Se descermos da ilha e regressarmos ao chão firme das estatísticas, o cenário parece, à primeira vista, tranquilizador. Em Angola, as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) continuam em níveis positivos. O sector não-petrolífero evidencia dinamismo e determinados segmentos apresentam variações percentuais expressivas. Num país habituado à volatilidade petrolífera, qualquer número acima de zero tende a ser interpretado como sinal de recuperação. Contudo, a análise exige prudência. Como é possível que a economia "cresça" enquanto os rendimentos reais das famílias diminuem e as margens de lucros das empresas se comprimem? Como sustentar a narrativa de recuperação quando o poder de compra se deteriora e os indicadores sociais revelam agravamento das condições de vida do povo? Ora, os números podem estar correctos e, ainda assim, contar uma história incompleta.

Ora vejamos,
Os dados das Contas Nacionais Trimestrais publicados pelo Instituto Nacional de Estatisticas mostram que, no terceiro trimestre de 2025, o PIB registou uma variação homóloga de 1,82%, enquanto a taxa de crescimento acumulado se fixou em 2,15%. O sector petrolífero, representando cerca de 19,5% do produto, contraiu 7,77%. O sector não-petrolífero, com um peso aproximado de 80,5%, cresceu 4,14%, o que sustenta o resultado agregado positivo. Destacaram-se a indústria transformadora, o comércio e reparação de veículos, os outros serviços, a construção e a agropecuária. A aritmética é inequívoca: a economia cresce. Não há qualquer erro nos indicadores e os números cumprem escrupulosamente a sua função contabilística. O que se impõe é a sua interpretação económica. Nem toda taxa de crescimento formalmente positiva traduz expansão estrutural da capacidade produtiva ou aumento sustentado do rendimento real. Crescer 1,82% é preferível a contrair, no entanto, a questão é saber se tal crescimento é suficientemente robusto, diversificado e competitivo para alterar a trajectória dos rendimentos das famílias e das empresas.
A literatura económica oferece orientação clara. O Fundo Monetário Internacional tem reiterado, nos seus relatórios sobre economias dependentes de recursos naturais, que o crescimento liderado pelo sector público dificilmente se traduz em ganhos amplos e duradouros quando não é acompanhado por dinamização efectiva do sector privado. O Banco Mundial, de forma convergente, tem sublinhado que a qualidade e a composição do crescimento são determinantes para os seus efeitos sobre o bem-estar e a redução da pobreza. Talvez resida aqui a explicação para o aparente paradoxo: se o PIB cresce, por que razão o cidadão comum não sente essa melhoria? Quando a expansão agregada não se converte num aumento perceptível do rendimento disponível ou da rentabilidade empresarial, o cepticismo deixa de ser emocional e torna-se racional.
O desafio que Angola enfrenta é estrutural, não meramente conjuntural. O Presidente João Lourenço herdou, em 2017, uma economia excessivamente dependente do petróleo, e o imperativo da diversificação é indiscutível. A divergência surge no plano instrumental. A estratégia de relançamento do sector produtivo tem privilegiado a substituição de importações como objectivo central, quando a evidência empírica aponta para a promoção das exportações como verdadeiro motor de uma transformação estrutural. A diferença não é semântica, mas sim económica. A substituição de importações pode reduzir a factura externa e estimular produção interna, mas opera frequentemente em ambiente económico fechado, com incentivos limitados à inovação e ao aumento de salários. Já a orientação exportadora impõe disciplina concorrencial internacional, exige ganhos contínuos de produtividade e cria condições para salários mais altos e lucros empresariais mais sólidos.
Estudos clássicos sustentam esta distinção. Bernard e Jensen (1995) demonstraram que empresas exportadoras são sistematicamente mais produtivas e pagam salários superiores às não exportadoras. Dollar e Kraay (2004) evidenciaram que economias mais integradas no comércio internacional registam maiores taxas de crescimento do rendimento per capita e reduções mais acentuadas da pobreza. A implicação é clara: se o objectivo é elevar rendimentos e fortalecer as empresas, a expansão da base exportadora deve ocupar lugar central na política económica. A substituição de importações pode surgir como consequência natural de uma maior competitividade externa, mas nunca deve constituir o seu fim.
