiva...

E o mesmo pode estar a ser usado por Pequim e Washington neste momento, aproveitando a tensão criada no Golfo Pérsico onde Israel parece estar a conseguir empurrar os EUA para uma guerra com o Irão de forma a mudar as caras do poder em Teerão.

Possibilidade reforçada com o envio de algumas das mais modernas armas para reforçar os arsenais iranianos, desde logo os sofisticados radares de longo alcance, as defesas antiaéreas e os aviões de guerra de 5ª geração J-20, além de navios de recolha de dados e o fornecimento ininterrupto de intelligentsia a partir das vastas redes de satélites chineses.

Ainda mais acentuada essa realidade aparece quando o Irão organizou por estes dias exercícios militares, que denominaram "Cinturão de Segurança Marítima", no Golfo Pérsico, com os seus parceiros estratégicos russos e chineses...

Se bem que os americanos já estejam a par do potencial militar russo a partir do "laboratório" da Ucrânia, sobre o que vale militarmente a China, essa oportunidade de testagem directa ainda não surgiu.

Isto, embora tenha sido possível algum tipo de recolha de informação na recente guerra de cinco dias entre o Paquistão, equipado pela China, e a Índia, principalmente armada pela Rússia, mas também com algum tipo de armamento ocidental.

Seja como for, como aponta Jeffrey Sachs, analista de política internacional norte-americano, e professor da Universidade de Columbia, com grande experiência na Ásia, sem que se perceba o racional, porque a China não é uma ameaça para os EUA, é apenas um gigante económico que procura consolidar relações através do comércio, em Washington "existe uma obsessão para confrontar militarmente" Pequim.

Isto, avança ainda este especialista em geoestratégia económica, os EUA "acreditam que a única forma de imporem a sua hegemonia global é derrotar pelas armas a China" e, no contexto, das tensões com o Irão, provavelmente não deixarão de ser feitos testes para verificar as vantagens e desvantagens de um e do outro lado.

Uma das razões para a pressa de Washington confrontar militarmente a China - o Pentagono diz que isso acontecerá até 2030 - é ali se temer, nota ainda Jeffrey Sachs, que a acelerada evolução tecnológica das indústrias militares de Pequim passem em modernidade e eficácia os sistemas de armas norte-americanos até essa data.

E agora, a juntar gasolina à fogueira, The Wall Street Journal vem confirmar aquilo que, na verdade, já se desconfiava em múltiplas plataformas de análise militar nas redes sociais, que é o facto de os EUA estarem na iminência de atacar o Irão usando a mesma estratégia de sempre: distrair o opositor com promessas de negociar para evitar uma guerra.

Segundo o jornal de Nova Iorque, e também fontes citadas pela CBS News, Trump recebeu múltiplos relatórios, oriundos das diversas agências de intelligentsia, como a CIA, para que possa escolher a que tenha melhores possibilidades de decapitar o regime iraniano.

Nada que em Teerão não seja esperado, porque tanto o Presidente do país, Massoud Pezheskian, como o Líder Supremo, aiatola Ali Khamenei, como o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, têm repetido nas últimas semanas que qualquer ataque norte-americana obterá uma "resposta devastadora".

Portanto, desta feita, o efeito surpresa está anulado, porque o regime iraniano não acredita no processo negocial com os EUA, embora se mantenha nele com, como frisou Araghchi, "empenho e convicção" de que uma guerra pode ser evitada.

O problema é que, como alguns analistas sublinham, o Irão pode muito bem ter deixado de ser parte relevante no desfecho deste cenário belicista, porque os EUA visam de sobremaneira encontrar o "laboratório" que sempre lhes escapou para testarem o real valor dos novos equipamentos militares chineses.

Facto demonstrado por diversas fontes é que tanto a Rússia como a China, assentando isso nas parcerias estratégicas na área da Defesa assinadas nos últimos anos, no contexto dos BRICS, estão há meses com um corredor aérea e naval de fornecimento ininterrupto de armas para o Irão.

E, como aponta nos diversos canais do YouTube onde tem presença assídua, o antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, Jacques Baud, com extensa obra sobre conflitos regionais no Médio Oriente, o Irão, visto da China, é muito mais que um parceiro estratégico, é uma peça existencial para o gigantesco plano de investimentos planetários da Nova Rota da Seda.

Porque, devido à sua geografia, o Irão está no epicentro das infra-estruturas ferroviárias e rodoviárias com que Pequim visa ligar a China ao Ocidente (Europa) através da Ásia central e Ocidental, sendo que é igualmente a geografia iraniana que mais interessa à Rússia.

Isto, porque, como nota o major-general Agostinho Costa, nas suas análises regulares no podcast "A Arte da Guerra", o Irão representa o baixo-ventre da Federação Russa na Ásia, que é se transformaria na sua maior fragilidade geográfica se Teerão tivesse um regime inamistoso para com Moscovo, como passaria a ser em caso de sucesso dos EUA e de Israel nos seus planos de decapitação do regime dos aiatolas.

Perante isto, não seria de estranhar que, quando os EUA tiverem todo o seu potencial militar deslocado para o Médio Oriente e para as suas bases no leste da Europa, como o demonstra o frenesi intenso na Base das Lajes, nas ilhas portuguesas dos Açores, no Atlântico, a meio caminho para o Golfo Pérsico, aconteça o que já todos esperam...

Mas tal não deve ser já neste Sábado, como o canal norte-americano CBS News noticiou nas últimas horas, apontando que o Irão será atacado ainda neste fim-de-semana.

Todavia, se se olhar para o "oráculo" dos mercados petrolíferos, então é melhor não ter tantas certezas, porque o barril de petróleo já passou largamente a fasquia dos 70 USD, com base nos receios dos analistas do sector de que o conflito iminente possa levar a disrupções severas no fornecimento global de crude: o Golfo Pérsico representa 35% da energia consumida no Planeta.