Não se trata apenas de uma constatação técnica; trata-se de um sinal profundo sobre o estado do nosso sistema educativo, da nossa cultura física e, em última instância, da forma como estamos a preparar o futuro humano do País.
O corpo é o primeiro instrumento de cidadania. Antes da técnica, antes da ciência, antes mesmo da especialização profissional, existe a base psicomotora que estrutura o indivíduo: equilíbrio, coordenação, resistência, orientação espacial, disciplina corporal.
Quando esta base falha, todo o edifício da aprendizagem torna-se mais difícil. Um jovem com fraca coordenação motora não enfrenta apenas dificuldades físicas; enfrenta limitações cognitivas, emocionais e comportamentais, pois o desenvolvimento motor está profundamente ligado ao desenvolvimento neurológico e à capacidade de concentração, persistência e autocontrolo.
Durante décadas, a educação física foi sendo empurrada para as margens do sistema educativo, muitas vezes tratada como disciplina secundária, quase recreativa, quando na verdade constitui um dos pilares da formação integral.
A escola primária deveria ser o grande laboratório de desenvolvimento psicomotor, o espaço onde a criança aprende a dominar o corpo, a trabalhar em grupo, a respeitar regras, a superar limites e a construir disciplina interior.
Quando esta etapa falha, os efeitos acumulam-se silenciosamente até se tornarem visíveis, como agora, nas instituições que exigem robustez física, coordenação e resistência, como as Forças Armadas.
Mas o problema não é apenas escolar. É também social e civilizacional. A urbanização acelerada, a redução dos espaços de brincadeira livre, o sedentarismo crescente, o excesso de estímulos digitais e a diminuição da cultura desportiva comunitária estão a produzir uma geração menos activa fisicamente.
O corpo, que antes era instrumento natural de exploração do mundo, torna-se progressivamente passivo. E uma sociedade de corpos passivos tende a produzir cidadãos menos resilientes.
As Forças Armadas funcionam aqui como espelho da Nação. Quando o sistema militar detecta fragilidades na base física dos recrutas, está, na verdade, a revelar fragilidades estruturais da sociedade.
O quartel não pode substituir a escola, nem a instituição militar pode compensar integralmente lacunas que deveriam ter sido resolvidas na infância. A preparação do soldado começa, simbolicamente, no recreio da escola primária.
Esta questão exige, portanto, uma abordagem estratégica e intersectorial. Educação, Desporto, Saúde e Defesa devem convergir numa política nacional de desenvolvimento físico da juventude. Revalorizar a educação física, formar professores especializados, reintroduzir práticas regulares de actividade motora nas escolas, estimular o desporto comunitário e promover uma cultura de movimento não são medidas acessórias, são investimentos estruturais no capital humano nacional.
Uma Nação não se constrói apenas com recursos naturais, infra-estruturas ou estabilidade macroeconómica. Constrói-se, acima de tudo, com homens e mulheres física e mentalmente preparados para enfrentar desafios, resistir às adversidades e servir o colectivo.
O corpo disciplinado é, muitas vezes, o primeiro território onde nasce o sentido de responsabilidade e de missão.
Talvez a advertência do General Altino dos Santos deva ser lida não como crítica, mas como alerta estratégico. O futuro das Forças Armadas e, em larga medida, o futuro do País começa na infância.
E começa, silenciosamente, no domínio do próprio corpo.

*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga