Angola é um dos países que, devido à sua ainda dependência estrutural das exportações de crude, que ainda respondem por mais de 90% das exportações, das quais depende o acesso vital às divisas, está a ganhar com esta crise no Golfo Pérsico.

Isto, porque, apesar de, como é natural, também em Luanda se apela ao bom senso de Washington e Teerão, especialmente quando o Presidente João Lourenço ainda lidera a União Africana, o OGE 2026 ter sido elaborado com uma média de referência para o barril de Brent nos 61 USD.

Como se pode absorver da generalidade das análises disponíveis esta quarta-feira, 11, nos sites e agências especializadas, é a crise iraniana-norte-americana que está a flamejar os mercados petrolíferos, que sobem substantivamente há já alguns dias.

A ponto desta manhã, perto das 11:35, o barril de Brent, referência maior para as ramas exportadas por Angola, estar à beira de perfurar a barreira psicológica dos 70 USD, ao marcar 69, 70 USD por unidade, uma subida superior a 1,30% face ao fecho anterior.

E a razão para que o Golfo Pérsico seja o foco destes ganhos, na perspectiva dos produtores/exportadores, é que ali se produz mais de 35% do crude consumido no mundo e no Estreito de Ormuz passam pelo menos 30% da matéria-prima que alimenta das refinarias globais.

à par desta realidade efectiva, paira sobre a região uma ameaça "erógena" feita repetidamente pelo Irão, que é a garantia de que os seus sofisticados sistemas balísticos hipersónicos vão penetrar não apenas as bases dos EUA na região e Israel mas também os países onde estão localizadas bases militares norte-americanas, que coincide com os maiores produtores de crude e gás do Médio Oriente: Arábia Saudita, EAU, Catar, Kuwait, Bahrein...

Há "apenas" uma nota em forma de anti-climax que pode resultar em limitações ao evoluir dos mercados, que é a OPEP+ ter uma reunião marcada para as próximas horas, onde podem surgir medidas de reacção a este cenário, e a AIE ter divulgado uma análise onde adverte que a produção mundial actual já está acima da capacidade das economias mundiais queimarem o crude disponível.

Isto, numa altura em que a OPEP+ está a recuar também na linha que manteve ao longo de quase todo 2025 com mensais e substanciais acréscimos de produção, o que gerou uma desvalorização acentuada da matéria-prima da qual ainda muito depende Angola.

Com efeito, em Novembro o "cartel" congelou o seu programa de recuperação de quota devido a um evidente e crescente excesso de produção, tendo agora decidido por manter intocada a produção para Março. Uma boa nova para o Governo angolano.

Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...

... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista

O actual cenário internacional tende a manter os preços acima do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e às incertezas globais...

Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.