E o resultado de ninguém ter ouvido o Presidente russo a pedir que a NATO ficasse longe das fronteiras russas e a Ucrânia fora do mapa da expansão do domínio norte-americano no mundo está à vista: o mais excruciante conflito na Europa desde a II Guerra Mundial.
Naquele púlpito, com os líderes do ocidente a ouvi-lo, tendo ficado famoso o sorriso de gozo do então poderoso senador norte-americano John McCain quando Putin alertava para os riscos do poder hegemónico dos EUA, ficou claro que no Ocidente a Rússia deixara de ser respeitada.
Não é por acaso que Putin, pouco antes, em 2005, considerara que o fim da URSS em 1990 fora "a maior catástrofe geopolítica do Século XX", porque estava claro na cabeça de Putin, o próprio o disse vezes sem fim ao longo dos anos seguintes, que a Rússia teria de reconquistar o respeito e o seu papel no mundo contra tudo e contra todos.
Nessa Conferência de Segurança de 2027, o chefe do Kremlin aludia de forma clara à necessidade de não permitir que o mundo evoluísse "com um único poder, um único centro de força, um único centro de decisão" porque a única via razoável seria "um mundo multipolar", o fim da "ordem mundial baseada em regras" ditadas pelos EUA.
Facilmente se percebe que Putin, na sua visão, estava certo, nem a NATO, organização militar criada em 1949 pelos EUA para impedir o avanço da então União Soviética para Ocidente, deixou de avançar para Leste, em direcção às fronteiras russas, nem os EUA abriram mão do seu poder hegemónico nos anos vindouros.
E foi assim que países como a Polónia, Hungria e República Checa (1999), Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia Roménia e Bulgária (2004), Albânia e Croácia (2009) e, por fim, a Ucrânia recebe o convite para aderir à NATO em 2014, quando um golpe de Estado apoiado pelos EUA e União Europeia afastou do poder em Kiev o Presidente pró-russo Viktor Yanukovich.
Foi a gota de água para Vladimir Putin, que, então já com quase 15 anos na condição de Presidente da Federação Russa, ordenou a anexação da Crimeia, forjando um referendo pouco sólido e não reconhecido internacionalmente, e no Leste, no Donbass, Donetsk e Lugansk auto-proclamavam a independência...
Estava aberta uma longa mas de baixa intensidade guerra entre as regiões secessionistas e as forças leais a Kiev, que, deixando mais de 14 mil mortos entre a população civil russófona, furou o tempo até 2022, quando Moscovo fez avançar as suas unidades militares sobre as fronteiras ucranianas.
Foi nesse contexto que teve início a mais longe e mortal guerra na Europa desde o fim da II Guerra Mundial em 1949, com o Ocidente em peso a apoiar Kiev, fornecendo um fluxo ininterrupto de armas e dinheiro para robustecer a capacidade militar ucraniana.
E, nas palavras dos líderes ocidentais, "ajoelhar a Rússia no campo de batalha", como sintetizou a líder da União Europeia Ursula von der Leyen, pouco tempo depois de 24 de Fevereiro de 2022, ao mesmo tempo que Moscovo era inundada de sanções económicas atiradas de Bruxelas, Washington e até Tóquio, Seul ou Camberra (Austrália).
Prestes a cumprir, no próximo dia 24, quatro longos e dolorosos anos de combates infindáveis, avanços escassos, trazendo à memória as imagens trágicas da I e II Guerra Mundial, e centenas de milhares de mortos e feridos de um e do outro lado, está guerra está agora, muito provavelmente, a chegar à sua última fase.
Russos e ucranianos voltaram a sentar-se à mesa, sob mediação norte-americana, mas com os europeus a procurarem boicotar, a todo o custo, as negociações (ver links em baixo), ao mesmo tempo que líderes como o chanceler alemão Friedrich Merz, ou o Presidente francês, Emmanuel Macron, a defenderem a retoma do diálogo com Putin, Kiev e Moscovo mostram sinais de exaustão de guerra, seja em termos económicos como militares, embora do lado ucraniano isso seja notoriamente mais evidente.
