O lugar do ministro foi o do meio, o centro e equilíbrio. Eu fiquei à sua direita. Claro que, por altura da nossa acomodação e colocação das malas, houve o período para aquilo a que chamo de "reconhecimento mútuo". Ele bem podia trocar de lugar se assim entendesse. Havia alguns lugares vagos e houve até uma assistente de bordo que lhe colocou a possibilidade de trocar de lugar e ficar mais bem acomodado, mas o ministro prontamente declinou. Iria viajar naquele lugar, bem ao lado do jornalista e de um outro cidadão nacional, um empresário. Os jornalistas são, muitas vezes, tidos como intriguistas, como autênticos perturbadores/violadores da chamada reserva da vida privada dos cidadãos, pessoas intrometidas e que muitos não gostam de ter por perto. Há uns anos viajei ao lado de uma titular de um órgão de soberania e, apesar de todo o meu cavalheirismo, percebi que a mulher não se sentia muito confortável em ter por perto um jornalista do grupo dos "desalinhados". Percebo quando sou rotulado, quando sou tratado com hostilidade e de forma pouco diplomática pelas nossas autoridades, quando, no exercício das minhas funções como jornalista e director do Novo Jornal, viajo para Paris, Osaka, Sochi, Madrid, Berlim, Moscovo, Tóquio, como também percebo quando respeitado e bem tratado em Varsóvia, São-Tomé e Príncipe, Lisboa, Nova Delhi, Abuja e algumas poucas paragens onde o nosso papel de jornalistas livres e independentes é respeitado e valorizado. E foi isso que senti durante a conversa e debates com o ministro que aqui venho citando: Respeito, elevação e valorização.
Percebi que o ministro procurava algo para ler e disponibilizei-lhe alguns dos meus jornais, sendo tema de um deles o mote para o início de várias conversas que se seguiram. Se inicialmente fiquei admirado com a sua humildade e simplicidade, mais ainda fiquei com a sua análise dos factos, qualidade na abordagem, abertura, bom-senso e visão crítica. Discutimos abertamente e de forma descontraída sobre diferentes assuntos. Houve momentos em que o outro passageiro entrava na conversa e ficávamos com um debate atrás. Foi interessante perceber como nos ouvia atentamente, como fazia as suas intervenções, como defendia as suas posições e como aceitava as nossas visões. Não foi um governante a jogar na defensiva, a vitimizar-se ou a incriminar os jornalistas de "culpados disto tudo". Penso que é positivo quando os governantes conseguem derrubar certas barreiras ou quebrar tabus. Nos últimos anos, recebi no NJ o anterior e o actual ministro da Comunicação Social, Manuel Homem e Mário Oliveira, respectivamente. No ano passado, Maria do Rosário Bragança, ministra de Estado para a Área Social, foi a convidada do NJ para o Março Mulher, e, este ano, a ministra da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, Teresa Dias, foi a convidada para as celebrações dos 18 anos deste semanário. Para além de Ana Celeste Januário, que, enquanto secretária de Estado para os Direitos Humanos, foi directora convidada de umas das edições. São apenas exemplos, não que a nossa função seja a de receber ministros nas redacções, mas certamente estas aproximações, salvaguardando sempre a liberdade e independências das partes, ajudam sempre a criar um clima mais cordial, harmonioso e respeitoso.
O jornalismo livre, objectivo e independente é fundamental para a afirmação da democracia. E para quem como nós, jornalistas, é, muitas vezes, rotulado, adjectivado e hostilizado (por apenas fazer o seu trabalho), é positivo e reconfortante perceber que ainda existe quem percebe que a Pátria, a competência e a liberdade estão acima de muitas coisas. É positivo estar ao lado e a discutir com um ministro que domina os sectores que dirige, um governante que tem visão e estratégia para o futuro, que pensa e que tem ideias para fazer o País avançar. Que sabe que ser ministro não é profissão, é apenas uma missão. Que sabe qual é o seu lugar como governante e também como cidadão. Sei que, como ele, existem também outros ministros competentes e que devíamos ter mais oportunidades de estar juntos para discutir, debater e criticar abertamente. Este foi um ministro que soube ser e estar durante esta viagem. Soube qual era o seu lugar e que estávamos todos em igualdade de direitos e circunstâncias. Um governante que, antes de tudo, soube mostrar que é um bom cidadão. Um ministro que soube defender o seu Executivo sem ofender e que não se ofendeu quando ouviu ser criticado. Que no final da viagem nos cumprimentou e agradeceu não só pela companhia, mas, sobretudo, pela elevação e nível do diálogo mantido. Mas, acima de tudo, porque, quando teve espaço, possibilidade e oportunidade de mudar de lugar, não o fez. Percebeu qual era o seu lugar e que alguns jornalistas não são tão maus como os pintam. Não vou revelar a sua identidade como aqui prometi, ele que se revele aos seus colegas durante a próxima reunião do Conselho de Ministros.