Neste contexto, o Executivo deveria valorizar - e não antagonizar - as empresas nacionais com capacidade de rápida inserção exportadora. Casos como a Leonor Carrinho e o Grupo OPAIA, entre outros poucos bons exemplos, demonstram que é possível construir grupos empresariais com escala, integração vertical e ambição internacional. São precisamente estes conglomerados nacionais que devem ser fortalecidos e multiplicados, pois funcionam como âncoras de cadeias produtivas, geram emprego qualificado e difundem rendimento através da sua rede de fornecedores e subcontratados. Economias pequenas não se transformam por fragmentação empresarial, mas pela emergência de grupos robustos, capazes de competir externamente e atrair investimento directo estrangeiro para sectores onde o país detenha claras vantagens competitivas.
Importa sublinhar que não basta possuir vantagens comparativas naturais. A internacionalização exige vantagens competitivas: eficiência, qualidade, inovação, escala e estabilidade institucional. Sem estas, as empresas não resistem à concorrência global. A atracção de investimento estrangeiro deve concentrar-se nos sectores onde Angola possa desenvolver essas superioridades competitivas, e não apenas explorar vantagens estáticas. É neste enquadramento que a recente aprovação da estratégia de aproveitamento do potencial do Corredor do Lobito assume particular relevância. O Executivo, em articulação com o Banco Mundial e outros parceiros internacionais, lançou um mecanismo de coordenação destinado a acelerar projectos estruturantes em transporte ferroviário, logística integrada e facilitação do comércio ao longo do corredor que liga o porto do Lobito às regiões mineiras da República Democrática do Congo e da Zâmbia. Trata-se de uma infraestrutura com inequívoco potencial estratégico para reduzir custos de transporte, integrar Angola nas cadeias regionais e globais de valor e criar condições objectivas para o aumento das exportações industriais, minerais e agro-alimentares. Contudo, infraestrutura por si só não gera competitividade. O corredor será tão transformador quanto forem competitivas as empresas que o utilizarem.
É também legítimo frisar que, nalguns sectores, a produção nacional tenha sofrido quebras significativas como consequência directa de processos de confisco e recuperação de activos. Tais processos coincidiram com paralisações produtivas que reduziram a capacidade instalada e fragilizaram as cadeias de valor. O caso do cimento é emblemático: um país que detinha excedente produtivo vê-se agora compelido a recorrer à importação. Não é apenas um episódio sectorial, mas sim é um sinal sobre a importância da continuidade operacional e da previsibilidade institucional. Pasme-se!
O paradoxo final permanece: um PIB em crescimento coexistindo com o aumento da pobreza, a erosão do poder de compra e a redução das margens de lucros das empresas não revela erro estatístico, mas sim fragilidade estrutural. Quando a expansão do produto nacional se concentra em sectores pouco expostos à concorrência internacional e de limitada produtividade, o crescimento pode ser formalmente positivo sem ser transformador. É precisamente aqui que se impõe um apelo claro à Equipa Económica do Presidente João Lourenço: é fundamental identificar, proteger e potenciar sectores e empresas com capacidade efectiva de exportação, garantindo estabilidade regulatória, previsibilidade institucional e incentivos consistentes à competitividade externa. Angola precisa de mais grupos empresariais nacionais fortes, mais internacionalização e maior integração nas cadeias globais de valor. Sem essa orientação estratégica, o crescimento continuará a existir nos relatórios, mas dificilmente se traduzirá em prosperidade ampla e sustentável.
No médio e longo prazo, o que determina os salários, os rendimentos e a prosperidade não é a variação percentual do produto, mas a capacidade de elevar a produtividade e a competitividade externa. Como frisou Paul Krugman, economista norte-americano e Nobel da Economia em 2008: "Productivity isn"t everything, but in the long run it is almost everything".

*Professor Auxiliar de Economia e Investigador
Business and Economic School - ISG

Bibliografia
• Bernard, A. B., & Jensen, J. B. (1995). Exporters, jobs, and wages in U.S. manufacturing: 1976-1987. Brookings Papers on Economic Activity: Microeconomics, 1995, 67-119.
• Dollar, D., & Kraay, A. (2004). Trade, growth, and poverty. The Economic Journal, 114(493), F22-F49.

• Instituto Nacional de Estatística (2025). Contas Nacionais Trimestrais - III Trimestre de 2025. Luanda: INE - República de Angola.