Isto, quando, lá atrás, no tempo, em Munique, no ano de 2007, Putin avisava que a Rússia não se tinha esquecido que, aquando do desmembramento da URSS, de onde saiu a independência da Ucrânia, os líderes ocidentais deram garantias de que a NATO não seria uma ameaça territorial para Moscovo, e não cumpriram.
A ponto de terem aberto a porta da NATO a Kiev, desde logo com Barack Obama, em 2009, e depois com Donald Trump, em 2017, embora tenha sido Joe Biden, em 2021, quem mais pugnou por esse passo que Putin avisara anos antes que seria sinónimo de guerra na Europa, porque isso, a adesão da Ucrânia à Aliança Atlântica, faria com que os misseis americanos ficassem a minutos de voo da capital russa.
E se em 2007, Putin foi a Munique avisar o mundo das linhas vermelhas de Moscovo, agora, com arranque esta sexta-feira, 13, e até 15, Domingo, os líderes mundiais voltam a reunir-se naquela cidade alemã para mais uma Conferência de Segurança, onde o secretário de Estado Marco Rubio e o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky t`^em agendada uma reunião que os analistas estão a considerar como de especial relevância no desenho do epílogo do conflito ucraniano.
Isto, porque o Presidente ucraniano, nas últimas horas, fortemente pressionado pelo Presidente norte-americano Donald Trump para acabar com a guerra até Junho, veio admitir publicamente estar, finalmente, pronto para realizar eleições, com um atraso de quase dois anos, e um referendo de auscultação popular sobre as condições para aceitar um acordo de paz com os russos.
E é isso que Zelensky e Rubio têm para conversar quando se encontrarem em Munique, cidade onde o "bruxo" Vladimir Putin antecipou com quase duas décadas de avanço o que seria a Europa e o mundo nestes tempos, não apenas no tira-teimas das trincheiras no leste ucraniano, como no palco global, onde a ordem mundial baseada nas regras impostas pelos EUA em 1945 chegou ao fim, como o anterior Presidente dos EUA Joe Biden admitiu publicamente.
Marco Rubio vai falar aos seus aliados europeus, em Munique, no Sábado, mas antes deverá sentar-se com Zelensky, sendo que pouco ou nada se afastará do que trump já disse que exige do ucraniano, um desenho claro das etapas a cumprir até Junho, quando a guerra terá de chegar ao seu terminus.
E não é porque Rubio seja uma "pomba da paz", pelo contrário, é um "falcão", mas tal como outros na Administração Trump, desde logo o vice-Presidente JD Vance, tem pretensões a substituir Trump na Casa Branca.
Mas, para isso, a economia norte-americana não pode sucumbir, como está a acontecer, à inflação e ao desemprego quando se aproximam as eleições intercalares de Novembro, onde o Partido Republicano arrisca perder as maiorias no Senado e Câmara dos Representantes no Congresso.
E a guerra na Ucrânia é uma distracção a que Trump, Rubio e JD Vance não se podem permitir, se se quiserem focar na resolução dos problemas internos, especialmente o Presidente dos EUA, que sabe que sem as actuais maiorias nas duas câmaras do Congresso fica sujeito a que o maior escândalo de pedofilia de sempre encerrado nos "Ficheiros Epstein", onde é uma das figuras mais citadas, abra a porta a um processo de afastamento (Impeachment).
Não deixaria de ser de um simbolismo histórico curioso se na Conferência de Segurança de Munique de 2026 se ficasse a saber quais os passos seguintes para acabar com a guerra que em 2007, 19 anos antes, Vladimir Putin viu acontecer nos "búzios" que lançou em frente à elite global no que concerne à Defesa e Segurança da Europa.

















