Os EUA, mediadores das conversações de Abu Dhabi, Emiratos Árabes Unidos, na primeira vez em quatro anos que acontece um encontro trilateral, antecipam que os Presidentes russo e ucraniano podem estar sentados à mesa muito em breve.
A revelação, que é claramente o elemento mais relevante das negociações de dois dias que aconteceram depois dos EUA terem levado ucranianos e russos pela mão para a capital dos Emiratos, foi avançada pela agência Axios, mas não aponta uma data.
Nem pode existir uma data para um encontro entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, porque quando acontecer, é garantido que a guerra acaba logo a seguir, e, para isso acontecer, há questões que ainda estão em brasa sobre o tampo da mesa negocial.
Sabe-se há muito que só há uma forma de acabar com o conflito no leste ucraniano, que é um acordo assinado por Putin e por Zelensky, apesar das dúvidas sobre a legitimidade democrática do ucraniano, que deveria ter realizado eleições em Maio de 2024.
E sabe-se que Putin, que já o fez saber através da sua assessoria de imprensa, só se sentará para assinar um acordo de paz quando tudo estiver resolvido, ao contrário de Zelensky, que já defendeu que quer resolver os diferendos em conversa com o Presidente russo.
Os americanos defendem que a conversa de dois dias, sexta-feira e sábado últimos, correu "muito bem", segundo o enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, e Zelensky apontou o encontro como "muito construtivo", mas da parte russa, pouco se soube, excepto que existe vontade de continuar a conversar.
Putin já o disse inúmeras vezes, que a Rússia prefere acabar com a guerra de forma negociada que pela via militar, mas que está disponível para o fazer de ambas as formas, o que garante que não serão os russos a abandonar as negociações de Abu Dhabi, mas não aproxima propriamente o conflito do seu fim.
E a razão é simples, os russos não disseram ainda estar disponíveis para qualquer desvio às condições anunciadas por Putin em Julho de 2024 para abandonar as hostilidades militares, e que, em síntese, passam pelos pontos onde Kiev mais recusa ceder.
Essas exigências, pelo menos até agora inamovíveis, do lado russo, são o reconhecimento da soberania russa nas cinco regiões anexadas em 2014 (Crimeia) e 2022 (Lugansk, Donetsk, Zaporizhia e Kherson), a Ucrânia fora da NATO e a ausência de forças militares ocidentais no país que restar a Kiev após o fim do conflito.
Zelensky já admitiu que abdica da entrada na NATO e que a questão da ocupação territorial pode ser negociada, embora insista na questão da soberania ucraniana sobre os territórios conquistados pelos russos, mas não se desvia um milímetro das garantias de segurança que devem integrar a presença de milhares de soldados ocidentais na Ucrânia, especialmente norte-americanos, como "tampão para futuras agressões russas".
Perante isto, embora seja necessário lembrar que o conteúdo dos "avanços" em Abu Dhabi referidos por Steve Witkoff, o enviado especial de Trump, continua no segredo dos deuses, é muito difícil antecipar uma data para o tal encontro derradeiro entre Putin e Zelensky.
Mas os russos já deixaram claro que se os EUA não conseguirem levar as negociações a bom porto, mais ninguém o conseguirá, porque os europeus estão, definitivamente, postos de parte, tanto pelos russos como pelos norte-americanos.
E se já não havia grandes dúvidas disso, Dmitri Peskov, o porta-voz do Kremlin, disse, soube-se esta segunda-feira, 26, que a União Europeia está fora das negociações e aludiu mesmo à única forma de mudar esse cenário: afastar a actual chefe da diplomacia europeia, a estoniana Kaja Kallas, que se tem comportado como um falcão de guerra anti-Rússia.
Para já, as conversas de Abu Dhabi, segundo o Kremlin, vão continuar na próxima semana, tendo a Axios apontado como certo que tal acontecerá Sábado, 3, e existe um ambiente muito propício a que estas se desenrolem até haver resultados concretos, porque uma fonte do Kremlin citada pela agência TASS, garantiu que "ninguém vai sair da mesa".
Do lado russo, estão à mesa Yury Ushakov, o conselheiro de Putin para os assuntos internacionais, e o almirante Igor Kostyukov, chefe da GRU, a unidade de intelligentsia militar russa, enquanto do lado ucraniano chefiam a delegação Rustem Umerov, líder do Conselho Nacional de Segurança, e Kirill Budanov, chefe de gabinete de Zelensky e antigo chefe da secreta militar, a HUR.
Há, porém, uma figura relevante no panorama político ucraniano que, indirectamente, está a influenciar o resultado destas negociações, que é o governador de Kiev, Vitalii Klychko, um antigo pugilista, campeão mundial, declarado candidato ao cargo de Presidente do país quando houver eleições e que, esta semana, surpreendeu tudo e todos ao aconselhar os milhões de habitantes de Kiev a deixar a cidade.
Isto, porque, no que foi visto como uma contundente crítica a Zelensky, a capital deixou de ter condições de habitabilidade devido aos ininterruptos e sistemáticos ataques russos à infra-estrutura energética da Ucrânia, por total ineficácia dos sistemas de defesa antiaérea, quando se observam temperaturas de até 20 graus negativos em quase todo o território.
Espera-se ainda que os ataques russos se intensifiquem nos próximos dias porque a deterioração das condições de vida no país são uma forma de pressão de Moscovo sobre as autoridades ucranianas, especialmente no auge dos rigores do Inverno no Hemisfério Norte.








