A guerra alterou alguns dos pressupostos que permitiam tal equilíbrio, e o aumento de população que se deslocou para Luanda, acabou por encontrar como meio de subsistência a actividade pesqueira (afinal o peixe ainda não tinha sido privatizado!), e toda a orla marítima acabou por acolher uma enorme quantidade de população deslocada, sendo esse fenómeno particularmente significativo junto das grandes cidades. O Mussulo viu assim aumentar significativamente o seu número de habitantes.
Mas os grandes destruidores do Mussulo não foram essas populações, mas sim a nova classe rica que surgiu em Angola, e que passou a considerar muito precárias as condições que estavam estabelecidas para quem queria ter ali um espaço tranquilo, inicialmente para ser utilizado nos fins-de-semana. Afinal, barracas de madeira, em construção precária, sem ar condicionado, e num ambiente de relativa promiscuidade, não condizia com os padrões desses nossos compatriotas. E as regras foram alteradas. O Mussulo deixou de estar sob a alçada da Capitania, que era quem geria a orla marítima, e passou a ser mais uma unidade administrativa gerida pelo governo provincial. Assim passou a ser possível, não só uma ocupação sistemática do espaço, mas a aprovação de edifícios de construção definitiva, com todas as comodidades e, naturalmente, os impactos negativos sobre o frágil ecossistema da ilha.
O Mussulo transformou-se num bairro. Como é regra, nas nossas cidades, os bairros de ricos, por uma questão de equilíbrio, mantêm a sua quota parte de musseque, para que se perceba que o sol ainda não sorriu para todos. A densidade populacional aumentou enormemente, e a praga foi-se alastrando, afectando inclusive os mangais que existiam mais a sul da ilha.
A utilização da via terrestre, com todos os efeitos negativos que tal implica, foi-se intensificando, ainda que recorrendo a veículos todo o terreno. Havia ainda esse pequeno obstáculo, para criar a ilusão, cada vez mais efémera, da sua condição privilegiada. As travessias faziam-se principalmente de barco, dando origem até a uma actividade para pequenos operadores que transportavam os interessados. É claro que os donos da ilha tinham as suas naves para o fazer, e os inúmeros lodges que ali se foram estabelecendo, também ofereciam transporte próprio aos clientes.
Agora, a machadada final. Seguindo a estranha lógica que determina as prioridades no nosso país, a mesma que quer construir novos aeroportos, e esquece as estradas terciárias no mundo rural, considera-se prioritária uma estrada asfaltada para o Mussulo!
Eis os últimos acordes do requiem do paraíso que existia para todos aqui à vista de Luanda...
O Mussulo já era!